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18 de dezembro de 2023

Acerca do começo, meio e fim

Por trás da Acerca sempre existiu um cérebro, que no caso é o meu. E, tão importante quanto o cérebro, eram meus braços e pernas que faziam a coisa acontecer. A Acerca foi o veículo que construí para guiar numa estrada que eu nem sabia aonde ia dar.

Em 2013, morava em Guarulhos e estava me formando em desenho industrial, com uma monografia sobre fanzines. Desde criança, com papel sulfite, caneta, máquina de xerox ou o que estivesse disponível, eu fazia meus gibis. Sempre me senti meio desajustado e queria ter uma voz. Antes de ter um nome para chamar esse impulso criativo – Acerca – , já eram os zines que me ajudavam a pertencer. Meu irmão mais velho participava ativamente do rolê punk e me deu acesso a esse universo de forma precoce. Foi assim que fui parar no design.

Antes de ter um nome para chamar esse impulso criativo – Acerca – , já eram os zines que me ajudavam a pertencer.
Tem A em tudo – Fotos de letras A encontradas pelo autor em São Paulo

Enquanto fazia minha monografia, já trampava em São Paulo e sabia que lá existia uma cena de publicação independente e o que mais queria era fazer parte dela. Todo dia passava cerca de 2 horas no trajeto até o trabalho, mas a distância parecia ainda maior. Me sentia desconectado do lugar onde deveria estar. Estava começando e ninguém me conhecia. Precisava mostrar minha potência de trabalho e me conectar com as pessoas que já viviam essa realidade. Minha solução foi criar meu próprio fanzine.

Projetei meus primeiros zines coletivos para serem agentes virais – para se espalharem. A ideia inicial era fazer edições temáticas colaborativas, daí o nome Acerca. O primeiro foi Acerca de Cronologia, depois Ambiguidade, Distorção e encerrei a quarta edição, com um recorde de participações, com o tema Lixo. Naquela época, fazia mais sentido me camuflar por trás de um projeto em vez de usar meu próprio nome, para passar credibilidade. Comecei a publicar chamadas abertas nas redes sociais e fiquei surpreso quando recebi contribuições de diversos artistas independentes. Editei tudo o que a Acerca publicou sozinho e grande parte dos fanzines saíram (sigilosamente) das impressoras laser dos lugares em que trabalhei. Às vezes dobrava  o miolo, folha por folha no transporte para Guarulhos, usando grampeador de escritório com borracha para uni-lo à capa e distribuía os zines gratuitamente entre os participantes e amigos.

Esta foto e as seguintes foram clicadas por Thomas Teixeira (@_t.thomas no Instagram).

Assim que acumulei um material mais consistente, tinha uma via de acesso para as feiras gráficas. A primeira coisa que fiz com o lucro da Feira Plana de 2014 foi comprar um grampeador de brochura, papel e guilhotina. Me apaixonei pela autopublicação e pretendia continuar conhecendo e veiculando artistas, e foi isso o que aconteceu. Por anos o projeto teve esse formato de editora. Naquela época, a Acerca publicava principalmente fanzines gráficos, fotozines, cartazes e adesivos. Percebi que não podia perder o gás. Não é fácil manter um volume consistente de publicações quando se produz de forma independente.

Por 7 dos 10 anos de projeto, mantive a Acerca em paralelo ao trabalho CLT, criando material para feiras gráficas depois do expediente. Por isso, não conseguia viajar com frequência para participar de feiras em outros lugares do Brasil. Foi em 2016 que resolvi criar minha primeira loja virtual. Usava uma plataforma brasileira de iniciativa independente e, no plano gratuito, só pagava taxa caso vendesse. Me pareceu um bom começo, e foi assim que conheci muita gente de fora do estado com quem colaborei em projetos posteriormente. Então, comecei a perceber que os fanzines já não eram o que tinha maior saída, e que as feiras gráficas não eram mais as mesmas.

Em janeiro de 2020, já morando em São Paulo, transformei a Acerca de editora em marca, ao lançar roupas, acessórios e outras bugigangas, mas sem nunca deixar de publicar fanzines – afinal essa era a essência do projeto, algo que eu fazia por mim. Logo na sequência, a pandemia de covid-19 fechou a porta de alguns negócios físicos, mas abriu janelas online, principalmente para os pequenos produtores. Eu moro em frente a uma agência dos Correios, que é a conexão física do meu trabalho com o Brasil e o resto do mundo. Durante a pandemia, saía de casa semanalmente e despachava pacotes o suficiente para que no ano seguinte eu conseguisse lançar uma coleção mais séria – digo séria em relação à estrutura e à qualidade dos produtos, porque os temas em si, quase sempre, eram bem-humorados. A sensação era parecida com a de quando investia o lucro das feiras na compra de novas ferramentas de trabalho: a cada ciclo precisava encher o tanque de novo, e isso significava arriscar o que ganhei para bancar o próximo passo.

Desde o início eu estava rodeado de pessoas: quando falava com fornecedores, fazia reuniões com artistas, no balcão dos Correios, respondendo aos e-mails dos compradores.

Desde o início eu estava rodeado de pessoas: quando falava com fornecedores, fazia reuniões com artistas, no balcão dos Correios, respondendo aos e-mails dos compradores. Mas também era verdade que dependia só de mim a concepção, produção, marketing, finanças, atendimento, expedição e mesmo algumas entregas, que eu fazia de bicicleta. Para alguém tão calcado no “faça você mesmo”, parecia quase impossível delegar tarefas.

A essa altura, a Acerca tinha abraçado (ou sido abraçada por) uma comunidade. Eram pessoas que se identificavam com o mesmo sentimento de não pertencimento que eu tinha no início e que estavam conectadas pela cultura da autonomia criativa, da diversão e de uma estética brasileira autêntica. É o que sempre falo, o papo era juntar fãs. A Acerca nunca parou de crescer, mas se tornou muito pesada para que eu continuasse a tocando sozinho.

10 anos depois dos primeiros fanzines, percebi que a Acerca já tinha cumprido o seu propósito. Eu mesmo tinha chegado ao limite, estava totalmente esgotado, física e mentalmente. Por vários meses, me senti muito frustrado com o que parecia um fracasso: o fim de um projeto ao qual dediquei tantos anos de esforço. Era difícil contar a história desse fim, tanto que eu quase desisti de escrever sobre ele. Mas foi contando a história da Acerca que percebi que, mais do que me tornar conhecido no círculo do qual eu queria fazer parte lá atrás, ela me proporcionou conexões e experiências para que eu me conhecesse. Cresci com a Acerca, e a “morte” de um projeto tão importante também é como um renascimento. 

As coisas têm começo, meio e fim.

é designer e artista gráfico, graduado em Desenho Industrial pela Universidade de Guarulhos com especialização em animação pela escola de cinema Meliés. De 2013 a 2023 foi diretor criativo da Acerca, marca que se destacou por publicar impressos e conectar artistas no cenário independente. Enquanto designer, Brunno atende clientes comerciais como MTV, Paramount, Nubank e High Company. Além de ministrar oficinas, cursos livres e palestras sobre artes gráficas.
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