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Você provavelmente já se deparou com a imagem do Zé Gotinha, o maior símbolo da vacinação no Brasil, carregando uma seringa em formato de fuzil.

Ilustração compartilhada pelo deputado Eduardo Bolsonaro nas redes sociais

O “redesign” do personagem foi compartilhado por Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo, policial federal e filho do atual presidente, no Twitter. A legenda acompanhando a ilustração inicialmente dizia “Nossa arma agora é a vacina”, mas logo foi excluída e republicada com uma alteração significativa na mensagem: “Nossa arma é a vacina”.

A movimentação nas redes sociais para reposicionar a família Bolsonaro em relação a vacinação contra a Covid-19 parece ter sido motivada pelo pronunciamento feito por Lula no dia 10 de março. As adaptações feitas em resposta à reabilitação política do ex-presidente ganharam até um nome, o “Efeito Lula”. Após Lula criticar o desserviço prestado pelo atual presidente na condução das medidas para o controle da pandemia, Bolsonaro aparece de máscara ao lado de seus ministros no mesmo dia; após Lula dizer que o presidente não sabe que a Terra é redonda, Bolsonaro posiciona um globo terrestre no cenário da sua live no dia seguinte.

Jair Bolsonaro transmite sua live semanal com globo terrestre sobre a mesa, um dia após discurso de Lula

E, finalmente, após Lula indagar “Cadê o Zé Gotinha!?”, Eduardo Bolsonaro reaparece com o mascote e o apresenta com uma nova roupagem. A repercussão nas redes da postagem de Eduardo foi tão negativa que imediatamente o personagem ganhou o apelido de “Zé Gotinha Miliciano”. No entanto, o que mais me chamou atenção na ilustração foram as fortes semelhanças com a estética da Ku Klux Klan, a famigerada organização supremacista e terrorista dos Estados Unidos.

A cabeça em forma de gota já é uma infeliz coincidência com o capuz pontudo da Klan. Vale lembrar que o design do Zé Gotinha frequentemente é alvo de críticas e piadas no exterior. Mas devido ao histórico de sucesso das campanhas de vacinação no Brasil e a presença do personagem no imaginário popular, os brasileiros saem em defesa do nosso querido “Joseph Little Drop” toda vez que algum gringo tenta associá-lo ao grupo supremacista norte-americano.

O problema é que a ilustração publicada por Eduardo Bolsonaro traz novos elementos que reforçam essa comparação. O fuzil, por exemplo. Não é novidade que a família Bolsonaro possui um certo “fetiche” por armas de fogo. Mas colocar um fuzil na mão do Zé Gotinha fortalece as associações feitas com a KKK e desvirtua o propósito inicial do personagem, que foi um sucesso justamente por ser uma figura amigável. A Klan é uma organização que se baseia na violência para incutir medo e a exibição de armas de fogo como um símbolo fálico (“quanto maior, melhor”) tem um papel fundamental nisso.

Outro detalhe difícil de ignorar é a presença da bandeira do Brasil como símbolo de patriotismo e ufanismo. O uso de bandeiras do país ou de bandeiras e símbolos que representam um ideal ou tradição “perdida” é um recurso comum empregado por organizações de extrema-direita. Os membros da Ku Klux Klan são frequentemente vistos com bandeiras dos EUA e dos Estados Confederados do Sul, que durante a Guerra Civil Americana, buscaram independência dos estados do Norte para impedir a abolição da escravidão.

Apoiador de Trump carrega uma bandeira dos Confederados durante Invasão do Capitólio em 2021. Foto: The Washington Post

No Brasil, é comum ver a utilização da bandeira nacional (e, às vezes, até a dos Estados Unidos) em manifestações pró-Bolsonaro e atos antidemocráticos, onde saudosos da Ditadura se inspiram nos discursos do presidente para clamar por intervenção militar. Em um desses atos, teve até gente usando bandeira de grupo neonazista da Ucrânia. As bandeiras são “vestidas” como se fossem capas, assim como faz o novo Zé Gotinha.

Apoiadores do governo Bolsonaro exibem bandeira usada por grupo neonazista da Ucrânia em manifestação. Foto: Ettore Chierguni / Estadão Contéudo

Lembra do filme Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018)? Nele, acompanhamos a história baseada em fatos reais de um policial negro que conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan nos anos 70.

Cartazes de Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018)

O grande “vilão” da trama é o então líder da Klan, David Duke, interpretado por Topher Grace. O David Duke da vida real já não é mais líder da KKK, mas seguiu carreira política e hoje continua defendendo pautas nacionalistas, racistas e antissemitas.

À esquerda, Topher Grace como David Duke no filme Infiltrado na Klan; à direita, o verdadeiro David Duke em 1978.

Pois bem, em 2018, mesmo ano em que o filme de Spike Lee era lançado e Bolsonaro concorria à presidência, o ex-líder da Ku Klux Klan elogiou o agora presidente do Brasil: “Ele soa como nós”. E essa não foi a única vez que Bolsonaro teve o seu nome associado ao neonazismo.

David Duke discursa em frente à bandeira dos Estados Confederados em 2004. Foto: Burt Steel / AP

Alvim, Goebbels e Bastardos Inglórios

Como não lembrar de Roberto Alvim, ex-secretário da Cultura do governo Bolsonaro que foi demitido por conta da repercussão de um vídeo em que ele copiava um discurso nazista? Alvim fez um pronunciamento no qual não só parafraseava Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, como também trazia referências que iam da composição visual do cenário até a trilha sonora (foi escolhida uma música de Richard Wagner, compositor queridinho de Adolf Hitler).

Goebbels foi uma das figuras mais importantes do regime nazista, era considerado o braço direito de Hitler. Para ter uma ideia do seu papel enquanto ministro da propaganda, podemos observar o filme Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009), em que ele é um dos personagens.

Cartela de apresentação do personagem interpretado por Sylvester Groth: “Dr. Joseph Goebbells — O homem número dois no Terceiro Reich de Hitler”

Em Bastardos Inglórios, Goebbels é o responsável pela produção e exibição do filme fictício “Stolz der Nation” (em português, “Orgulho da Nação”) que exaltava as ações do soldado nazista Frederick Zoller, interpretado por Daniel Bruhl. O “filme dentro do filme” é uma sátira aos mais de 1.000 filmes produzidos durante o regime nazista. Hitler e Goebbels sabiam do poder do cinema como meio de comunicação em massa e assim transformaram a sétima arte em um dos pilares da máquina de propaganda nazista.

Cartazes de Stolz der Nation no filme Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009)

Portanto, quando Alvim propõe que “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. […] será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo ou então não será nada”, o que ele está fazendo, na verdade, é copiar uma fala de Joseph Goebbels de 1933, na qual ele afirmava que “A arte alemã da próxima década será heroica, […] será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”.

Por mais que Bolsonaro tente se desvencilhar desse flerte com o neonazismo ao dizer que recusa o apoio de supremacistas brancos ou até demitindo Alvim (que ele mesmo havia elogiado e escolhido para ser secretário), estudiosos ainda afirmam que o número de grupos e sites neonazistas cresceram no Brasil desde 2019, incentivados pelos discursos de Bolsonaro.

A origem de um verdadeiro herói nacional

Zé Gotinha simboliza uma das mais longevas e bem-sucedidas campanhas de políticas públicas de saúde no país. Ele ganha vida em 1986, como garoto propaganda do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o qual ajudou a erradicar, por meio da vacinação, doenças de alcance mundial como a varíola e a poliomielite (paralisia infantil). A contribuição do PNI fez-se ainda mais relevante a partir da criação do Sistema Único de Saúde (SUS) algum tempo depois, em 1988.

Zé Gotinha em cartilha do Ministério da Saúde sobre o compromisso de erradicar a pólio. Imagem: Arquivo pessoal Darlan Rosa / Folha de S. Paulo.

O artista plástico Darlan Manoel Rosa é a pessoa por trás da criação do Zé Gotinha. Inicialmente, ele havia sido convidado pelo Ministério da Saúde para criar uma simples marca para representar o compromisso assumido pelo Brasil de erradicar a poliomielite até 1990. Entretanto, Darlan viu a necessidade de ir além do briefing que lhe foi passado. Em entrevista para a TV Câmara, Darlan revela que, durante o seu processo de trabalho, decidiu ver como a imunização acontecia na prática e percebeu que aquela experiência parecia mais como uma “operação de guerra”. Foi aí que ele teve a ideia de criar um personagem infantil que auxiliasse na divulgação da campanha. A ideia de fazer bonecos e elaborar uma fantasia do mascote surgiu logo em seguida, com o intuito de transformar o dia da vacinação em uma grande festa.

Marca do programa de imunizações do Ministério da Saúde. Imagem: Arquivo pessoal Darlan Rosa/Folha de S. Paulo.

“Começamos a trabalhar em função da criança como agente do processo. A criança lembrava o pai do dia de vacinação e isso também tirou um pouco do medo da criança de ser vacinada.”

Darlan Rosa, criador do Zé Gotinha, em sua casa, em Brasília. Foto: Raul Spinassé / Folhapress

Questionado pela Folha de S. Paulo, Darlan diz que o Zé Gotinha compartilhado por Eduardo Bolsonaro é uma “imagem terrível”. Ele relembra que o personagem foi criado em uma época em que o Brasil usava o terror como método de campanha, o que não vinha funcionando.

“Era o vacine ou morra. E eu propus a quebra desse paradigma. Não se educa pela violência e pela imposição. A educação é pelo exemplo. E esse aí com a arma é péssimo.”

Esboço original do Zé Gotinha. Imagem: Arquivo pessoal Darlan Rosa / Folha de S. Paulo

E por que é tão importante proteger esse símbolo?

Nos Estados Unidos, uma outra forma de apropriação simbólica aconteceu com o Pepe The Frog, um personagem de quadrinhos que foi “raptado” e ressignificado pela extrema-direita.

Pepe The Frog é a estrela do documentário Feels Good Man (Arthur Jones, 2020)

O documentário Feels Good Man (Arthur Jones, 2020) faz um ótimo retrato da trajetória de Pepe e o drama vivido pelo seu criador, o artista Matt Furie, que viu sua inocente criatura se transformar em um símbolo de ódio. Em suma, Pepe se popularizou na internet como um meme, mas acabou sendo apropriado por grupos de extrema-direita, que redesenharam o personagem das formas mais abomináveis possíveis. Sempre associado com mensagens e estereótipos racistas, xenofóbicos e misóginos, as novas versões de Pepe eram proliferadas pelos chans, fóruns anônimos da internet. Sua imagem foi tão distorcida e desvirtuada que o inofensivo sapinho acabou entrando para a lista oficial de símbolos de ódio da organização ADL (Liga Antidifamação), ao lado de símbolos como a suástica e a vestimenta da Klan. No entanto, a inocência de Pepe vem sendo recuperada aos poucos, graças a campanha #SavePepe, criada em 2016 por Matt Furie em parceria com a própria ADL. A campanha mobilizou artistas de todo o mundo e ganhou ainda mais força com o lançamento do documentário em 2020.

As diversas versões de Pepe The Frog usadas pela extrema-direita.

Apesar de algumas semelhanças com o que está acontecendo com o Zé Gotinha, o maior perigo proveniente do sequestro de símbolos mora justamente nas diferenças entre os dois casos. Enquanto Pepe era apenas um personagem de quadrinhos criado em 2005, Zé Gotinha é o mascote de uma campanha bem-sucedida de vacinação que impacta positivamente o Brasil desde os anos 80. E o mais preocupante é que essa descaracterização do propósito original está sendo feita de maneira institucional, por representantes do próprio governo.

Trump compartilhou sua versão como Pepe The Frog no Twitter antes de ser eleito em 2016.

Mesmo com a demissão de Alvim, integrantes ou pessoas próximas ao governo Bolsonaro continuam fazendo uso da política do “apito de cachorro”, onde mensagens políticas são transmitidas para grupos específicos por meio de códigos ou símbolos, sem que a maioria das pessoas perceba. O caso mais recente foi o do assessor de Bolsonaro, Filipe Martins, que fez um gesto supremacista durante sessão no Senado.

Essas sinalizações são frequentes e consistentes o bastante para serem lidas como uma estratégia coordenada de comunicação; e não mais como manifestações individuais. É perceptível que a direita opera com o esvaziamento e apropriação de símbolos, conforme a necessidade de chegar ou se manter no poder. A família Bolsonaro agora se esforça para usurpar símbolos que até então rejeitava, enquanto propõe o esvaziamento do que o Zé Gotinha e o seu histórico de sucesso representam para os brasileiros. Não é à toa que a encarnação bolsonarista de Zé Gotinha descartou a marca do SUS e eliminou as características amigáveis do personagem. Ele agora é uma figura “heroica”, “nacional” e “imperativa” que, acompanhada do slogan “Nossa arma é a vacina”, substitui acolhimento e educação por autoritarismo e violência.

Primeiro colofão em um livro impresso, segundo a wikipedia italiana.

1

Legal no sentido de simpático, agradável. O valor jurídico do aviso é questionável.

2

What the font, Identifont, What font is, só pra nomear os três primeiros resultados de uma busca no Bing.

Aviso legal1: o texto a seguir pode conter traços de conflito de interesses.

PARTE I: Introdução ao Colofão

Todo designer que se preze já teve a experiência de olhar para um layout, atônito, e se perguntar, como se seu incerto futuro profissional dependesse da resposta: “Que fonte é essa?”

Hoje em dia existem inúmeras ferramentas on-line2 para tentar solucionar esse dilema ancestral, mas uma ferramenta muito mais antiga e muito mais eficaz vem sendo ignorada por grande parte da comunidade do design: o colofão. “Mas o que diabos é um colofão?”

PARTE II: Definição de Colofão

3

Mentira. Não se pode confiar em qualquer texto encontrado na internet, mesmo quando tem nota de rodapé.

4

Esse truque é ótimo, recomendo.

5

Esse ‘outras coisas’ é basicamente qualquer coisa que a pessoa física ou jurídica responsável pelo livro julgue interessante, podendo inclusive ser usado para jogar praga em potenciais ladrões de livros.

Colofão, aumentativo de colofo3, é, segundo a versão em português da wikipedia, um termo que “designa a nota final de um manuscrito ou de um livro impresso”, o que não nos diz muita coisa.

A versão em inglês da wikipedia4, nesse caso, é muito mais completa, e afirma que o colofão é uma declaração inserida normalmente ao final do livro contendo informações sobre a sua publicação, como local de produção, gráfica, técnica de impressão, papéis e fontes, entre outras coisas5.

O colofão, como Megan Benton afirma neste livro que eu não li, serve a dois propósitos: (1) apelar aos bibliófilos que se interessam pelas curiosidades da produção de livros e (2) permitir que os produtores de livro discretamente puxem a brasa para a sua própria sardinha.

Colofão do livro Against War, impresso em Boston em 1908.

PARTE III: Objeção ao Colofão

William Addison Dwiggins, conhecido por ter cunhado o termo “graphic designer” entre outras contribuições não menos importantes para a profissão, achava que leitores não se importavam e não precisavam saber o tipo de informação que aparece num colofão.

Carl Rollins, entre outras coisas impressor chefe da Yale University Press, dizia que colofões eram vaidade, uma forma de “propaganda gratuita pro vendedor de papel, o encadernador da edição, o homem que espalhou a tinta de impressão”.

Dwiggins está certo em relação à relevância da informação para a maioria do público, mas não leva em consideração que as informações presentes no colofão podem ser muito importantes para um público mais específico (os tais ‘bibliófilos’ que a Megan Benton cita). Carl está certo em relação à parte da vaidade / propaganda, mas, do alto de seu cargo renomado, não consegue ver que tanto ‘propaganda’ quanto o ‘trabalho braçal’ são fundamentais para a sobrevivência da indústria gráfica.

PARTE IV: Colofão Pós-impressão

Decidi escrever este pseudomanifesto porque acredito que o colofão é uma ferramenta poderosa demais para ficar restrita ao livro impresso. O colofão ajuda o designer gráfico a escolher a fonte, o papel e a gráfica na hora de projetar, ao mesmo tempo que ajuda o type designer, o impressor e o fabricante do papel a pagar as contas. O colofão é seu amigo. O colofão é NOSSO amigo.

Botou a Identidade Visual Descolada™ que fez no portfólio? Coloca um colofão lá no rodapé, aproveita o embalo e coloca também um link pro site da Gráfica™ que imprimiu o Cartão de Visita com Borda Holográfica™. Postou o projeto de Design Especulativo™ no Instagram™? Marca lá a arroba da Foundry™ que fez as fontes que você usou, que a chance de ganhar um Repost Gratuito™ é enorme. Resolveu estampar e vender umas Camisetas com Frases Engraçadinhas™? Por que não colocar um colofão na etiqueta? Ou pelo menos na tag?

Onde houver uma fonte sendo usada, ao seu lado há de estar um colofão.

PARTE V: Considerações Finais6

6

Aqui não rolou de ter título com aliteração terminada em ão, desculpa.

7

Passei pra 1ª pessoa do plural pra ficar mais apelativo.

Falei de fontes, foundries e gráficas porque parti do meu ponto de vista de CEO de MEI de uma foundry independente e da perspectiva histórica do colofão, que é toda centrada no livro impresso, mas gostaria de finalizar este manifesto lembrando que o colofão não é ciumento.

Da mesma forma que, enquanto designers, lutamos7 para ter o crédito pelo nosso trabalho reconhecido, é importante lembrarmos também de todos aqueles que contribuíram para que ele fosse possível: dê crédito pro estagiário, pro ilustrador, pro fotógrafo, pro banco de imagens, pro designer que fez o ícone do Noun Project™, pra sua mãe, pro seu pai, pra Xuxa, e pra todo mundo que tiver, de alguma forma, ajudado a botar seu Layout Bacana™ de pé.

PARTE VI: Ilustração da Carreta Furacão Fazendo uma Manifestação pela Banalização do Colofão8

8

Espero que o excesso de aliteração desse título tenha compensado a falta dela no título anterior. Pela atenção, obrigado.

Precisávamos de algo bem apelativo para divulgar o texto nas redes sociais e achei que esta imagem serviria bem para isso.

Ilustração por Diogo Saraiva / Estúdio Passeio

PARTE VII: O Colofão do Manifesto pela Banalização do Colofão

A Revista Recorte™ já tinha seu próprio colofão no rodapé do site antes mesmo da publicação deste texto, mas gostaria de aproveitar este espaço para elogiar publicamente:

O trabalho impecável da Undercase, que fez a Fraunces; variable font usada nos títulos da Revista™ que tem tantos eixos que vale por umas 8 fontes diferentes e ainda é gratuita.

A Inari Type, que fez a Mori Gothic; neo grotesca elegante usada nos textos de apoio da Revista™.

Diogo Saraiva, do Passeio™, por ter conseguido a proeza de deixar o Fofão fofo.

9

Eu sei que o acento caiu na Reforma Ortográfica mas eu gosto muito dele e continuo colocando nos meus textos mesmo assim. O mesmo vale para a trema.

Dominique Kronemberger e Flora de Carvalho, por terem topado embarcar nesta idéia9 errada em forma de texto, ajudando a deixar ele um pouco menos precário através da sua edição e revisão.

Gabriela Silva, que nem viu esse texto antes de ele ficar pronto mas está sempre direta ou indiretamente envolvida em todas as iniciativas furadas da Typeóca™.

A Commercial Type, que fez a Duplicate Ionic; serifada simpática estilo clarendon usada no texto corrido da Revista™ (e que ficou por último na lista porque já é rica e famosa).

13 de março de 2021

O banho de sessenta horas

por Giovani Castelucci

Ilustração por Beatriz Batisteli / Estúdio Passeio

Imagine um banho que dure dois dias e meio. Se a gente levar em conta banhos diários de dez minutos, esse é mais ou menos o tempo que passamos, por ano, debaixo do chuveiro. Caso não precisássemos tomar banho todos os dias, talvez tivéssemos mais tempo para brincar com os gatos, ficar olhando pela janela ou anotar com mais detalhes o sonho que tivemos na última noite. Mas, mesmo sabendo disso, a ideia de tomar um único banho de sessenta horas por ano soa excêntrica demais.

Quando se trata de gestão de projetos, a busca é sempre por diminuir o tempo gasto nas várias atividades que precisam ser executadas, sem perder qualidade no resultado final. Para isso, existem as metodologias ágeis – como o SCRUM – que nada mais são que estruturas de gestão que permitem mensurar o esforço empregado para realizar cada tarefa e priorizá-las da maneira mais eficaz. Umas das premissas que considero mais interessantes na metodologia SCRUM é que devemos levar em conta o tempo que gastamos nos adaptando de uma tarefa a outra, pois precisamos parar pra relembrar do que se trata o projeto, mesmo que rapidamente, a cada vez que trocamos de contexto.

Como um exemplo, considere a tarefa de fazer três listas em uma folha de papel: uma de 1 a 10, outra de I a X (1 a 10 em algarismos romanos) e a terceira de A a J. Você pode escolher entre duas abordagens. Na primeira, você deve colocar um item de cada lista por vez no papel (1, I, A; 2, II, B; 3, III, C… 10, X, J); no segundo modo, você deve concluir cada lista para passar pra outra (1, 2, 3… 10; I, II, III… X; A, B, C… J). Já fiz esse teste com algumas pessoas e é considerável o ganho de tempo ao se fazer da segunda forma, em que a gente só precisa mudar de contexto duas vezes ao longo do exercício (ao invés de mudar cerca de trinta vezes).

Aplicando esse modo de pensar ao nosso dia a dia, certamente ganharíamos bastante tempo ao tomar um único banho no ano, comendo uma única refeição de mais ou menos 250 kg ou tomando cerca de 700 litros de água de uma só vez – janeiro seria bem agitado. No entanto, assim como o sol não permanece no nosso campo de visão por seis meses seguidos (desculpa aí, galera que mora no Círculo Polar Ártico), há ciclos que são fundamentais para o delírio que é viver em uma rocha gigante que se movimenta no espaço.

Os dias são compostos por uma sucessão de atividades que se alternam, e muitas delas fazem sentido através da repetição e do vazio presente no intervalo entre uma ocorrência e outra. É esse vazio o responsável pela reação química que faz com que uma mistura de água e farinha fermente e cresça, se transformando em um aerado pão. É o silêncio em uma conversa que abre espaço para assimilarmos o que a outra pessoa falou ou refletirmos sobre uma nova ideia que nos foi apresentada. Quando preenchemos cada segundo do nosso dia com uma tarefa, uma olhada na rede social do momento ou com o som constante de um aparelho de televisão, não liberamos espaço para que o vazio se instaure e aja sobre nós – mesmo que lentamente, como os movimentos incessantes das placas tectônicas sob nossos pés.

Pode ser muito produtivo aproveitarmos a brecha entre uma atividade e outra para concluirmos uma terceira tarefa, mas assim como plantar muitas árvores de uma vez não faz com que nenhuma delas cresça mais rápido, realizar diversas ações ao mesmo tempo nem sempre resulta em frutos melhores. Muitas vezes, esses frutos se originam de um longo processo, cheio de vazios e silêncios.

Este texto foi originalmente publicado em setembro de 2020 no Medium do autor. Em março de 2021 foi editado e ilustrado para a Recorte.

8 de março de 2021

Estratégias de fuga

por Dominique Kronemberger

Ilustração por Dominique Kronemberger / Estúdio Passeio

Ao que parece, um regime de 16 horas de tela por dia não faz bem para a saúde dos seus olhos. Foi assim que, três meses quarentena adentro, fazendo pausas do computador apenas para olhar o celular e sofrendo de uma insônia para a qual o único paliativo era assistir Netflix até que eu não estivesse mais tecnicamente acordada, me vi obrigada a marcar uma consulta com o oftalmologista. Há muito tempo não ia atualizar meu grau e tinha me esquecido da direção de arte retrofuturista dos consultórios oftalmológicos. Entre modelos de plástico de globos oculares fatiados ao meio e máquinas soviéticas pintadas de bege, me senti aliviada por estar, por um momento, longe de 2020. Saí de lá com amostras grátis de colírio e a recomendação de encontrar alguma coisa para fazer longe das telas.

A sugestão do que essa coisa seria veio, é claro, do Gambito da Rainha. O sucesso da série resultou, pelo menos nos Estados Unidos, em uma alta nas vendas de tabuleiros de xadrez. Isso se explica, em parte, pelo fato de que a vida de Beth Harmon nos anos 60, andando por aí sem máscara e pedindo doses de uísque no avião, adquiriu nas atuais circunstâncias um caráter de fantasia escapista. Pode ser que alguns desses tabuleiros sejam como, nos anos 2000, as varinhas de bruxo compradas nas lojas de brinquedo: a maioria das pessoas que tinha uma não podia fazer mágica, só gostaria de poder fazer. Mas talvez o outro componente desse súbito interesse por xadrez seja que muitos de nós precisamos lembrar como é interagir com uma invenção humana que não está coletando informações nem otimizando nosso engajamento. Eu, sem nenhuma ilusão quanto ao meu potencial de enxadrista, mas exausta dos meus aplicativos, também decidi comprar um tabuleiro de madeira.

Kasparov vs. Deep Blue

É engraçado nos voltarmos para o xadrez como uma distração dos nossos robôs parasitas, já que existe toda uma história entre os jogos de tabuleiro e o desenvolvimento da inteligência artificial. Essa história é frequentemente resumida, na cultura pop, nos jogos disputados em 1996 e 1997 entre o campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, e o computador da IBM, Deep Blue. A narrativa é construída ao redor de duas coisas: primeiro, da ideia de que o xadrez é uma competição que confere ao vencedor superioridade intelectual; segundo, da persona de Kasparov, com a sua energia masculina e terno desalinhado, ranzinza, um pouco arrogante, mas indiscutivelmente genial. Essa era a virada do milênio, quando ainda se acreditava que um homem — e ajudava que fosse um homem com as características de Kasparov — representava toda a humanidade. Para fins de entretenimento (e provavelmente de propaganda da IBM), a mídia transformou Kasparov vs. Deep Blue no confronto definitivo de homem vs. máquina, natureza vs. tecnologia. A vitória dramática para o computador, que aconteceu na melhor de cinco de 97, era a prova incontestável de que a singularidade, o momento em que inteligência artificial autoaperfeiçoável superaria toda a inteligência humana, estava próxima.

“Nicolau Copérnico tirou a Terra do centro do universo, Charles Darwin nos colocou na mesma família dos animais. De certa forma, já assimilamos esses sustos. A razão, porém, como está provado por um simples jogo de xadrez entre os melhores do mundo, é algo unicamente humano, irrepetível, alguma coisa que não se empresta ou ensina a nenhuma outra forma de vida baseada no carbono ou no silício. Esse privilégio vai durar para sempre? Talvez o computador da IBM, com suas duas torres negras de 1,4 tonelada que parecem o resultado do cruzamento da geladeira com o ar-condicionado, esteja prestes a tirar mais esse triunfo da espécie humana.” [Reportagem da VEJA, 7 de maio de 1997]

A parábola Kasparov vs. Deep Blue pode ser interpretada de duas maneiras. Se você se identifica com Kasparov, a moral da história é que seremos derrotados um dia pela tecnologia que criamos, num caminho sem volta. Se você se identifica com o time relativamente anônimo de engenheiros da IBM, então somos como deuses, fabricando criaturas cada vez mais complexas para superar todos os nossos desafios. Esses dois pontos de vista extremos em relação à “questão da tecnologia” têm construído duas realidades paralelas. Enquanto uns se resignaram a compartilhar memes marxistas e sofrer, o equivalente moderno de segurar cartazes de “o fim está próximo”; outros juram que tudo vai ficar bem se você usar shampoo vegano sem parabenos e aguardar Elon Musk aparecer com uma solução mais permanente. O problema da parábola é que, ao admitir apenas duas interpretações, ela oculta outras alternativas para a nossa relação com a tecnologia.

Lee Sedol vs. AlphaGo

Em uma cena do Gambito da Rainha, Beth está sendo entrevistada por uma repórter para a revista LIFE. A repórter diz: “Quando eu era menina não me permitiam ser competitiva”. Beth responde: “Xadrez nem sempre é competitivo. Xadrez também pode ser… bonito”. Faz sentido que, depois de assistir uma partida profissional, uma pessoa saia convencida de que a competitividade é a essência do xadrez. Os maiores jogadores são famosos por serem maus perdedores e não exatamente sociáveis, como exemplificado em diversos compilados de piores apertos de mão. Mas um jogo não se sustenta apenas sobre antagonismo. Talvez um exemplo mais claro disso seja o Go, um jogo de tabuleiro inventado na China há pelo menos 2500 anos.

Go e xadrez são jogos de estratégia. Enquanto no xadrez as peças começam em seus lugares e precisam ser movimentadas de acordo com padrões particulares, no Go o tabuleiro quadriculado começa vazio, e a cada jogada uma peça é posicionada em qualquer um dos vértices. Existem pouquíssimas regras e a essencial é: uma peça que tiver todos os vértices imediatamente ao seu redor ocupados pelo oponente está morta. A peça morta é removida do tabuleiro. Peças em grandes grupos estão mais protegidas, peças isoladas, mais fracas. Go é, portanto, um jogo sobre posicionamento e frequentemente explicado através da analogia militar de conquista de territórios, em que é preciso dividir para conquistar.

1. Pedra com quatro liberdades; 2. Grupo de pedras com seis liberdades; 3. Atari, a pedra branca tem apenas uma liberdade.

No entanto, só porque os dois jogadores querem vencer, não quer dizer que suas estratégias sejam independentes. Se um jogador se concentra demais em capturar peças, provavelmente perderá mais rápido. É preciso estabelecer um equilíbrio, cedendo um pouco de espaço para o jogo do oponente e assim ganhando tempo para evoluir o seu em outro ponto do tabuleiro. Cada jogada é um problema que se propõe ao outro jogador e a forma como ele resolverá esse problema informa a estratégia dos dois. Assim, é, em algum nível, também um jogo de colaboração. 

Vivemos em um tempo obcecado com acumular ganhos e evitar perdas, e podemos esquecer que, por trás dos rankings e das análises combinatórias, os jogos existem para o nosso prazer. “Nada que fazemos é mais humano do que pensar, e nenhum pensamento é mais humano do que aquele que fazemos por diversão” [Definindo o Abstrato, Mark J. Thompson]. Talvez a preocupação de que as máquinas possam superar nossa inteligência esteja informada por uma definição limitada de inteligência: os robôs que programamos para jogar podem pensar, podem ganhar, podem até, num sentido restrito, “aprender”, mas não podem se divertir.

Na verdade, não é apenas nossa definição de inteligência que poderia ser repensada, mas também a de humanidade, tecnologia e natureza. As definições que conhecemos para esses termos, oferecidas pela tradição iluminista, são mesmo as únicas possíveis? É essa pergunta — como propõe o filósofo chinês Yuk Hui, no livro Tecnodiversidade — que abre o potencial para uma terceira forma, nem distópica, nem solucionista, de pensar o futuro. As coisas que chamamos de tecnologia (as redes sociais, nossos celulares, as plataformas de petróleo) são, na verdade, produtos de uma forma de pensar. Tecnologia é a ideia de que tudo pode e precisa ser quantificado, de que a natureza funciona como uma máquina que nós devemos operar da maneira mais eficiente a serviço do progresso. Essa ideia não é universal, e se hoje parece ser, é porque foi imposta ao resto do mundo por um pequeno continente com grandes barcos. 

É essa ideia que permite afirmar que um computador “conquistou” o xadrez, quando na verdade ele apenas computou o xadrez, descartando no processo tudo no jogo que não é matemático. E é a falência desse modo de pensar que fica constrangedoramente evidente quando, 20 anos depois de Kasparov vs. Deep Blue, uma inteligência artificial se torna capaz de vencer um jogador profissional de Go — um jogo muito mais desafiador do que o xadrez para os computadores. As partidas entre Lee Sedol, 18 vezes campeão mundial de Go, e AlphaGo, inteligência artificial da empresa DeepMind (comprada pela Google) podem ser vistas no documentário AlphaGo.

“É intensamente contemplativo…” diz o entrevistado em voice over enquanto vemos crianças jogando Go na escola, adultos jogando Go em cafés. As imagens são provavelmente na Coreia, onde o jogo é muito popular. “[jogar Go] É como tocar a fonte de eletricidade do universo”, continua Frank Lantz, professor de design de jogos na universidade de Nova York. No que parece ser um esforço para dignificar o eventual triunfo do AlphaGo e dos engenheiros da DeepMind, o documentário se dedica a demonstrar o imenso valor que Go possui na cultura do coreano Lee Sedol. Vemos Fan Hui, outro jogador profissional, descrever o jogo como uma metáfora da própria vida, ou como um espelho, “eu olho para Go e vejo a mim mesmo”. A abordagem do filme estabelece uma estranha oposição — de um lado uma tradição milenar intimamente ligada à filosofia oriental, do outro, homens de sapatênis programando em notebooks. E é essa disparidade que amarga o clímax narrativo, quando vemos, em close up, a expressão cada vez mais abatida de Lee Sedol, perdendo a terceira partida consecutiva, enquanto na sala ao lado o grupo de engenheiros, quase todos homens brancos, entre risadas e gracinhas, mandam perguntar se o computador está ganhando, já que não entendem Go num nível suficiente para descobrirem por si próprios. Sim, tudo bem, o confronto é só um espetáculo midiático. Mas não é um espetáculo lisonjeiro. Uma menina coreana que assiste na plateia está em prantos. É difícil afastar a sensação de que algo ruim está acontecendo.

Lee Sedol perdeu quatro de cinco jogos. No que ele venceu, fez uma jogada inusitada a partir da qual o algoritmo passou a avaliar mal as próprias chances de vitória. “Ouvi as pessoas gritando de alegria”, Lee Sedol diz, “acho que está claro o porquê. Elas se sentiram impotentes e com medo. Parecia que nós humanos éramos tão pequenos e frágeis”. Não parece uma bobagem para ele, quando ele afirma: “Com o passar do tempo vai ficar mais difícil ganhar da I.A.”. Hoje já é impossível para um humano vencer a engine de xadrez mais avançada. Por isso é compreensível a emoção com que os entrevistados descrevem a vitória de Lee Sedol, que poderia muito bem ser a última. É uma espécie de luto. Jogos não foram inventados para serem jogados por calculadoras — o incalculável, o resultado desconhecido, é o motivo de jogarmos. Para os computadores, não passa de uma tarefa. Se nós também tivéssemos a capacidade de projetar todas as jogadas até o xeque-mate antes de mover a primeira peça, xadrez seria tão interessante quanto jogo da velha. É um pouco melancólico imaginar uma inteligência artificial condenada a jogar infinitas partidas perfeitamente previsíveis consigo mesma, lá no vazio onde vivem os algoritmos.

AlphaZero

Se em 1996 o maior exemplo de um robô fora de controle vinha de O Exterminador do Futuro, em 2016, algoritmos cujas ramificações éticas não foram consideradas adequadamente ajudaram a eleger Trump presidente. A sala de engenheiros que, sem saber jogar Go, criaram um robô capaz de vencer o campeão mundial, parece representativa do tipo de inovação tecnológica que marcou as últimas décadas: grupos pequenos e pouco diversos de pessoas escrevem sua visão de mundo diretamente no código de como as coisas funcionam. Os engenheiros da DeepMind, desde então, evoluíram o AlphaGo para o AlphaZero que, segundo o CEO Demis Hassabis, poderá ser utilizado para descobrir novos materiais, economizar energia e facilitar o diagnóstico de doenças. São objetivos nobres. Não existe algo intrinsecamente mau em programar inteligências artificiais. Mas, se vamos permitir que elas invadam todos os aspectos das nossas vidas, precisamos nos perguntar que lógica elas perpetuam. Fazer uma pausa para jogar com alguém num tabuleiro de madeira pode ajudar a descansar os nossos olhos para, quem sabe, usá-los para outros modos de ver.

26 de fevereiro de 2021

O que é a Recorte?

por Revista Recorte

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A escrita, como o design, não é apenas uma forma de comunicar, mas um processo. Escrevendo, abrimos válvulas de escape para nossos incômodos e desejos e, ao organizá-los na página, somos capazes de elaborar melhor nossas motivações, descobrir ideias que nem percebemos que estavam se formando, crescendo em algum lugar inconsciente. Escrevendo deixamos até que sentimentos do nosso tempo e cultura se infiltrem no nosso texto e fiquem registrados, para bem e para mal, inspirando críticas e debates no futuro. Para que seja possível aprender, precisamos registrar.

Queremos que a Recorte seja um espaço em que designers explorem sua relação com a profissão, suas frustrações, pequenas obsessões, seus pontos de vista e suas propostas para o futuro. Nossa atividade é frequentemente instrumentalizada para homogeneizar histórias e modos de ver diversos. Serviu como ferramenta para simplificações e generalizações, das quais hoje já temos o suficiente. Esperamos ampliar outras vozes e contribuir para um discurso mais variado e complexo, mais particular e menos universal, sobre design.

Recorte, em uma pesquisa, é definir um assunto. Em design, é definir uma silhueta, uma forma. Com recortes se faz uma colagem. Nosso desejo é que na Recorte você encontre textos informativos, curiosos, engraçados, sérios, indignados, emocionais, experimentais, curtos, longos, falando sobre livros, pessoas, conceitos, objetos, soluções e problemas. Tudo o que é, passa por ou passa perto do design, vale.

Os textos que inauguram a Recorte fizeram parte das leituras complementares do Clube do Livro do Design, um projeto organizado pela designer Tereza Bettinardi, que reúne participantes de todo o Brasil em torno da leitura sobre a prática do design e temas relacionados. São resenhas e ensaios que explicam, expandem ou criticam as questões apresentadas nos livros.

Toda semana você encontra um novo texto. Para não esquecer, siga @revistarecorte no Instagram.

1 de fevereiro de 2021

Bruno Munari e o jiu-jítsu

por Tereza Bettinardi

Bruno Munari em fotografia de Maria Mulas, 1980

No japonês antigo, a palavra asobi significa arte, mas também quer dizer jogo. Arte e jogo caminham de mãos dadas para Bruno Munari (1907-1998). Para ele, arte não é algo exclusivo aos salões e exposições de arte, mas uma atividade exploratória que envolve tanto espectador quanto artista. 

Num mundo movido a palavras como utilidade e desempenho, falar de arte e jogo pode ser considerado um privilégio. Tal percepção nos faz questionar se há ainda espaço para diversão numa realidade que dá cada vez mais importância aos algoritmos ou dados quantificáveis. Nesta realidade, o verbo brincar se aplica apenas às crianças e tem o único objetivo de ensinar um conjunto de habilidades necessárias para atingir um desempenho eficaz no mundo dos adultos. Para adultos, resta, no máximo, o conceito de “gameficação”, normalmente adotado como uma espécie de migalha para cobaias (eu e você, no caso) do Vale do Silício.

Ao mesmo tempo, na nossa prática cotidiana, não nos surpreende que, por exemplo, para garantir uma experiência intuitiva do usuário, a maioria dos sistemas operacionais conte com elementos de interface similares. Ou que carros de marcas diferentes sejam praticamente impossíveis de serem distinguidos a olho nu ou que smartphones sejam cada vez mais parecidos. A pressão pelo caminho “que funciona” transformou a originalidade em um fenômeno cada vez mais raro.

Num mundo movido a palavras como utilidade e desempenho, falar de arte e jogo pode ser considerado um privilégio. Tal percepção nos faz questionar se há ainda espaço para diversão numa realidade que dá cada vez mais importância aos algoritmos ou dados quantificáveis.

Design as Art é uma coleção de ensaios de Munari sobre vários tópicos relativos a design e arte — se é que existe uma distinção entre eles, o que ele questiona no início do livro. São ensaios curtos, uma seleção de artigos ocasionais que escreveu para o jornal milanês Il Giorno por volta dos anos 1960. De cara, a primeira constatação: é preocupante se dar conta que isso foi lido por pessoas comuns, fora da bolha dos interessados em design! O que nos faz perguntar na sequência: quem seria capaz de escrever tais ensaios num jornal de grande circulação hoje?

Na década de 1960, Munari estava convencido de que o design havia se tornado a arte visual mais significativa de seu tempo. A sua própria transformação de artista em designer confere autoridade adicional à sua posição. Ele começou como um artista, juntando-se aos futuristas no final dos anos 1920; posteriormente, participou do movimento Surrealista, onde teve contato direto com André Breton, que influenciou sua produção artística. Suas atividades vão do design gráfico ao design industrial, passando por uma intensa produção gráfica e editorial, tendo publicado diversos livros voltados para o público infantil.

Munari realizou diversos estudos sobre a possibilidade de democratizar a arte e o design, mostrando que ambos são partes da nossa vida cotidiana, e que cada um é igualmente importante. Queria derrubar o mito do artista famoso que produz obras para a intelectualidade: “é preciso entender que, enquanto a arte ficar à parte dos problemas da vida, ela só interessará a muito poucas pessoas”, escreveu. “A cultura hoje está se tornando um assunto de massa, e o artista deve descer de seu pedestal e estar preparado para fazer uma placa para um açougue (se ele souber como fazer isso).”

Em um dos jogos mentais mais inspiradores do livro, Munari descreve uma laranja, ervilhas e uma rosa como se fossem produtos industriais. Seguindo a lógica da produção com propósito — uma lógica que ele pode parecer tolerar —, ele afirma que a rosa é “um objeto sem justificativa e, além disso, pode levar o trabalhador a ter pensamentos fúteis. É, em última análise, até imoral”. 

Inevitavelmente, alguns elementos dessa coleção de escritos curtos dataram, mas a forma de pensar de Munari permanece extraordinariamente relevante para muitos dos problemas de design que enfrentamos hoje. O que torna esta obra e o próprio designer ainda tão relevantes é a capacidade que esses textos têm de nos convocar para observar a beleza do dia a dia.

O livro é polvilhado com esboços de rostos, cadeiras e formas de letras de Munari, diagramas de suas “máquinas inúteis” (móbiles aéreos), reconstruções teóricas de objetos imaginários, designs para lâmpadas e fotos de seus experimentos com imagens projetadas. É evidente a natureza Zen de seu pensamento e sua paixão pela cultura japonesa, como no ensaio sobre a simplicidade, leveza e adaptabilidade de uma casa tradicional japonesa. Ele conclui contrastando isso sarcasticamente com o mármore sujo e incivilizado das casas italianas.

Compartilhando o ideal da Bauhaus de que arte e vida deveriam se fundir novamente, Munari defendia que a arte não deve ser divorciada do cotidiano, um mundo ideal onde vamos para encontrar a beleza; a qualidade visual deve fazer parte da experiência comum de todos. Somente quando os objetos que usamos e os lugares que habitamos se tornarem obras de arte, a vida estará em equilíbrio. Junte-se a isso a rejeição da ideia do designer com um estilo pessoal, que Munari considerou um resquício de romantismo e uma imensa contradição de termos.

Se isso o faz parecer um desmancha-prazeres, ele era tudo, menos isso. O arquiteto e designer italiano Andrea Branzi descreveu o método de Munari como uma espécie de jiu-jítsu, voltando a força do adversário contra si mesmo. Ele foi capaz, observa Branzi, de encontrar gotas de bondade até mesmo nos lugares mais secos. “Para fazer isso, ele não precisa estar ‘contra’ a realidade, mas ‘dentro’ dela.” Em uma entrevista, Branzi fala sobre o quanto o carisma de Munari sempre o fez jogar o mesmo jogo, sempre dentro da mesma arena, até transformar esse jogo em um sistema filosófico extremamente sofisticado. 

Munari defendia que a arte não deve ser divorciada do cotidiano, um mundo ideal onde vamos para encontrar a beleza; a qualidade visual deve fazer parte da experiência comum.

Munari desenhou pouquíssimos objetos, e — o que é mais importante — seus desenhos surgiram quase por acaso, nascidos dessa ideia de busca sem fim. Ele projetou brinquedos, pequenos objetos ou máquinas estranhas totalmente ciente do fato de que ele estava trabalhando em coisas desnecessárias. 

É preciso aceitar e reconhecer com naturalidade que todos os artistas e todas as pessoas criativas fazem “coisas inúteis”. O inútil é uma categoria sagrada. Não existe grande civilização que não tenha investido enorme energia para criar coisas que ninguém havia pedido e cuja utilidade ninguém realmente entendia: poesia, literatura, música, arte. Todos os vestígios do passado estão ligados a coisas desnecessárias. A história da humanidade não é uma história da tecnologia, mas uma história de pensamentos e pessoas. Lide com isso, Vale do Silício.

Retrato de Bruno Munari por Maria Júlia Rêgo para o Clube do livro

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de novembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

3 de fevereiro de 2021

Por que fazemos aquilo que fazemos?

por Guilherme Falcão

Recorte do cartaz do filme Napoleon, criado por Jan Tschichold em 1927

…A essa altura do campeonato, eu não vou sentar aqui e tentar te contar uma história que você talvez já saiba qual é. Ou que consegue encontrar de maneira fácil por aí, com 5 minutos de Google. A história de um homem, este homem — talvez o homem mais importante da história do design europeu? Eu não vou sentar aqui e te contar de novo a história de Jan Tschichold. Designer, tipógrafo, escritor, revolucionário até mesmo quando retrogradou. Eu vou na verdade te fazer uma pergunta: por que fazemos as coisas que fazemos?

Sinceramente, eu não acho que Tschichold tivesse escolha. Ele era quase como um desses personagens de mitos e contos, para quem o destino já parece traçado. Filho de um pintor de letreiros da cidade de Leipzig, seu berço e criação foram a comunidade e cultura tipográfica alemãs. Treinado em caligrafia, realizava trabalhos com tipografia desde cedo; foi pupilo do desenhista de tipos Walter Tiemann; e rapidamente se tornou consultor tipográfico independente para uma gráfica. Dizem que seus primeiros trabalhos combinavam uma sensibilidade refinada e o olhar de composição clássico com uma estratégia que se tornaria uma de suas marcas de procedimento: o uso de tipografias disponíveis comercialmente e papéis de produção industrial. Isso o diferenciava de seus colegas que, treinados em artes visuais ou arquitetura, preferiam o uso de tipografias customizadas e papéis artesanais. Em 1923, com apenas 21 anos, Tschichold visitou a primeira exposição da Bauhaus em Weimar e ficou chocado, excitado, eletrificado com o que viu. Inquieto, agoniado, transtornado… O mundo havia mudado drasticamente diante de seus olhos. E mais do que um praticante, ele se tornou um defensor ideológico da abordagem modernista de design e tipografia. O período entre o final do século 19 e o início do século 20 é cheio de anedotas como as de homens e mulheres, em diferentes países de todo o mundo, que, por meio do contato com outras culturas, povos, acontecimentos, tiveram sua percepção sobre o mundo alterada drasticamente. Certo vira errado, o piso parece sumir de repente debaixo de seus pés, aquele sobressalto, taquicardia e a sensação de “preciso-sair-daqui-e-criar-algo-neste-exato-momento”. Mesmo que fragmentado em diversos movimentos — os “ismos”, as vanguardas —, esse período todo é agrupado dentro de um grande termo chamado “Modernismo”. E segundo o dicionário, ser “moderno” é falar do agora mesmo, deste instante presente que passa agora, no exato momento em que seus olhos passam por entre o espaço dessas letras que escrevi. É sobre essa angústia, entende? Essa angústia que moveu essas pessoas a tentar re-imaginar um novo mundo. A democracia, a abolição da escravidão, a máquina a vapor, a luz elétrica, a vida noturna, a vida urbana e boêmia, o surgimento e crescimento das cidades, a emancipação da pintura com o surgimento da fotografia, eram revoluções e mais revoluções por minuto. É um impulso de energia que não cabe nos corpos, fruto de um transbordamento cognitivo que sobrecarregava os sentidos. Não à toa todo bom “ismo” modernista que se prestasse vinha acompanhado de um manifesto, quase sempre autopublicado numa revista ou jornal: era também uma sobrecarga verborrágica e mental de ideias, propostas de reconstrução do mundo. E tudo defendido com um fervor religioso, em que uma visão se sobrepunha às demais.

A paixão tipográfica de Tschichold se retroalimenta pelo contexto modernista, e o resultado é o tom bombástico e inequivocamente atual de suas ideias. Agora, agora mesmo, como se não houvesse outra alternativa.

Foi nesse fervor aquiniano que Tschichold, impactado pela exposição da Bauhaus, compôs dois textos que mudariam para sempre o design gráfico: Tipografia elementar (1925), uma lista de 10 mandamentos para a composição de textos e páginas nos novos tempos (“Um desenho elementar tipográfico consiste na criação da relação lógica e visual entre as letras, as palavras e o texto a serem compostos num layout, com a relação determinada pelas características específicas de cada trabalho”; e A nova tipografia (1928). A paixão tipográfica que já corria nas veias de Tschichold se retroalimenta pelo contexto modernista, e o resultado é o tom bombástico e inequivocamente atual de suas ideias. Agora, agora mesmo, como se não houvesse outra alternativa. Moderno é também “o indivíduo da época atual”. E eu até hoje acho muito bonito olhar para essas mulheres e homens, seus textos, manifestos, cartas, réplicas e tréplicas, e admirar a profunda convicção com que defendiam suas ideias. Como se o destino do mundo dependesse delas. E, naquele momento, dependiam.

E aí também que nasce o que para mim é a noção mais sofisticada de um termo que hoje é xingamento banalizado de rede social (oh, a humanidade): o socialismo. Ninguém vai entrar na sua casa, deitar na sua cama e comer a sua comida (a menos que você convide, é claro). A ideia aqui é a de que… certas coisas… São “bens” sociais. Mais do que isso, nem “bens” são; elas apenas deveriam ser socialmente disponibilizadas para todos. Deveriam ser “direitos universais”. E para essas mulheres e homens, para Jan Tschichold, uma dessas coisas era o design. O design deve ser social, porque o design é política: ele é ferramenta de construção do mundo e de interação entre os membros da sociedade. É pensar na casa em que habitamos, nas ruas em que transitamos e nos encontramos, nas informações que chegam até nós, nas ideias que trocamos, na roupa que vestimos, a cadeira em que sentamos, o livro que lemos para aprender ou nos distrair. E a forma, funcionalidade e mera presença destes artefatos e de seu pensamento e produção dentro de uma cadeia não deveriam ser sinais de status, glamour ou poder. Entender design (e arquitetura, projeto, e até mesmo arte) como mero estilo de vida é ir exatamente no sentido contrário dessa ideologia. Design é – ou deveria ser – social.

O próximo capítulo desta história você também já sabe qual é: o sonho da utopia social, estética e política do Modernismo é esmagado pelas ideias fascistas e pelo avanço do nazismo na Europa. O próprio Jan Tschichold se torna vítima desse processo, passando alguns anos em um campo de concentração, antes de se exilar na Inglaterra e depois na Suíça, onde residirá até sua morte. E onde também irá se reencontrar com um fantasma: o ideal moderno renascido como simulacro, como forma desprovida de sentido, mas plena de uma ideologia puramente diletante. O design dos anos 1960, autodenominado “estilo internacional”, emergindo da Suíça e pregando um neomodernismo que salvaria o homem dos horrores de uma nova guerra, da bomba atômica, e de si mesmo. Se tudo for projetado nas guias do grid, se todas as tipografias forem neutras, tudo será universal, e todos serão os mesmos. A ideia de democratizar o design como bem social se distorce num estilo rígido, estéril. Belo, porém autoequivocado. “O bom design é supremacia branca”, falam 60 anos depois os designers antirracistas. Tschichold, com sua mente eternamente moderna, já havia entendido isto naquele agora mesmo: na última fase de sua vida, ele rechaça as próprias ideias que defendia, temeroso pelos rumos tortuosos que pudessem levar uma sociedade refém de sua cegueira ideológica. O sabor amargo de enfiar goela abaixo de um povo a pretensão de se saber o que é melhor. A bandeira da “boa forma” é o cúmulo do elitismo disfarçado de democracia. Sem perder sua precisão e atenção ao detalhe, ele incorpora ideias utilitárias com uma maior variedade de uso de cores, formas, tipografias: serifada e não serifada, centralizado e alinhado à esquerda. Não há mais certo e errado, há apenas o que é adequado, busca conforto e harmonia aos olhos de quem o recebe. O trabalho de Tschichold na coleção de capas da Penguin é acolhedor, atemporal.

…Então eu volto a te perguntar: por que você faz aquilo que faz? Com que ideologias se identifica, no que acredita, e que trajetória quer construir para você? Em qual design você acredita? Tschichold vai lhe ensinar a treinar o olhar, respeitar e quebrar as próprias regras, como espaçar, alinhar; e como pensar com o espírito de seu tempo, apegar-se a suas ideias com fervor e a seu trabalho com a paixão de um destino já traçado. Rand vai te ensinar a poesia do trocadilho visual. Munari a ter olhares curiosos para o mundo inteiro à sua volta. Corita a humanidade e doçura de sua verdade interior. Tereza o prazer das palavras na página (ou na tela). Mas, no fim das contas, com mouse e teclado sob as mãos, frente ao documento novo, a decisão é só sua. Use este poder com responsabilidade. E lembre-se de se divertir um pouco no processo.

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de novembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

1 de fevereiro de 2021

Jan Tschichold, a forma e o livro

por Flora de Carvalho

Retrato de Jan Tschichold extraído do Deutsches Buch- und Schriftmuseum

Ingressei na Escola Superior de Desenho Industrial, a famigerada Esdi, em 2009. Depois de um ano inteiro estudando planos e volumes, cores e composições, lixando exaustivamente peças de madeira, metal e resina, chegava a hora, por fim, de colocar tudo em prática na primeira disciplina de Projeto de Comunicação Visual. Na época, meu conhecimento da história do design se limitava, quase exclusivamente, à Bauhaus e sua linhagem de sucessoras, que incluía a Escola de Ulm, iniciada por Otl Aicher, Inge Scholl e Max Bill na Alemanha pós-Segunda Guerra, e a própria Esdi, fundada no Rio de Janeiro em dezembro de 1962.

Em pânico diante do computador, me dediquei a produzir o que até ali entendia como a coisa certa a se fazer: um só tipo geométrico sem serifa para título e texto, criando hierarquias através da variação de escala; texto à esquerda, milimetricamente alinhado a uma ilustração ortogonal. Para finalizar e garantir o meu sucesso, rotacionei a composição inteira alguns graus em sentido anti-horário. Apesar de não estar muito satisfeita, me convenci de que tinha feito tudo que estava ao meu alcance para emular o cartaz criado por Herbert Bayer para uma exposição de Wassily Kandinsky, seu colega no corpo docente da Bauhaus, em 1926.

Cartaz da exposição comemorativa do sexagésimo aniversário de Wassily Kandinsky. Herbert Bayer, 1926

A lista de o que fazer e o que não fazer, no entanto, nem sequer havia sido escrita por um aluno, ex-aluno ou professor da Bauhaus. Ela vinha do livro A nova tipografia, publicado pelo jovem Jan Tschichold em 1928. Nele, Tschichold compilava as diretrizes tipográficas da última década de forma clara, objetiva e bastante imediatista – para não dizer autoritária. Sua influência e determinação foram fundamentais para que os ideais tipográficos de racionalidade, movimento e simplicidade transbordassem o mundo acadêmico e inundassem as oficinas de composição.  

Os textos de Tschichold servem para nós como ponto de ancoragem ou de partida porque associam criatividade a método, e não a genialidade.

Tschichold nasceu em 1902 em Leipzig, cidade alemã que no início do século passado era referência no mercado editorial europeu. Interessado pelas artes gráficas desde a adolescência, aos 20 anos já dava aulas na academia de artes da cidade e trabalhava como calígrafo profissional. Aos 21, visitou a primeira exposição da Bauhaus Weimar e, diz a lenda, ficou encantado. Nos anos seguintes, se dedicou a aperfeiçoar sua prática na direção que o havia maravilhado e a promover e divulgar o trabalho de outros designers que, como ele, acreditavam que a industrialização exigia que a tipografia se comportasse de maneira mecânica. Para isso, os tipos sem serifa deveriam substituir definitivamente a gestualidade das letras serifadas e góticas. O alinhamento à esquerda, por sua vez, injetaria movimento, dinamismo e velocidade às composições simétricas, estáticas e sem vida do passado.

“Daí o predomínio da assimetria na Nova Tipografia. Além disso, a vivacidade da assimetria é expressiva do nosso próprio movimento e do movimento da vida moderna; quando o movimento assimétrico na tipografia toma a lugar do repouso simétrico, isso também é um símbolo das formas mutáveis da vida em geral.” [A nova tipografia, 1928]

Cartazes de filmes para o cinema Phoebus Palast de Munique, criados por Tschichold por volta de 1927

No dia da entrega do meu projeto, vendo os cartazes dos meus colegas de turma enfileirados, percebi que vários outros haviam seguido a mesma receita – uns mais bem-sucedidos, outros menos. Voltei para casa com uma nota oito, que significava “bem executado, mas pouco inspirado”, e a certeza de que algo estava faltando.

Anos depois, não me lembro bem em que ocasião, me deparei com uma capa da coleção The Penguin Shakespeare, publicada pela Penguin Books no início dos anos de 1950. Para minha surpresa, a legenda dizia que o projeto da capa, na qual um retrato em gravura do dramaturgo inglês era combinado a uma moldura ornamentada e a uma tipografia em estilo antigo maravilhosamente bem composta, havia sido concebido por Jan Tschichold mais de 20 anos depois da publicação de A nova tipografia. Minha primeira reação foi pensar que somente algo muito grave poderia motivar uma mudança tão drástica.

Capa de “Rei Lear” na coleção The Penguin Shakespeare, projetada por Tschichold no período em que passou na Inglaterra

Tschichold admite que seu discurso impaciente compartilhava o autoritarismo da retórica nazista e a mesma mania de ordem que justificava o retrocesso político do Terceiro Reich.

Os eventos que alterariam não só a visão de Tschichold, mas também o curso da história, tiveram início em 1933, quando o Partido Nazista se consolidou no poder com o apoio de grande parte da população alemã. Na onda de perseguições que se seguiu, os professores e alunos da Bauhaus foram acusados de “bolchevismo cultural” e emigraram às pressas, principalmente para os Estados Unidos. A escola, influenciada pela geometria desafiadora e pelas ideias revolucionárias de artistas de seu tempo como El Lissitzky, Rodchenko e Malevich, foi desmantelada e em seguida fechada. Tschichold e sua família foram surpreendidos por soldados armados em Munique, onde moravam desde 1926, que revistaram sua casa em busca de pretextos e acabaram encontrando o que procuravam: cartazes soviéticos. Jan e Edith foram presos imediatamente. Ela por dois dias, e ele por seis semanas, acusado de divulgar e praticar uma “tipografia antialemã”. Em liberdade, emigraram para a Suíça, de onde jamais retornaram.

No exílio, Tschichold parou de promover A nova tipografia. No ensaio “Glaube und Wirklichkeit” [“Crença e realidade” ou “Fé e fato”] de 1946, ele admite que seu discurso impaciente compartilhava o autoritarismo da retórica nazista e estava enraizado na mesma mania de ordem que também justificava o retrocesso político representado pelo Terceiro Reich. O desprezo da tradição era, portanto, uma forma de arrogância. Dali em diante, na paz democrática da Suíça, o interesse de Tschichold se voltou, quase exclusivamente, ao objeto mais simples e complexo já produzido pelo homem e sua indústria: o livro.

“Se é complicado demais não pode ser moderno.” [Sobre Tipografia, 1975]

O conjunto de ensaios publicado originalmente em 1975, com o título “A forma do livro”, só seria traduzido para o inglês, por Robert Bringhurst (autor de Elementos do estilo tipográfico), em 1991, e publicado no Brasil em 2007. Em mais de vinte textos críticos sobre temas gerais da prática do design gráfico e especificidades tipográficas, Tschichold procura sistematizar a intuição, descrevendo vigorosamente os parâmetros de qualidade de uma boa composição. Para ele, somente um impresso que honra a tradição do livro europeu é capaz de emergir de prateleiras e mais prateleiras de modismos injustificados. Ou seja, o design de qualidade teria origem na pesquisa histórica e na análise científica de tudo que já foi feito. E a inovação pela inovação não passaria de um capricho.

O ritmo de leitura ideal e a harmonia perfeita dependeriam, portanto, de um mergulho nos elementos da página: a relação entre tamanho da página e mancha de texto, margens e alinhamento, corpo e entrelinha, espaço entre palavras e entre letras, forma e contraforma, branco e preto, papel e tinta. Como bom explorador, Tschichold dedicou grande parte de sua carreira a observar e descrever as relações de proporção que encontrou em sua jornada – como Darwin observando Galápagos, ou Galileu olhando para o céu. Os textos de Tschichold servem para nós, designers do século 21, como ponto de ancoragem ou de partida, porque associam criatividade a método, e não a genialidade. Segundo eles, o terror da página em branco, seria diluído se considerássemos combinações e estratégias preexistentes.

Como designer, entendo quem acha A forma do livro exaustivo e até angustiante. É possível chegar a esse nível de experiência e precisão? Ainda mais depois de 2020, o ano da abolição do planejamento? Para evitar a crise, sugiro que você pense nestes ensaios como fábulas de uma época distante, na qual era possível alcançar algum tipo de controle. 

Como leitora, me incomoda ser tratada por Tschichold como uma criatura solitária e indefesa. Ler não é um ato passivo, muito pelo contrário: exige muito dos olhos e da capacidade do cérebro de reconhecer e conectar. Ainda mais hoje, quando a leitura imersiva é uma atividade ameaçada pelo scroll infinito das redes sociais, projetado para sugar nossa atenção.

Naquela manhã em que entreguei meu primeiro projeto de comunicação visual, o que me faltava era a perspectiva do tempo. Enxergar a história [do design] de forma linear em vez de espiralada, limita a compreensão e atravanca a criatividade. A parte desse emaranhado que pertence a Jan Tschichold nos mostra que é possível voltar atrás, desfazer, recomeçar e avançar de novo. Sua mania de escrever e documentar é um convite para nos posicionarmos de maneira crítica não somente em relação à profissão de designer, mas também ao mundo ao nosso redor, que tem desafiado nossa sanidade, desprezado o poder da educação e minado a democracia com intolerância.

Retrato de Jan Tschichold para o Clube do livro por Maria Júlia Rêgo para o Clube do livro

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de novembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

18 de fevereiro de 2021

Sobre “O detalhe na tipografia”

por Catherine Dixon

Ilustração por Beatriz Batisteli e Flora de Carvalho / Estúdio Passeio

Este livro curtinho de Hochuli está sempre ao meu alcance, seja quando estou trabalhando como designer editorial, seja quando estou ensinando. É um dos poucos livros que eu recomendo aos estudantes de fato investirem, não só porque manteve preço e custo de produção justos nesse mercado de livros de design, muitas vezes feitos de forma dispendiosa. Seu valor, para mim, também se sustenta na medida em que meu próprio conhecimento se aprofundou e eu fui capaz de voltar a ele e apreciar melhor os sutis argumentos visuais que ele elabora. É mesmo sempre bom rever a razão dessas recomendações e essa oportunidade de refletir exatamente sobre qual o valor desse livro me permitiu não só fundamentar minhas opiniões anteriores, mas encontrar ainda mais relevância em suas páginas no que diz respeito aos debates atuais de design. 

Detalhe e especialização

1

The world beyond your head. London: Penguin/Viking 2015, p. 209-210.

2

Catherine Dixon, “Strategy is never enough”, Eye Magazine, 94, 2017.

3

“Do It Yourself: Democracy and design”, Journal of Design History, vol. 19, n. 1, 2006.

4

“Type today and tomorrow”, em Scot Williams e Henrik Kubel, New perspectives in typography. London: Laurence King, 2015, p. 47.

5

Laura Potter, By hand & brain (Beeker Northam, 2015).

O simples fato de ser um livro sobre detalhes o torna fora de moda em uma época em que, como Matthew Crawford observa, “diz-se que a economia exige trabalhadores que sejam flexíveis. Parece que o ideal é que não se sintam sobrecarregados com nenhuma série de habilidades ou conhecimentos… E assim uma educação do século 21 deve formar trabalhadores que sejam matéria-prima igualmente indeterminada e disruptível. Quanto menos situados, melhor”1. Tal pensamento é reforçado de dentro da educação em design com apelos por mudanças em direção a uma compreensão estratégica mais totalizante do design, com particular ênfase no Design Thinking. Como mencionei em uma crítica dessa ênfase excessivamente estratégica, “enquanto o mundo do design está ocupado respondendo ao chamado de Tim Brown da IDEO para se envolver no panorama socialmente inovador do design, gerir as minúcias do espaçamento tipográfico pode ficar um pouco perdido – ainda mais em uma pauta pedagógica”2.

Esses argumentos vão ao encontro da suposição inconveniente de que a maioria das pessoas hoje em dia vai entender como tipografia funciona só porque sabem o que são fontes e usam computadores. Como Paul Atkinson observa com precisão, o ponto positivo aqui é que “o acesso a novas ferramentas [como o DTP] deu às pessoas independência e autoconfiança”. No entanto, talvez menos positiva seja a sua afirmação de que essa nova democracia as libertou “das garras dos artífices profissionais e dos artesãos qualificados” e permitiu “reagir contra os princípios e os decretos dos sommeliers do design”3. Mais cautelosamente, Monika Parrinder e Colin Davies observam que, enquanto o imediatismo do acesso tipográfico é libertador, “é preciso tempo, formação e paixão de aprender” e que o fracasso (ou recusa) em reconhecer o design como “um composto de práticas especializadas” configura uma lacuna problemática na compreensão4.

A preocupação deles em apontar essa lacuna alinha-se com uma vontade de combater o achatamento redutor do mercado digital por meio da difusão ampla de narrativas de ofício. Como observou a maker Laura Potter, precisamos entender “o contexto de produção de um objeto, habilidades e conhecimentos incorporados nele e a qualidade dos materiais – sua complexidade – para que [nós] possamos desenvolver uma compreensão de como e por que coisas semelhantes podem ser valorizadas de forma diferente”5.

Detalhe no contexto

6

Paul Luna, Typography, a very short introduction. Oxford: O. U. P., 2018, p. 127.

7

Ibidem, p. 52.

8

Ibidem, p. 55.

O contexto de produção do livro de Hochuli enquanto objeto tem seus problemas, sendo a cultura de publicação editorial do design na Europa predominantemente branca, colonialmente orientada e masculina. Deixando isso de lado, o livro fala para um público de colegas designers como se estivesse compartilhando uma experiência aprendida dentro de uma “comunidade de prática”. A forma como o conhecimento é transmitido parece mais generosa do que didática. O livro foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Agfa-Compugraphic em 1987, mas desde então foi impresso em várias edições, formatos e línguas por muitas editoras diferentes. O mercado dos textos tipográficos “clássicos” e da sua reprodução ao longo dos anos já está bem estabelecido. Um exemplo é Finer points in the spacing and arrangement of type, de Geoffrey Dowding, originalmente publicado em 1966 como uma cartilha para estudantes de tipografia e que continua à venda. Parece importante, então, diferenciar dessa prática obsoleta a abordagem mais responsiva empregada para a produção do livro de Hochuli, ao qual foi permitido evoluir em resposta à mudança de contexto de suas várias edições. 

Contexto de produção é um princípio central da abordagem de Hochuli para considerar a melhor forma de tratar os detalhes na tipografia. Aqui Hochuli está preocupado principalmente com a composição para o alfabeto latino e a relação com a interpretação do leitor dentro do gênero tipográfico específico da leitura contínua. Como Paul Luna observa, “a maioria dos desafios tipográficos são fincados em gêneros específicos”6, então, para as ideias de Hochuli, é importante determinar o contexto tipográfico. E embora Hochuli siga uma linguagem comum da discussão tipográfica, referindo-se a uma linguagem de “regras”, ele faz questão de se distanciar da armadilha óbvia insinuada por esse termo e de sua associação com uma aplicação inquestionável e mecânica da informação. É na sua responsividade, não na sua austeridade, que a tipografia se torna um ofício, “não no sentido de que cumpre prescrições incompreendidas, e sim de que emprega, de maneira precisa, uma experiência solidamente verificada”7.

Nem absolutas, nem universalmente aplicáveis, é possível que as “regras” que Hochuli estabelece operem apenas dentro do contexto umas das outras. Como ele deixa claro, “o detalhe nunca deve ser considerado isoladamente”8. A solução tipográfica dos problemas que surgem de um determinado texto exige que o designer equilibre uma série de fatores ao mesmo tempo, reconhecendo que cada decisão tomada tem influência numa sequência de outras. Pensar é incontornável. Isso deveria ser uma boa notícia, já que as ameaças da automação digital pairam sobre a profissão de design e, como designers, cada um de nós precisa considerar seriamente o valor humano que agregamos.

Detalhe como gosto?

9

Ibidem, p. 7.

10

Norman Potter, What is a designer. London: Hyphen, 1989, p. 13.

11

Paul Luna, Typography, a very short introduction. Oxford: O. U. P., 2018, p. 107.

12

Ibidem, p. 52.

13

Visible language, 47:3, p. 7495.

14

Typography, p. 117-118.

Se esse valor agregado se resume a gosto, então prepare-se para o desemprego, porque o mundo vai questionar por que o seu gosto “de designer” é melhor do que o de qualquer um deles. Por isso, a importância de Hochuli explicar sua história de ofício tipográfico com uma defesa do engajamento em pesquisa, de maneira bastante centrada no humano. O que ele estabelece tem pouco a ver com a “liberdade estética pessoal ou gosto pessoal” dele, aceitando que outros designers podem resolver certos problemas de forma diferente. As “questões formais” que ele aborda estão além dos interesses “criativos” de muitos designers gráficos e tipográficos, e, em vez disso, dizem respeito aos “elementos visíveis que possibilitam uma recepção mais eficaz do texto”9.

Ao considerar as consequências de seu pensamento e ofício, Hochuli está cumprindo todos os três aspectos do design definidos por Norman Potter, na “concepção de uma ação, na confecção de meios para realizá-la e em uma estimativa de seus efeitos”10. Sua preocupação não é apenas em compartilhar o que Luna identifica como um “conhecimento tácito do ofício”, mas também compartilhar os meios para entender por que essas práticas funcionam. E para entender melhor a resposta humana a essas práticas, Hochuli voltou-se para a psicologia e a teoria da percepção. Como Luna afirma de modo semelhante, “investigações de psicólogos sobre leitura podem identificar os fatores que tornam fontes legíveis em diferentes circunstâncias e sugerir as melhores soluções para facilitar a leitura”11

Como Hochuli reconhece, a tipografia não é nem uma ciência nem uma arte12, mas, como ele demonstra, a prática do design de texto pode se beneficiar significativamente ao permitir à ciência e à arte que se cruzem. Da mesma forma, Sophie Beier e Mary Dyson advogam a importância dos designers que trabalham com descobertas científicas13, e Luna também defende a investigação como base para a prática tipográfica, creditando parte da eficácia do estudo de 2012 feito por Ann Bessemans – acerca dos desafios de leitura de crianças com deficiência visual – às funções que ela cumpriu como investigadora e como designer da solução14. O trabalho de Beier e Bessemans talvez ofereça mais referências contemporâneas para um estudo de legibilidade do que aquelas apresentadas por Hochuli em 2005. Ainda assim, espera-se uma sensibilidade cronológica com as referências científicas. Pesquisas mudam, e os principais resultados são suscetíveis de serem contestados. O importante é que Hochuli estabelece a ligação entre a tipografia e a teoria científica. Trata-se de uma ligação vital, que vai além das vaidades de design, para conhecimentos baseados em evidências que beneficiam todos os interessados.

Detalhe em questão

15

Visual Language, 50:3, p. 7-23.

16

Architecture for the people and by the people, fev. 2013.

17

Norman Potter, What is a designer. London: Hyphen, 1989, p. 108.

18

The shape of things, a philosophy of design. London: Reaktion, 2011, p. 17.

19

“Peter Hall in conversation with Rebecca Ross”, 27 jan. 2016.

20

“Socialised affection” em Specialism de David Blamey. London: Occasional Table, 2016, p. 40-41.

Na ausência de evidências, as habilidades e os conhecimentos imbricados nas detalhadas práticas tipográficas têm sido facilmente descartados como aspectos de uma estrutura “orientada a artefatos” do design do século 20, cujo objetivo foi determinado por Meredith Davis como “fazer as coisas funcionarem e parecerem melhores”15. Aqui, Davis rejeita a especialidade do designer e o alto valor colocado no ofício como respostas válidas para os problemas sistêmicos complexos que o mundo enfrenta, alinhando-se com Alastair Parvin em uma rejeição ao tradicional entendimento do design como “algo feito para as pessoas por especialistas na área”16.

Para ser justa, tal crítica não é despropositada. Há cinquenta anos, Potter advertiu contra o “profissionalismo charlatão” no design, que talvez tenha se expressado mais obviamente no protecionismo e na retórica, geralmente mal fundamentada, da racionalização ao vender uma ideia a um cliente17. Por que devemos ser confiáveis? Como Vilém Flusser observou, devido a nossa linguagem “de designer” e seus esquemas, conspirações e ilusões com a intenção de ludibriar, não teriam os designers se tornado indignos de confiança?18 Além disso, como observa Peter Hall, “o perigo é a tendência reacionária entre os designers de patrulhar os perímetros da ‘profissão’ de design gráfico e se tornar fabricantes de gosto e controladores”19

No entanto, a especialização não tem que construir limites disciplinares nem reforçar as estruturas de poder profissional e acadêmico existentes. Como Neil Cummings identifica, o que parece possível é a reunião de “uma generosa inteligência coletiva, um infinito bem comum cultural agregado a partir de culturas especializadas”20. Aqui é interessante notar que Davis e outros autores dependem da integridade tipográfica dos periódicos em que publicam seus trabalhos para realizar todo o debate em torno de desmaterializar o design. Mesmo problemas sistêmicos complexos precisam ser comunicados e geralmente necessitarão de uma intervenção tipográfica para serem solucionados e documentados. A centralidade da atividade de leitura e a complexidade de fazer design com texto em uma arena global de comunicações multicanais exigem que encontremos uma maneira de articular melhor os benefícios do conhecimento tipográfico especializado comum, se quisermos garantir que a nossa negociação diária de quantidades cada vez maiores de informação seja tão humana e acessível quanto possível.

Detalhe como investigação 

21

Ibidem, p. 7.

22

Paul Luna, Typography, a very short introduction. Oxford: O. U. P., 2018, p. 105.

É claro que fazer isso é se envolver com um espectro muito mais amplo de práticas tipográficas do que é abordado no âmbito desse livro. No entanto, espera-se que o valor do olhar especializado oferecido dentro desse espectro seja claro. E, embora seja ostensivamente sobre detalhes, espero que também fique claro que o volume contribui muito mais para os debates em andamento do que meras observações sobre o tratamento eficaz da microtipografia. Os detalhes de fato importam muito menos do que o espírito de design que ele elabora, no qual a prática tipográfica se torna uma forma sutil de investigação21.

Hochuli começa e termina seu texto com ressalvas em relação a uma “checklist” para aplicação de soluções prescritas, o que pode decepcionar aqueles que estão procurando por instruções mais diretas. Sempre consciente da necessidade de reduzir a monotonia, Hochuli também entende que o texto é especialmente difícil de ler quando você está dormindo! A criatividade e o design orientado pela pesquisa não se excluem mutuamente dentro desse paradigma de prática. Em vez disso, a criatividade combina com a consciência contextual e com uma mente aberta e crítica para se proteger contra abordagens genéricas ou tecnologicamente determinadas. Como Luna ecoa, até a subversão pode ser positiva se for informada, já que “gêneros e normas de legibilidade podem ser subvertidos de propósito, e as escolhas de tipografia podem ser deliberadamente excêntricas [porque], dessa forma, projetos que se destinam a ser contemplados em vez de lidos oferecem aos tipógrafos convencionais um meio de questionar o seu raciocínio como profissionais, e fornecem mais provas de que a forma visual de comunicação impressa nunca é acidental”22.

Este texto foi traduzido por Eduardo Souza e publicado originalmente como leitura complementar do mês de outubro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

18 de fevereiro de 2021

Paul Rand e o galinheiro

por Eduardo Viveiros

Você já reparou nos bancos do Parque da Água Branca? Estou sentado em um deles enquanto começo a rascunhar este texto sobre a obra prima de Paul Rand, usando duas máscaras no rosto e fingindo que não há uma pandemia do lado de fora (de fora de onde?, me pergunto). Aos meus pés, dois galos ciscam em busca de alguma sustância para a tarde e disputam a atenção de uma galinha com cara de assustada — um deles, já com a crista deformada por brigas anteriores, insiste no cortejo mesmo depois de tomar um chega pra lá do colega, de crista inteira e altivo, claramente o garanhão do pedaço. Não à toa, a fêmea continua voltando pra perto do ganhador, apesar de também ganhar a sua porção de bicadas, num cortejo absurdo. 

Para quem me lê e não é de São Paulo, um contexto: este parque é um encrave de natureza e aves soltas no meio da Zona Oeste da cidade. Começou a ser pensado no início do século passado, a pedido do setor pecuário, e mantém até hoje um grande curral, estábulos e estruturas para exposição de animais. Apesar de inaugurado pouco antes da década de 1930, ganhou a extensão atual em 1942 (cinco anos antes, aliás, de Rand publicar a primeira edição de Pensamentos sobre design). A arquitetura tem influências do estilo Normando, com cara de casa de fazenda rica, mas também umas pitadas de Art Deco (afinal, era o must da época, e os ruralistas de então ainda não eram representantes da “crise estética” que vivemos hoje). 

Pincelados pelo parque, os tais bancos entram na onda do mobiliário urbano à decô. São de granilite, com curvas simples e eficientes, apoiados em pés com adornos feito garras (falta-me o vocabulário técnico, perdão) pintados de amarelo, confortáveis o suficiente para o passante ler um livro ou observar galinhas. Andei recorrendo a estes bancos com alguma frequência para um alívio mental na quarentena e tenho olhado-os com certa fascinação, pensando inclusive em produzir uma publicação sobre eles. Mas digressiono. 

O mais curioso em relação a esses móveis é que todos eles são pequenos… outdoors fora de época. Sabe aquelas estátuas de igrejas financiadas por famílias abastadas, que têm o seu ego agraciado com uma placa de agradecimento? O movimento é o mesmo. Como o parque foi financiado por lobby pecuário, parece-me que cada banco foi pago e doado por membros ligados a esse grupo, que ganharam a chance de expor suas marcas ali mesmo. 

Então, cada espaldar tem pintado, até hoje, anúncios defuntos de iniciativas ligadas ao assunto. Da Fazenda Cajuru, de Sorocaba, e seus porcos pintados com tinta vermelha, até fornecedores de polias e casas têxteis especializadas em tapeçaria (afinal, penso, se você tem uma sede de fazenda como um bom rei do gado, vai gastar uma fortuna com tapetes). É um documentário vivo de uma época e seus telefones de seis dígitos e endereços desatualizados. 

Pensamentos sobre design é também um livro de época. Não por isso datado, mas claramente representante de uma fase em que os SEGREDOS DA COMUNICAÇÃO, essa caixa de Pandora que o mercado sempre tentou manter fechada para poucos, eram pretensamente conhecidos e chancelados apenas pelos homens brancos da Madison Avenue e seus copos de uísque (alô, Don Draper). Seu autor Paul Rand, apesar de fugir um pouco desse clichê, como um geniozinho fora da curva e de construção autodidata com seu trabalho modernista sorvido de fontes europeias, era também um deles — quando publicou a primeira edição desse livro, já tinha sido alçado ao panteão dos diretores de arte das grandes corporações antes mesmo de completar 30 anos. 

Mas, problemáticas classistas à parte, o que faz seus Pensamentos ainda valerem como um pequeno manual filosófico para designers e interessados no assunto — e não como um how to anacrônico para 2020? 

Rand não era lá um grande escritor, mas já tinha então acumulado cultura geral mais que suficiente para fazer pontuar sua linha de pensamento. Assim como o seu trabalho de logotipia é incensado até hoje pela economia de elementos e potência de comunicabilidade (como na marca da IBM, do conglomerado televisivo ABC, que seria copiado por Silvio Santos, ou, minha favorita, a clássica da Westinghouse Electric Corporation), suas reflexões no livro são desmontadas até atingir o bojo central do assunto. 

É a vantagem de ser autodidata, arriscaria dizer, pois ele escreve sem os vícios enquadrantes da academia. Afinal de contas, é um livro sobre design que começa com uma poesia — na qual ele pontua que “design não é bom se for irrelevante”. Se o livro acabasse ali, já seria eficiente o bastante. Como um enunciado de Platão (que Rand também cita nas suas páginas, um pouco pedante um pouco espertinho), é um daqueles aforismos absolutamente óbvios, mas que alguém precisava dizer — e que o mercado, os contratantes, os publicitários, os próprios designers no afã de produzir a toque de caixa, esquecem frequentemente. 

O trabalho de Rand, claro, é o grande exemplo de todas as suas análises. Afinal, é um livro com seus pensamentos e ele nem precisaria incluir outros criativos para dar conta do (seu) recado. Das suas diversões com tipografia até marcas registradas de elementos geométricos, influências da Bauhaus, narrativas eficientes e repetições na diagramação, o designer está olhando para você sob a armação dos óculos e dizendo naturalmente “veja como o meu trabalho é relevante, meu bem”. Algo que, convenhamos, poderia ser um bocado irritante. 

Mas, ao contrário do que faria Washington Olivetto, o americano não cai na armadilha de fazer o livro ser sobre si. Pelo contrário, ele parte da realização do seu trabalho para instigar o pensamento de quem o lê a entender qual é a problemática primordial do design na sua criação. O leitor nem precisa necessariamente gostar da estética criada pelo autor para entender que “fazer picadinho do processo criativo”, como ele propõe, é algo danoso para o mercado inteiro em longo prazo. 

Paul Rand parte da realização do seu trabalho para instigar o pensamento de quem o lê a entender qual é a problemática primordial do design na sua criação.

O que traz o meu pensamento para hoje em dia, quando a caixa de Pandora que citei ali em cima já está mais que escancarada e todo mundo é um comunicador em potencial e um designer diletante. Ainda assim, com todas as ferramentas abertas, todos os processos à mão, literalmente todas as possibilidades do mundo à disposição… o que mais se vê são designs massificados, repetições derivativas, muita gente esforçada em apenas reproduzir template do que é pretensamente legal em vez de tentar partir da blank page. 

Lembra-se da narrativa dos galos que fiz lá em cima? Há algum tempo, os designers esforçados eram aquele macho com a crista desgraçada, e a galinha era o mercado — esta sempre voltando para as asas da criação padrão do galo garanhão, mesmo depois de tomar porrada, enquanto o pobre do garnisé esforçava-se por uma peninha de atenção.

Hoje, penso eu, os papéis estão invertidos. Com um campo imenso aberto à sua frente, muitos designers encarnaram na galinha franzina e medrosa sempre em busca de alguma estética já estabelecida, representada pelo galo cheio de si. Enquanto isso, as possibilidades de um mundo muito mais interessante estão ali, ciscando, tentando incessantemente chamar atenção dos criativos — todo machucado, mas nunca desistente. 

Falta Paul Rand no galinheiro.

Retrato de Paul Rand por Maria Júlia Rêgo para o Clube do livro

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de outubro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

6 de fevereiro de 2021

Uma fenomenologia da leitura

por Tereza Bettinardi

Capa do livro What We See When We Read de Peter Mendelsund. Vintage, 2014

Costumo dizer que uma das maiores ironias do designer de livros é que, independentemente da aparência final do livro que vou desenhar, a primeira leitura será feita (muito provavelmente) em um documento do Word em Times New Roman em corpo 12 pt. É assim que recebo os originais das editoras e inicio o processo para desenhar uma capa de livro: sem imagens para instigar a leitura, sem tipografia para dar o clima da narrativa, sem toque no papel (porque normalmente leio no Kindle) ou muito menos cores.

What We See When We Read indaga sobre o complexo processo de leitura e levanta a seguinte questão: “O que vemos quando lemos? (Além das palavras em uma página.) O que imaginamos em nossas mentes?” Ao analisar essa questão em diversos ângulos — seja ampliando ou diminuindo o zoom como se estivesse as observando com o Google Earth —, Peter Mendelsund faz um bem bolado entre filosofia, psicologia, teoria literária e artes visuais. 

Trata-se um livro experimental — coloca texto e imagens fragmentados pelas páginas.

Mendelsund, ao longo do livro, nos ajuda a contemplar o texto de maneiras que não havíamos pensado anteriormente. “As palavras são eficazes não por causa do que contêm nelas”, escreve o autor, “mas por seu potencial latente de desbloquear a experiência acumulada do leitor. As palavras ‘contêm’ significados, mas, mais importante, as palavras potencializam o significado…” Os escritores “nos contam histórias e também nos dizem como ler essas histórias”, ele afirma. “O autor me ensina como imaginar, bem como quando imaginar e quanto.”

Sua humildade transparece nas páginas do livro. “Sou uma pessoa visual (foi o que me disseram)”, diz ele. “Sou designer de livros e meu sustento não depende apenas da minha acuidade visual em geral, mas também da minha capacidade de reconhecer as dicas e sugestões visuais nos textos. Mas quando se trata de imaginar personagens, narcisos, faróis ou névoa: sou tão cego quanto qualquer pessoa.”

Peter Mendelsund era músico em tempo integral. Nascido e criado em Cambridge, Massachusetts, começou uma carreira como pianista depois de estudar filosofia e literatura na Universidade de Columbia. Seu “tropeço” no design foi quase por acidente, após uma crise existencial no meio da carreira. Foi quando percebeu que trabalhar com música — sem plano de saúde e com uma filha recém-nascida — não era mais viável. Por meio de um amigo da família, conheceu o designer de capas de livros Chip Kidd, que, depois de examinar o seu trabalho e ver algum potencial, decidiu dar uma chance a ele como designer júnior. Desde então, Mendelsund produziu tantas capas que se tornou um dos designers de livros mais conhecidos na área.

What We See When We Read é, em suma, um ensaio visual sobre a fenomenologia da leitura, trata-se de um exercício pessoal de associações. E, com certeza, é o início de qualquer dilúvio mental.

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de setembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

18 de fevereiro de 2021

O dom, o gesto

por Guilherme Falcão

Ilustração por Dominique Kronemberger / Estúdio Passeio

Eu não me lembro ao certo quando foi que The Gift entrou na minha vida. Mas eu tenho certeza de que foi através de Rob Giampietro. Minha cópia, comprada numa livraria de uma grande rede provavelmente já extinta (acho que Barnes and Noble?), tem uma capa em papel casca de ovo e um odor forte de papel. Aquele cheiro sedutor de livro novo, que com o passar do tempo se torna uma memória intoxicante daquilo que é antigo. O dia estava ensolarado. Devia ser maio ou setembro, e, de férias em Nova York, eu havia acabado de sair de um breve café com Giampietro, um dos profissionais que mais admirava na época. Professor, ensaísta, designer gráfico, ele ainda não havia realizado alguns dos trabalhos mais importantes de sua vida: primeiro, coordenar o redesenho, por duas vezes consecutivas, da comunicação visual do MoMA de NY; e segundo que é, na minha opinião, ter sido responsável por desenhar uns 33% do mundo e da experiência digital como a conhecemos: como designer e UX Sênior do Google, ele criou e coordenou a equipe e o departamento de design da gigante de tecnologia. Por suas mãos e de sua equipe passaram projetos como a linguagem do Material Design, Google Fonts e a própria ferramenta de busca. O trabalho de Rob é igualmente silencioso e gigantesco: nos cerca, influencia, forma nossa alfabetização visual — e a de nossos colegas, clientes, amigos, nossas mães, avós, nossos irmãos, filhos. E Rob é um cara gentil, educado e divertido; naquela manhã em que tomamos nosso café, e em que ele não tinha metade dessa experiência em sua carreira, ele me falou sobre um projeto que estava desenvolvendo, e sobre um livro que havia mudado sua vida. E não era um livro sobre design gráfico, mas sim de literatura. E não era de ficção, mas sim de crítica literária.

Lewis Hyde é estudioso de letras, teórico e tradutor. Por muitos anos foi professor de literatura inglesa em universidades como Harvard e Kenyon College. Com uma produção abundante, é também autor de livros, como o que mudou a vida de Rob Giampietro. Quando escreve sobre literatura, ele o faz por meio de uma ótica muito particular: a do autor. Hyde discute quais forças estão em ação não apenas no ato de escrever, mas no que constitui a literatura dentro de uma sociedade de trocas mercantis como a nossa. Essa tensão entre as relações comerciais que controlam nossa sociedade e a importância de enxergarmos a cultura como um patrimônio humano é central não só para sua ideologia, mas serve de tema de muitos de seus escritos teóricos. E essa abordagem nos permite enxergar claramente um paralelo com a atuação do designer gráfico na prática e também uma leitura de como muito da literatura e da teoria sobre design se apresenta. Atuar como designer é estar no cerne destas fricções: o trabalho criativo voltado para a comunicação e do consumo de produtos, serviços e experiências; a comunicação visual que tangencia outras áreas do conhecimento e produção, como as artes visuais, o cinema, a arquitetura, mas que é sistematicamente tratada como vulgar e inferior; mas diferente da literatura, o design possui uma jovem bibliografia, que, mesmo após centenas de anos, ainda parece fundamentada em sistematicamente reivindicar sua importância social, ao mesmo tempo que clama por uma emancipação como área de conhecimento e produção.

Em 1983 Lewis Hyde publicou The Gift, sua obra mais conhecida até hoje, e livro que inspirou o projeto de Rob Giampietro, nossa conversa naquela manhã e este texto. Unindo contos de folclore, a história da raça humana e uma visão muito contundente sobre a modernidade, o autor busca qualificar a maior contribuição que um criador pode ter para a sociedade. Mais do que o resultado em si de seu trabalho — um manuscrito literário, um livro diagramado, um filme, uma pintura, o que for —, ele tenta definir um aspecto imaterial: o do gesto, que coloca no mundo algo que não havia antes. Gesto inqualificável, indefinível e sobretudo inestimável. Como, então, sobreviver de seu dom na sociedade capitalista? Como podem contribuir aqueles que não lidam com a matéria, mas com um aspecto difícil de tangibilizar? Na medida em que avançamos cada vez mais e mais para uma sociedade em que a informação, o algoritmo e o dado se tornam valiosos, não deixo de pensar que as sábias e ternas palavras de Lewis Hyde são precisamente o tipo de conteúdo com o qual precisamos nos encontrar cada vez mais. Elas parecem nos reconciliar com algo que é inerente e fundamental à experiência humana. Pensar em reciprocidade e na ideia circular de um dom/presente (trocadilho infelizmente perdido na tradução para português), que eventualmente retorna para seu ponto de origem, é também pensar verdadeiramente numa ideia de “aldeia global” (como definiu Marshall McLuhan). É pensar que estamos todos, de alguma maneira, juntos. E nos permite visualizar essas ideias de uma maneira menos cínica, mais positiva e menos viciada em conceitos complexos, que muitas vezes não dão conta de responder sobre experiências muito simples. O presente de natal, a habilidade da comunicação, a autenticidade. Lewis Hyde descortina a cumplicidade entre o criador e seu público, estabelecendo uma zona neutra em que o trabalho só ganha sentido e completude com o olhar da audiência.

No verão de 2007, Rob Giampietro, inspirado por The Gift, disparou um convite para seus amigos mais próximos: que lhe fornecessem um material-base para o desenvolvimento de um panfleto de dezesseis páginas: “Vocês podem usar essas páginas para promover uma plataforma política, ou republicar seu conto favorito […] Eu aceito o que vocês decidirem me dar”. Ele iria fazer o design de cada um dos dez panfletos e compartilharia a tiragem com todos os envolvidos: cada um receberia dez cópias do seu próprio e uma cópia dos outros nove. Ele comenta que concebeu o projeto não apenas inspirado pelo livro de Lewis Hyde, mas também tentando entender como um profissional de design poderia tomar uma atitude diante de seu conteúdo. E também porque muitas vezes o trabalho de design para amigos resvala em produtos pouco sedutores ou nada interessantes em termos de conteúdo e compartilhamento — cartões de visita, por exemplo. Enquanto conversávamos sobre essa iniciativa, elaboramos um “trocadilho” com o nome do projeto: de Panfletos para Amigos (Pamphlets for Friends) para Panfletos Fazem Amigos (Pamphlets Make Friends), pensando no potencial de compartilhar tantos talentos e habilidades.

No fim das contas, apenas um dos amigos respondeu à chamada, gerando um panfleto que pode ser baixado gratuitamente no site de Giampietro. Mas prefiro pensar que a fagulha de The Gift atravessa transversalmente o trabalho dele até hoje. Está presente na interface simples do oráculo que responde às nossas perguntas para qualquer questão em nossa barra de busca; está nas cores, formas, efeitos de sombra e sobreposição que se tornaram a linguagem do design para telas nos últimos anos; está na interface deliciosa do Google Fonts, ou na simplicidade essencial do Docs. E note como é um trabalho carinhoso, feito por gestos quase silenciosos: seu design nos cerca o tempo inteiro, constrói o mundo que habitamos virtualmente e nem sequer nos damos conta.

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de setembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.