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19 de abril de 2021

Isso não é uma autonomia

As palavras são ferramentas que utilizamos para nos orientar nas nossas experiências do mundo. Embora gostemos de fingir que as coisas têm sentidos estáveis, no fundo, sabemos que não têm. Isso ficou dolorosamente claro nos últimos anos com pós-verdades, fake news, terraplanismo e conspiracionismos patéticos. Por sinal, isso levanta outro aspecto importante: as palavras são objeto de disputa. A orientação que elas nos fornecem não é natural, mas construída a partir do discurso ao qual ela está articulada. É por isso que, às vezes, uma mesma palavra pode ter significados muito diferentes, ou até mesmo opostos.

1 Trecho de A Palo Seco, de Belchior. Infelizmente, a música continua atual: “Se você vier me perguntar por onde andei/ No tempo em que você sonhava/ De olhos abertos, lhe direi/ Amigo, eu me desesperava”.

Belchior diria que palavras são navalhas. Navalha fica cega: com o uso, passa a dizer nada em específico e se torna algo inerte, que simplesmente está lá para ocupar espaço. Normalmente, o que sobra dela é uma fantasmagoria de valor, positivo ou negativo, mas acabamos esquecendo exatamente para o que ela aponta no mundo. Temos vários exemplos dessas palavras: liberdade, genocida, empatia, isolamento. Ou mesmo design. Eu quero é que esse texto torto feito faca corte a carne de vocês1.

Uma dessas palavras, sobre a qual tenho me debruçado, é autonomia. Atuo como professor; não tenho muito como fugir. Todos os dias, o desafio é criar um ambiente propício para que os estudantes de design gráfico desenvolvam sua articulação através da capacidade de organizar elementos em algum suporte. É assim que definiria, inclusive, design gráfico. 

“Para que (…) desenvolvam sua articulação”, escrevi ali. Esse fragmento já revela um dos significados de autonomia: ter sua própria voz. Talvez esse seja o mais comum; por isso é também o mais vago e o mais facilmente distorcido no nosso sistema neoliberal. De fato, já vi vários coaches dizerem algo parecido, todos os estrategistas de branding falam sobre “voz da marca” – será que estou falando da mesma coisa que eles?  

Nas relações sociais mediadas por plataformas, há o pressuposto fundamental de que somos protagonistas de uma narrativa à qual todos querem assistir avidamente. E, lá, podemos editar essa realidade o quanto quisermos: “ter a própria voz”. Mas é impossível dissociar a dimensão pessoal da dimensão econômica de tudo que habita as redes sociais. Por isso, ao construirmos nossas narrativas, necessariamente nos tornamos produtos. Assim, aquele “protagonismo” se transmuta na lógica do “empreendedor de si”, do “self-branding” e na dinâmica de influencers. É nessa dinâmica de mercantilização que autonomia é corrompida em individualismo meritocrático e, por sua vez, as relações sociais são reduzidas ao networking. Para ver isso ao vivo, é só abrir o seu LinkedIn.

É nessa dinâmica de mercantilização que autonomia é corrompida em individualismo meritocrático e, por sua vez, as relações sociais são reduzidas ao networking.

Outro recorte mal-amanhado que pode ser feito de autonomia, muito comum ao campo do design, é o de autoria. Com modulações semelhantes à da meritocracia neoliberal, o “autor” é uma figura superior, detentora de uma visão singular de mundo, generosa de agraciar a todos nós com suas obras. Ora, visões de mundo singulares temos todos; cabe perguntar o que torna a dele tão especial. De uma perspectiva materialista, este é um mecanismo que serve para agregar valor ao trabalho dessa pessoa: ainda que eu ou você façamos uma marca tão original quanto uma de Stefan Sagmeister, não vão nos pagar a mesma coisa. De uma perspectiva pessoal, ser um designer superstar deve fazer bem ao ego.

Isso nos leva ao sentido do designer como um profissional autônomo. Se em termos legais isso faz algum sentido, na prática precisamos empregar a palavra certa: precarizado. O modelo de prestação de serviços naturalizado na nossa área se inclina para a valorização do autor enquanto marca. Pode até funcionar para alguns no topo da pirâmide, mas e o resto de nós? A uberização e o afrouxamento das leis trabalhistas são novidades velhas para os designers que já passavam pelo fenômeno grotesco do freelancer fixo, a pejotização sem férias, sem décimo terceiro, sem garantias. Se para “construir seu nome” leva algum tempo, cabe perguntar de que classes vêm as pessoas que poderiam dispor desse tempo.

Na esfera pedagógica, também é possível corromper autonomia. As salas de aula não estão impermeáveis à infiltração neoliberal; longe disso. Num contexto de mercantilização e precarização galopantes da educação – como este que estamos vivendo –, alguns procedimentos supostamente oriundos das metodologias ativas descambam muito facilmente para uma sala de aula pauperizada. Os fatores para isso são complexos, ocorrem em várias instâncias e não é minha intenção aqui examiná-los. Basta dizer que no chão de fábrica da educação – a sala de aula – a alcunha de “metodologia ativa” se torna, mais do que gostaríamos, um modo de professores se eximirem de sua responsabilidade e jogar o estudante no Google para “desenvolver sua autonomia”.

Autonomia é, necessariamente, uma elaboração coletiva – e, portanto, política – de porquê o mundo funciona do modo como funciona. Por isso, passa pelo reconhecimento das estruturas como construções que podem ser transformadas.

Não é nenhuma dessas autonomias que tento cultivar, porque, a meu ver, nenhuma delas é autonomia de fato. Sim, a autonomia requer reconhecer a própria voz, também requer construir e expressar sua visão singular de mundo e, sim, também implica o estudante se engajar ativamente no seu processo de aprendizado; mas nenhuma dessas coisas isoladamente caracteriza autonomia. Esses fragmentos distorcidos da palavra têm em comum a consequência: despolitização. Não por acaso, isso permite que essas pseudoautonomias sejam mercantilizadas sem pensamento crítico: vendidas como um achievement ou um badge que o estudante pode obter em sua jornada gamificada.

Autonomia é, necessariamente, uma elaboração coletiva – e, portanto, política – de porquê o mundo funciona do modo como funciona. Por isso, passa pelo reconhecimento das estruturas como construções que podem ser transformadas. Logo, torna-se crítica. Se ela é possível, só é possível se imbricada à coletividade porque é da dança fluida entre liberdades e responsabilidades que emerge o testemunho do aqui e agora com os outros. Na educação em design gráfico – onde eu, por acaso, trabalho – isso significa fazer com que as pessoas enxerguem uns aos outros; o design é quase como uma desculpa. Parafraseando Emicida: design “é só uma semente, um sorriso ainda é a única língua que todos entende”.

Só assim para recuperar o fio dessa navalha, autonomia, recusando o sentido genérico “social” e nos orientando para as relações materiais. Requer olhar para a base, não para o topo. Para as pessoas, não para os prêmios. Acredito que o primeiro desafio nesse sentido é abrir espaços de diálogo – fora das plataformas de mídia. E, aqui, convidamos você para darmos esse passo.

Uma versão em inglês deste texto está disponível no Medium.

As fotos são registros do préocupe, um ciclo de oficinas autônomas realizadas por estudantes de design gráfico do IFPE. Esse texto é uma das reflexões a que fui levado pelo trabalho junto a eles. Aproveito para agradecer profundamente a vocês por tudo isso; é uma honra acompanhá-les nesse processo.

Eduardo Souza é designer e professor no IFPE – Recife. Atualmente, pesquisa crítica em design gráfico para o doutorado, experimentando práticas pedagógicas junto aos estudantes. Sua pesquisa anterior investigou o estranhamento nos livros ilustrados, delineando as articulações entre texto e imagem para a experiência estética. Além disso, mantém o trabalho com desenho, pintura, ilustração e design gráfico no Instagram e discute design criticamente no Twitter e no Medium (@souzaeduardo em todos).
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