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6 de fevereiro de 2021

Uma fenomenologia da leitura

Capa do livro What We See When We Read de Peter Mendelsund. Vintage, 2014

Costumo dizer que uma das maiores ironias do designer de livros é que, independentemente da aparência final do livro que vou desenhar, a primeira leitura será feita (muito provavelmente) em um documento do Word em Times New Roman em corpo 12 pt. É assim que recebo os originais das editoras e inicio o processo para desenhar uma capa de livro: sem imagens para instigar a leitura, sem tipografia para dar o clima da narrativa, sem toque no papel (porque normalmente leio no Kindle) ou muito menos cores.

What We See When We Read indaga sobre o complexo processo de leitura e levanta a seguinte questão: “O que vemos quando lemos? (Além das palavras em uma página.) O que imaginamos em nossas mentes?” Ao analisar essa questão em diversos ângulos — seja ampliando ou diminuindo o zoom como se estivesse as observando com o Google Earth —, Peter Mendelsund faz um bem bolado entre filosofia, psicologia, teoria literária e artes visuais. 

Trata-se um livro experimental — coloca texto e imagens fragmentados pelas páginas.

Mendelsund, ao longo do livro, nos ajuda a contemplar o texto de maneiras que não havíamos pensado anteriormente. “As palavras são eficazes não por causa do que contêm nelas”, escreve o autor, “mas por seu potencial latente de desbloquear a experiência acumulada do leitor. As palavras ‘contêm’ significados, mas, mais importante, as palavras potencializam o significado…” Os escritores “nos contam histórias e também nos dizem como ler essas histórias”, ele afirma. “O autor me ensina como imaginar, bem como quando imaginar e quanto.”

Sua humildade transparece nas páginas do livro. “Sou uma pessoa visual (foi o que me disseram)”, diz ele. “Sou designer de livros e meu sustento não depende apenas da minha acuidade visual em geral, mas também da minha capacidade de reconhecer as dicas e sugestões visuais nos textos. Mas quando se trata de imaginar personagens, narcisos, faróis ou névoa: sou tão cego quanto qualquer pessoa.”

Peter Mendelsund era músico em tempo integral. Nascido e criado em Cambridge, Massachusetts, começou uma carreira como pianista depois de estudar filosofia e literatura na Universidade de Columbia. Seu “tropeço” no design foi quase por acidente, após uma crise existencial no meio da carreira. Foi quando percebeu que trabalhar com música — sem plano de saúde e com uma filha recém-nascida — não era mais viável. Por meio de um amigo da família, conheceu o designer de capas de livros Chip Kidd, que, depois de examinar o seu trabalho e ver algum potencial, decidiu dar uma chance a ele como designer júnior. Desde então, Mendelsund produziu tantas capas que se tornou um dos designers de livros mais conhecidos na área.

What We See When We Read é, em suma, um ensaio visual sobre a fenomenologia da leitura, trata-se de um exercício pessoal de associações. E, com certeza, é o início de qualquer dilúvio mental.

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de setembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

Tereza Bettinardi atua desde 2014 em seu próprio estúdio em São Paulo e tem quase 15 anos de experiência na profissão. Foi professora em diversas instituições de ensino de design e em 2020 fundou o Clube do Livro do Design, projeto que já reuniu mais de 300 participantes.
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