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1 de fevereiro de 2021

Bruno Munari e o jiu-jítsu

Bruno Munari em fotografia de Maria Mulas, 1980

No japonês antigo, a palavra asobi significa arte, mas também quer dizer jogo. Arte e jogo caminham de mãos dadas para Bruno Munari (1907-1998). Para ele, arte não é algo exclusivo aos salões e exposições de arte, mas uma atividade exploratória que envolve tanto espectador quanto artista. 

Num mundo movido a palavras como utilidade e desempenho, falar de arte e jogo pode ser considerado um privilégio. Tal percepção nos faz questionar se há ainda espaço para diversão numa realidade que dá cada vez mais importância aos algoritmos ou dados quantificáveis. Nesta realidade, o verbo brincar se aplica apenas às crianças e tem o único objetivo de ensinar um conjunto de habilidades necessárias para atingir um desempenho eficaz no mundo dos adultos. Para adultos, resta, no máximo, o conceito de “gameficação”, normalmente adotado como uma espécie de migalha para cobaias (eu e você, no caso) do Vale do Silício.

Ao mesmo tempo, na nossa prática cotidiana, não nos surpreende que, por exemplo, para garantir uma experiência intuitiva do usuário, a maioria dos sistemas operacionais conte com elementos de interface similares. Ou que carros de marcas diferentes sejam praticamente impossíveis de serem distinguidos a olho nu ou que smartphones sejam cada vez mais parecidos. A pressão pelo caminho “que funciona” transformou a originalidade em um fenômeno cada vez mais raro.

Num mundo movido a palavras como utilidade e desempenho, falar de arte e jogo pode ser considerado um privilégio. Tal percepção nos faz questionar se há ainda espaço para diversão numa realidade que dá cada vez mais importância aos algoritmos ou dados quantificáveis.

Design as Art é uma coleção de ensaios de Munari sobre vários tópicos relativos a design e arte — se é que existe uma distinção entre eles, o que ele questiona no início do livro. São ensaios curtos, uma seleção de artigos ocasionais que escreveu para o jornal milanês Il Giorno por volta dos anos 1960. De cara, a primeira constatação: é preocupante se dar conta que isso foi lido por pessoas comuns, fora da bolha dos interessados em design! O que nos faz perguntar na sequência: quem seria capaz de escrever tais ensaios num jornal de grande circulação hoje?

Na década de 1960, Munari estava convencido de que o design havia se tornado a arte visual mais significativa de seu tempo. A sua própria transformação de artista em designer confere autoridade adicional à sua posição. Ele começou como um artista, juntando-se aos futuristas no final dos anos 1920; posteriormente, participou do movimento Surrealista, onde teve contato direto com André Breton, que influenciou sua produção artística. Suas atividades vão do design gráfico ao design industrial, passando por uma intensa produção gráfica e editorial, tendo publicado diversos livros voltados para o público infantil.

Munari realizou diversos estudos sobre a possibilidade de democratizar a arte e o design, mostrando que ambos são partes da nossa vida cotidiana, e que cada um é igualmente importante. Queria derrubar o mito do artista famoso que produz obras para a intelectualidade: “é preciso entender que, enquanto a arte ficar à parte dos problemas da vida, ela só interessará a muito poucas pessoas”, escreveu. “A cultura hoje está se tornando um assunto de massa, e o artista deve descer de seu pedestal e estar preparado para fazer uma placa para um açougue (se ele souber como fazer isso).”

Em um dos jogos mentais mais inspiradores do livro, Munari descreve uma laranja, ervilhas e uma rosa como se fossem produtos industriais. Seguindo a lógica da produção com propósito — uma lógica que ele pode parecer tolerar —, ele afirma que a rosa é “um objeto sem justificativa e, além disso, pode levar o trabalhador a ter pensamentos fúteis. É, em última análise, até imoral”. 

Inevitavelmente, alguns elementos dessa coleção de escritos curtos dataram, mas a forma de pensar de Munari permanece extraordinariamente relevante para muitos dos problemas de design que enfrentamos hoje. O que torna esta obra e o próprio designer ainda tão relevantes é a capacidade que esses textos têm de nos convocar para observar a beleza do dia a dia.

O livro é polvilhado com esboços de rostos, cadeiras e formas de letras de Munari, diagramas de suas “máquinas inúteis” (móbiles aéreos), reconstruções teóricas de objetos imaginários, designs para lâmpadas e fotos de seus experimentos com imagens projetadas. É evidente a natureza Zen de seu pensamento e sua paixão pela cultura japonesa, como no ensaio sobre a simplicidade, leveza e adaptabilidade de uma casa tradicional japonesa. Ele conclui contrastando isso sarcasticamente com o mármore sujo e incivilizado das casas italianas.

Compartilhando o ideal da Bauhaus de que arte e vida deveriam se fundir novamente, Munari defendia que a arte não deve ser divorciada do cotidiano, um mundo ideal onde vamos para encontrar a beleza; a qualidade visual deve fazer parte da experiência comum de todos. Somente quando os objetos que usamos e os lugares que habitamos se tornarem obras de arte, a vida estará em equilíbrio. Junte-se a isso a rejeição da ideia do designer com um estilo pessoal, que Munari considerou um resquício de romantismo e uma imensa contradição de termos.

Se isso o faz parecer um desmancha-prazeres, ele era tudo, menos isso. O arquiteto e designer italiano Andrea Branzi descreveu o método de Munari como uma espécie de jiu-jítsu, voltando a força do adversário contra si mesmo. Ele foi capaz, observa Branzi, de encontrar gotas de bondade até mesmo nos lugares mais secos. “Para fazer isso, ele não precisa estar ‘contra’ a realidade, mas ‘dentro’ dela.” Em uma entrevista, Branzi fala sobre o quanto o carisma de Munari sempre o fez jogar o mesmo jogo, sempre dentro da mesma arena, até transformar esse jogo em um sistema filosófico extremamente sofisticado. 

Munari defendia que a arte não deve ser divorciada do cotidiano, um mundo ideal onde vamos para encontrar a beleza; a qualidade visual deve fazer parte da experiência comum.

Munari desenhou pouquíssimos objetos, e — o que é mais importante — seus desenhos surgiram quase por acaso, nascidos dessa ideia de busca sem fim. Ele projetou brinquedos, pequenos objetos ou máquinas estranhas totalmente ciente do fato de que ele estava trabalhando em coisas desnecessárias. 

É preciso aceitar e reconhecer com naturalidade que todos os artistas e todas as pessoas criativas fazem “coisas inúteis”. O inútil é uma categoria sagrada. Não existe grande civilização que não tenha investido enorme energia para criar coisas que ninguém havia pedido e cuja utilidade ninguém realmente entendia: poesia, literatura, música, arte. Todos os vestígios do passado estão ligados a coisas desnecessárias. A história da humanidade não é uma história da tecnologia, mas uma história de pensamentos e pessoas. Lide com isso, Vale do Silício.

Retrato de Bruno Munari por Maria Júlia Rêgo para o Clube do livro

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de novembro de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

Tereza Bettinardi atua desde 2014 em seu próprio estúdio em São Paulo e tem quase 15 anos de experiência na profissão. Foi professora em diversas instituições de ensino de design e em 2020 fundou o Clube do Livro do Design, projeto que já reuniu mais de 300 participantes.
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