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3 de fevereiro de 2021

Por que fazemos aquilo que fazemos?

Recorte do cartaz do filme Napoleon, criado por Jan Tschichold em 1927

…A essa altura do campeonato, eu não vou sentar aqui e tentar te contar uma história que você talvez já saiba qual é. Ou que consegue encontrar de maneira fácil por aí, com 5 minutos de Google. A história de um homem, este homem — talvez o homem mais importante da história do design europeu? Eu não vou sentar aqui e te contar de novo a história de Jan Tschichold. Designer, tipógrafo, escritor, revolucionário até mesmo quando retrogradou. Eu vou na verdade te fazer uma pergunta: por que fazemos as coisas que fazemos?

Sinceramente, eu não acho que Tschichold tivesse escolha. Ele era quase como um desses personagens de mitos e contos, para quem o destino já parece traçado. Filho de um pintor de letreiros da cidade de Leipzig, seu berço e criação foram a comunidade e cultura tipográfica alemãs. Treinado em caligrafia, realizava trabalhos com tipografia desde cedo; foi pupilo do desenhista de tipos Walter Tiemann; e rapidamente se tornou consultor tipográfico independente para uma gráfica. Dizem que seus primeiros trabalhos combinavam uma sensibilidade refinada e o olhar de composição clássico com uma estratégia que se tornaria uma de suas marcas de procedimento: o uso de tipografias disponíveis comercialmente e papéis de produção industrial. Isso o diferenciava de seus colegas que, treinados em artes visuais ou arquitetura, preferiam o uso de tipografias customizadas e papéis artesanais. Em 1923, com apenas 21 anos, Tschichold visitou a primeira exposição da Bauhaus em Weimar e ficou chocado, excitado, eletrificado com o que viu. Inquieto, agoniado, transtornado… O mundo havia mudado drasticamente diante de seus olhos. E mais do que um praticante, ele se tornou um defensor ideológico da abordagem modernista de design e tipografia. O período entre o final do século 19 e o início do século 20 é cheio de anedotas como as de homens e mulheres, em diferentes países de todo o mundo, que, por meio do contato com outras culturas, povos, acontecimentos, tiveram sua percepção sobre o mundo alterada drasticamente. Certo vira errado, o piso parece sumir de repente debaixo de seus pés, aquele sobressalto, taquicardia e a sensação de “preciso-sair-daqui-e-criar-algo-neste-exato-momento”. Mesmo que fragmentado em diversos movimentos — os “ismos”, as vanguardas —, esse período todo é agrupado dentro de um grande termo chamado “Modernismo”. E segundo o dicionário, ser “moderno” é falar do agora mesmo, deste instante presente que passa agora, no exato momento em que seus olhos passam por entre o espaço dessas letras que escrevi. É sobre essa angústia, entende? Essa angústia que moveu essas pessoas a tentar re-imaginar um novo mundo. A democracia, a abolição da escravidão, a máquina a vapor, a luz elétrica, a vida noturna, a vida urbana e boêmia, o surgimento e crescimento das cidades, a emancipação da pintura com o surgimento da fotografia, eram revoluções e mais revoluções por minuto. É um impulso de energia que não cabe nos corpos, fruto de um transbordamento cognitivo que sobrecarregava os sentidos. Não à toa todo bom “ismo” modernista que se prestasse vinha acompanhado de um manifesto, quase sempre autopublicado numa revista ou jornal: era também uma sobrecarga verborrágica e mental de ideias, propostas de reconstrução do mundo. E tudo defendido com um fervor religioso, em que uma visão se sobrepunha às demais.

A paixão tipográfica de Tschichold se retroalimenta pelo contexto modernista, e o resultado é o tom bombástico e inequivocamente atual de suas ideias. Agora, agora mesmo, como se não houvesse outra alternativa.

Foi nesse fervor aquiniano que Tschichold, impactado pela exposição da Bauhaus, compôs dois textos que mudariam para sempre o design gráfico: Tipografia elementar (1925), uma lista de 10 mandamentos para a composição de textos e páginas nos novos tempos (“Um desenho elementar tipográfico consiste na criação da relação lógica e visual entre as letras, as palavras e o texto a serem compostos num layout, com a relação determinada pelas características específicas de cada trabalho”; e A nova tipografia (1928). A paixão tipográfica que já corria nas veias de Tschichold se retroalimenta pelo contexto modernista, e o resultado é o tom bombástico e inequivocamente atual de suas ideias. Agora, agora mesmo, como se não houvesse outra alternativa. Moderno é também “o indivíduo da época atual”. E eu até hoje acho muito bonito olhar para essas mulheres e homens, seus textos, manifestos, cartas, réplicas e tréplicas, e admirar a profunda convicção com que defendiam suas ideias. Como se o destino do mundo dependesse delas. E, naquele momento, dependiam.

E aí também que nasce o que para mim é a noção mais sofisticada de um termo que hoje é xingamento banalizado de rede social (oh, a humanidade): o socialismo. Ninguém vai entrar na sua casa, deitar na sua cama e comer a sua comida (a menos que você convide, é claro). A ideia aqui é a de que… certas coisas… São “bens” sociais. Mais do que isso, nem “bens” são; elas apenas deveriam ser socialmente disponibilizadas para todos. Deveriam ser “direitos universais”. E para essas mulheres e homens, para Jan Tschichold, uma dessas coisas era o design. O design deve ser social, porque o design é política: ele é ferramenta de construção do mundo e de interação entre os membros da sociedade. É pensar na casa em que habitamos, nas ruas em que transitamos e nos encontramos, nas informações que chegam até nós, nas ideias que trocamos, na roupa que vestimos, a cadeira em que sentamos, o livro que lemos para aprender ou nos distrair. E a forma, funcionalidade e mera presença destes artefatos e de seu pensamento e produção dentro de uma cadeia não deveriam ser sinais de status, glamour ou poder. Entender design (e arquitetura, projeto, e até mesmo arte) como mero estilo de vida é ir exatamente no sentido contrário dessa ideologia. Design é – ou deveria ser – social.

O próximo capítulo desta história você também já sabe qual é: o sonho da utopia social, estética e política do Modernismo é esmagado pelas ideias fascistas e pelo avanço do nazismo na Europa. O próprio Jan Tschichold se torna vítima desse processo, passando alguns anos em um campo de concentração, antes de se exilar na Inglaterra e depois na Suíça, onde residirá até sua morte. E onde também irá se reencontrar com um fantasma: o ideal moderno renascido como simulacro, como forma desprovida de sentido, mas plena de uma ideologia puramente diletante. O design dos anos 1960, autodenominado “estilo internacional”, emergindo da Suíça e pregando um neomodernismo que salvaria o homem dos horrores de uma nova guerra, da bomba atômica, e de si mesmo. Se tudo for projetado nas guias do grid, se todas as tipografias forem neutras, tudo será universal, e todos serão os mesmos. A ideia de democratizar o design como bem social se distorce num estilo rígido, estéril. Belo, porém autoequivocado. “O bom design é supremacia branca”, falam 60 anos depois os designers antirracistas. Tschichold, com sua mente eternamente moderna, já havia entendido isto naquele agora mesmo: na última fase de sua vida, ele rechaça as próprias ideias que defendia, temeroso pelos rumos tortuosos que pudessem levar uma sociedade refém de sua cegueira ideológica. O sabor amargo de enfiar goela abaixo de um povo a pretensão de se saber o que é melhor. A bandeira da “boa forma” é o cúmulo do elitismo disfarçado de democracia. Sem perder sua precisão e atenção ao detalhe, ele incorpora ideias utilitárias com uma maior variedade de uso de cores, formas, tipografias: serifada e não serifada, centralizado e alinhado à esquerda. Não há mais certo e errado, há apenas o que é adequado, busca conforto e harmonia aos olhos de quem o recebe. O trabalho de Tschichold na coleção de capas da Penguin é acolhedor, atemporal.

…Então eu volto a te perguntar: por que você faz aquilo que faz? Com que ideologias se identifica, no que acredita, e que trajetória quer construir para você? Em qual design você acredita? Tschichold vai lhe ensinar a treinar o olhar, respeitar e quebrar as próprias regras, como espaçar, alinhar; e como pensar com o espírito de seu tempo, apegar-se a suas ideias com fervor e a seu trabalho com a paixão de um destino já traçado. Rand vai te ensinar a poesia do trocadilho visual. Munari a ter olhares curiosos para o mundo inteiro à sua volta. Corita a humanidade e doçura de sua verdade interior. Tereza o prazer das palavras na página (ou na tela). Mas, no fim das contas, com mouse e teclado sob as mãos, frente ao documento novo, a decisão é só sua. Use este poder com responsabilidade. E lembre-se de se divertir um pouco no processo.

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de novembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

Guilherme Falcão é criador, editor, pesquisador e educador. Sua prática em design e direção de arte abrange jornalismo, educação, cultura e história, e a pesquisa e produção de autopublicações. É criador da CONTRA, editora especializada em publicações colaborativas, e foi co-fundador d’A Escola Livre, projeto educacional em design gráfico. Atualmente, atua como Diretor de Arte do Grupo Nexo, responsável pela direção criativa do Nexo Jornal e Gama Revista, além de promover oficinas e atividades de mentoria sobre caminhos e realizações do design. Também colabora com artistas, cineastas, músicos, ONGs e instituições culturais no desenvolvimento de projetos em mídia impressa e digital.
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