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21 de dezembro de 2023

Mulheres na Tipografia – Parte 2

Para ler a introdução e conhecer outras designers de tipos, acesse a Parte 1.

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Leluja Regular foi selecionada para a bienal latino-americana de tipografia (Tipos Latinos) em 2016, e os dingbats (conjunto de caracteres ilustrativos) que a acompanha entrou na seleção de 2022.

Leluja por Andrea Kulpas1

A cereja do bolo da minha última viagem a São Paulo, em dezembro de 2022, foi estar1 perto da minha querida amiga Deia no lançamento da Leluja, seu trabalho de conclusão de curso no mestrado em tipografia da Universidade de Buenos Aires (UBA). Depois de 9 anos em desenvolvimento, este tipo para textos, inspirado na arte popular de recorte de papel Wycinanki, brilha com traços rústicos em quatro estilos e um grande conjunto de ornamentos (mais de 40 no momento, mas um passarinho me contou que vem mais por aí)! Desenhada por uma brasileira de herança húngara, estoniana e lituana, e produzida/lançada por uma fundição argentina, Leluja prova mais uma vez que identidades culturais podem e devem inspirar desenhos de letras e também parcerias. Agora a melhor parte: seu código é aberto e disponível gratuitamente pela Omnibus Type.

Zangezi por Daria Cohen

Amo como a Daria se inspira no macabro para desenhar fontes elegantes e selvagens, que suportam tanto o alfabeto latino quanto o cirílico. A robusta e avant-garde Zloy (palavra russa para “raiva”, “perverso” e “cruel”) é absolutamente fascinante, mas Zangezi é provavelmente minha favorita (até agora). Proporções incomuns, espaçamento apertado, contraformas saltitantes e serifas triangulares agressivas podem soar como muitas características marcantes é o que torna esta homenagem à fonte Salem (Keystone Type Foundry, 1901) tão especial e excêntrica. Além de três pesos (Light, SemiLight e Regular) e respectivos itálicos, a família inclui versões Condensada e Sans. Para apimentar ainda mais as coisas e manter o clima sinistro, Daria promete licenças gratuitas para projetos de lápides.

Carta Nueva por My-Lan Thuong

Carta Nueva é mais do que deslumbrante – com 1.380 glifos, também é inteligente e complexa! Para certifica-se de que cada combinação de letras tivesse a melhor apresentação, My-Lan adicionou muitos caracteres alternativos e linhas de programação OpenType à sua interpretação de um modelo caligráfico em bico de pena datado de 1851 e original da cidade de  Barcelona, Espanha. Além do elaborado sistema de substituições contextuais automáticas, a família permite composições em cinco tamanhos ópticos e tem grande potencial de evolução — parece que ela já está explorando outros eixos de variação multidirecionais. E se você me conhece bem, pode imaginar o quanto eu amaria que ela acrescentasse ainda mais pássaros caligráficos.

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Silvana recebeu o Certificate of Excellence in Typeface Design (TDC11) em 2023.

Silvana by Siri Lee2

Com uma pegada afiada, mas charmosa, Silvana é uma tipografia serifada contemporânea que reflete a admiração da designer por fontes transicionais do século XIX, em especial a Pennsylvania, publicada pela Schelter & Gieseckehe. Ao inspecionar specimens de 1912, Siri notou um erro sutil na impressão: uma mancha escura no lado direito superior do “a” minúsculo, e, então, decidiu incorporar este fluxo de tinta como um detalhe peculiar em seu design. A família possui 5 pesos (Light, Regular, Medium, Bold e Black) com respectivos itálicos, um grande conjunto de caracteres alternativos e ligaturas como www e xxx. Também disponível como fonte variável pela fundição Blaze Type.

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Pilot recebeu o Certificate of Excellence in Typeface Design (TDC5) em 2017 e o primeiro prêmio pela Fine Press Book Association’s Student Type Design Competition em 2013.

Pilot por Aleksandra Samuļenkova3

Condensada por conceito, Pilot é uma fonte display angulosa e expressiva com qualidades de “pintada à mão” que transmitem uma sensação nostálgica. Os primeiros esboços foram criados em 2012, enquanto Aleksandra cursava o mestrado Type and Media (sim, mais uma aluna da KABK!), e a família completa, com dez estilos, foi lançada pela Bold Monday em 2017. Pilot fornece um sublinhado inteligente que não interfere em elementos posicionados sob a linha de base (como a cedilha, por exemplo), e ainda conta com dois conjuntos de versaletes, que evocam composições analógicas. Fechando o círculo, é um dos poucos designs contemporâneos disponíveis em tipos de metal produzidos pela Swamp Press (uma honra que também compartilho por ter as letras do meu projeto Joschmi em madeira).

Cardone por Fátima Lázaro

Em maio de 2022, Elizabeth Goodspeed tuitou a pergunta: “Are we entering a Scotch Roman revival?” [Será que está na moda reviver a Scotch Roman (fonte do começo do século XIX)?] depois de perceber diversos usos recentes desse estilo em projetos de branding. Se você curte essa tendência e está procurando a combinação perfeita de vigor e sofisticação, Cardone pode ser a resposta. Com nome inspirado pela flor nacional da Escócia (“cardo” vem de “cardŭus” em latim), a primeira tipografia de Fátima foi iniciada na EsadType em 2016 e publicada pela 205TF em 2021. Mas apesar da referência histórica, a designer não estava tentando criar uma releitura purista ou fiel, seu objetivo era desenhar uma família otimizada para usos editoriais, de excelente funcionalidade e legibilidade. Com cinco pesos (de Thin a Bold) e itálicos delicados, Cardone também está disponível em versão Micro, mais radical e mecânica, destinada a textos compostos em corpo 8 pt ou menor.

Rezak por Anya Danilova

Rezak explora o processo de esculpir materiais em busca de formas de letras. Poderia ser pedra ou madeira, mas Anya escolheu o linóleo para entender a lógica: poucos cortes = escuro e simples, mais cortes = claro e definido. O resultado é uma família mista com serifas quadradas irregulares que desaparecem no peso Black. A versão Incised veio por último e utiliza um script para gerar os entalhes internos a partir de funções trigonométricas— insira aqui o meme da Nazaré Tedesco fazendo contas! Esse estilo, isoladamente, pode facilmente ser usado de forma ornamental. Rezak destaca a relação entre claro e escuro como presença e ausência, o que é removido versus o que permanece. Somando os dois estilos para títulos, os quatro pesos de texto (Regular, Semibold, Bold, Extrabold) e seus itálicos, temos um total de dez fontes, que, abrangem os alfabetos latino e cirílico estendido, com suporte a idiomas negligenciados, como abecácio, itelmene e koryaque.

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LiebeHeide recebeu o Certificate of Excellence in Typeface Design (TDC9), Lápis Grafite do D&AD, Cubo de Bronze pelo ADC, ouro pelo German Design Award e foi premiada pela Communication Arts em 2021.

LiebeHeide por Ulrike Rausch4

LiebeHeide é provavelmente a fonte manuscrita mais realista que existe. Ela usa uma tecnologia recente, que atribui cor a desenhos tipográficos (color fonts), e recursos de programação para reproduzir fielmente a aparência de textos escritos com uma caneta esferográfica. Claro, nada disso seria possível sem a experiência de Ulrike e sua obsessiva atenção aos detalhes. Direi publicamente que eu jamais embarcaria na loucura de digitalizar em alta resolução e programar mais de quinhentos glifos exclusivos, incluindo símbolos, rabiscos, sublinhados, tachados e tudo mais que dá charme a LiebeHeide. Sim, esta fonte é baseada em imagens bitmap, não em desenhos vetoriais, portanto sua cor não pode ser alterada em editores de texto, apenas com filtros do Photoshop. Já mencionei que há três resoluções diferentes, para que os aplicativos carreguem apenas o tamanho necessário? Louco! Eu sei. Se você está curioso sobre o making of, Ulrike explica tudo neste vídeo.

5

Tomasa foi premiada na categoria latina pelo ADC/10th Founder Type Design Competition, ganhou Sello Buen Diseño Argentino em sua 10ª edição e foi uma das vencedoras do Cirílico Moderno em 2021.

Tomasa por Fer Cozzi5

Esta rainha do rebolado, xará da cantora chilena Tomasa del Real, é uma homenagem ao movimento de dança neo-perreo (fusão de reggaeton, techno, cumbia e trap) e traduz perfeitamente esta estética singular em formas expressivas e fluidas. Enraizada em sons e visuais latinos urbanos, esta tipografia de estilo único remete a peculiaridades do graffiti ao oferecer quatro variações de cada letra dos alfabetos latino e cirílico, além de ligaturas para evitar que as formas se repitam excessivamente. Como a própria Fer Cozzi (a quem tive o prazer de conhecer no DiaTipo SP 2022), posso ver a Tomasa dando tudo de si na pista!

Alfarn2 por Céline Hurka

Em 2018 fui convidada pela Adobe para participar da celebração dos 100 anos da Bauhaus e reviver uma das obras menos conhecidas de seu mestre Joost Schmidt, trabalho que deu origem à fonte Joschmi. A Céline também fez parte dessa equipe, e nos divertimos muito no painel de lançamento do projeto em Nova York. No ano seguinte, ela ingressou no Type and Media e desenhou uma das fontes mais inovadoras produzidas nesse programa, a Version — que, aliás, lhe rendeu o prêmio de melhor tese em 2020. Apesar de amar a Version, estou aqui para falar da Alfarn2, sua reinterpretação de letras desenhadas por Alfred Arndt (1898-1976) para um pôster famoso de 1923. Alfarn2 saiu em 2022, depois que Céline aprimorou a versão lançada no tal evento da Adobe,  adicionando minúsculas e um suporte de idiomas mais extenso (incluindo os clássicos acentos aninhados alemães), dois conjuntos de pontuação e três variações de largura para as maiúsculas. Ajustes que capturaram perfeitamente o estilo geométrico da Bauhaus que se tornou atemporal.

é designer de tipos carioca baseada em Berlim. Tem interesse em celebrar a diversidade de movimentos artísticos da América Latina e tem incorporado a cultura e história brasileira em seus projetos independentes, assim como nas fontes Lygia, Lygia Sans e Melindrosa. Em paralelo, ela frequentemente colabora com fundições renomadas, como Commercial Type (Roboto Serif), Frere-Jones (Mallory), AdobeFonts (Joschmi) e GoogleFonts (Fraunces). Ex-aluna do Type@Cooper Extended Program, Flavia foi a primeira mulher brasileira a ter uma fonte premiada pelo Type Directors Club em 2018, além de ter recebido reconhecimento pela Bienal Tipos Latinos e participado do júri na Bienal Brasileira da ADG, no BDA (Prêmio do Design Brasileiro) e no ADC (The One Club for Creativity) em 2017, 18, 20, 22, e 23.
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