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12 de abril de 2021

Carmen Portinho: a mulher que constrói

Carmen Portinho, a engenheira civil e urbanista responsável pela construção do MAM

Por que pouco falamos sobre Carmen Portinho?

Dizem que a descoberta da aviação se deu após séculos de observação da tecnologia das asas dos pássaros. Entre máquinas voadoras, tentativas fracassadas e protótipos baseados nas mesmas regras que fazem um navio não afundar, uma ideia sobreviveu às gerações de entusiastas: a possibilidade de planar. Ou seja, pairar no céu sem mover as asas – ou motores – como se fosse possível encontrar um plano no ar. Em uma manhã de maio de 1928, três mulheres fizeram palavras voar no céu do Rio de Janeiro. Palavras que planariam por conta própria, por carregar o ensejo da luta política. Porém, porque planar é estável demais,  encontraram formas de ir mais longe. Partindo da Ilha das Enxadas, localizada em um pequeno arquipélago na Baía de Guanabara, as integrantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino sobrevoaram a então capital do país a bordo de um aeroplano Junker, lançando panfletos e folhetos que defendiam a implementação do voto feminino no Brasil. A Câmara dos Deputados, o Senado, o Palácio da Presidência, as redações dos jornais e as ruas da cidade foram cobertos pela defesa dos direitos das mulheres. Papéis voadores que aterrissaram também em outros tempos e espaços.

Cresci com uma imagem apoiada entre os livros da estante de minha mãe: ela, um tanto jovem, agachada, segurando a mão da senhora ao seu lado, para quem olha com evidente admiração. A senhora, sentada em uma cadeira, olha para a câmera e sorri. Um sorriso calmo. Durante um  tempo, ouvi em fitas cassetes a voz dessa senhora, que me apresentaram como Doutora Carmen. À noite, enquanto supostamente eu dormia, minha mãe transcrevia as entrevistas realizadas durante o dia com a Doutora, no primeiro computador adquirido pela família, naquele final da década de 1990, justamente para a produção disso que hoje chamamos de frila. Mais de vinte anos depois, procurei pelas fitas, imaginando as perguntas que eu mesma teria feito para a entrevistada e curiosa para saber se minha mãe as tinha feito. Em vão. Os cassetes se perderam, assim como aquela voz da infância, registrada em uma fita magnética agora em estado de decomposição pelos lixos do Rio de Janeiro. Penso nas mulheres que morreram sem memória e nas memórias que morrem com algumas mulheres. 

Carmen Portinho formou-se em Engenharia Civil no Brasil dos anos 1920, pela Escola Politécnica, sendo a terceira mulher a realizá-lo no país. Alguns anos mais tarde, chegou às mesmas conclusões que Lúcio Costa sobre o terreno onde Brasília seria construída, dez anos antes do colega, quando obteve o título da sua segunda formação, em Urbanismo. Fez parte da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, associação de mulheres que conduziu a luta sufragista no Brasil. Encontrou soluções para a difícil questão da habitação popular no Rio de Janeiro, com o projeto do Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, o Pedregulho. Esteve à frente da construção e gestão do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), em um momento em que ainda era preciso imaginar como seria aquele trecho da Baía de Guanabara como faixa de terra. Foi diretora da Escola Superior de Desenho Industrial por vinte anos e, mesmo sem ter formação em design, atuou intensamente pelo reconhecimento do currículo do curso em 1970. Sobretudo, por onde passou, levou consigo a ideia de que ser uma mulher brasileira é uma utopia. 

1 Bonilla, Oiara. Roque, Tatiana. Entrevista com Isabelle Stergers e Vinciane Despret. Revista DR. Edição 1.

Algumas  dúvidas surgem nas entrelinhas da discussão de gênero, quando o assunto é desequilíbrio de acesso: como funciona uma gestão operada por uma mulher? Em que difere daquela coordenada por um homem? O que as mulheres fazem com a ideia de comando, autoridade e liderança? Existem novas formas de produzir uma organização? Ou apenas reprodução do que já existe como regra? A história de Carmen Portinho, ainda que pouco lembrada, nos lança imediatamente para essas perguntas, pois Carmen foi uma mulher política. Digo isso menos por sua atuação como ativista e mais por transformar seu cotidiano em um campo de batalha. É bem verdade que os modos de fazer femininos dão forma a uma outra política.1 Por isso, aqui reside efetivamente a ideia de utopia em sua vida: para além do uso do conceito nas construções modernistas que ajudou a colocar de pé, sua utopia veraz se expandia para uma alegre inventividade ao agir.

2 Portinho, Carmen. Por toda a minha vida: depoimento a Geraldo Edson de Andrade. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.

Algumas anedotas são reveladoras disso, todas narradas no livro Por toda minha vida2, um longo depoimento que Carmen Portinho concedeu já no final de sua vida, organizado por Geraldo Edson de Andrade. Nele a engenheira conta que, assim que foi admitida na Diretoria de Obras e Viação da prefeitura, a única mulher a ocupar o cargo na repartição naquela época, sua primeira tarefa chegou a ser notícia de jornal: “Até da colocação de para-raios foi incumbida a jovem engenheira, serviço este que, parece-nos, poderia ter sido confiado a um representante do sexo forte”, dizia O Paiz em 1929. Acontece que, enquanto o desafio-teste proposto pelo chefe parecia conter um grau de dificuldade pelo seu esforço físico, Carmen se preocupava com questões técnicas do funcionamento do aparelho. Afinal, o que ele não sabia é que a engenheira praticava alpinismo, além de ser sócia do Centro Excursionista Brasileiro. Para ela, subir telhados não era um problema, pelo contrário: “Sempre gostei de alpinismo. Particularmente, gostava de vestir aqueles coletes, pôr o cantil e a mochila na cintura, acordar cedo nas madrugadas de sábados ou domingos para me encontrar com o grupo.” Em certos momentos, surpreender é resistir.

A Carmen-alpinista foi a mesma mulher que decidiu reivindicar uma promoção diretamente com o presidente Washington Luiz. Quando percebeu que era preterida em todas as oportunidades que surgiam para a equipe, Carmen expôs a situação ao presidente em uma das suas costumeiras audiências públicas nos jardins do Palácio do Catete, o que acabou dando certo: passou de praticante-técnica para engenheira de segunda classe. Também foi a mesma profissional que exigiu que o projeto habitacional do Pedregulho incluísse uma lavanderia mecanizada, por compreender que revirar o funcionamento do trabalho doméstico de forma sistêmica seria, de certa forma, desordenar as próprias relações de trabalho. As preocupações de Carmen, que naquela época atuava como Diretora do Departamento de Habitação Popular do município, colocadas em prática, fizeram o conjunto se tornar um exemplo de moradia pensada como serviço social e não como mercadoria.

3 Designer suíço, com atuação fundamental na história da educação e da teoria do design. Foi professor da Escola de Ulm, cujo modelo pedagógico foi referência para a Esdi.
4 Ex-diretor executivo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, então secretário de Educação e Cultura do governo de Carlos Lacerda.

Ainda assim, de todos os casos narrados por ela, que não são poucos, os tempos em que esteve na direção da Esdi (Escola Superior de Desenho Industrial) acumulam os melhores deles. Talvez pela ousadia que surge com a desinibição da idade – Carmen somava 64 anos quando assumiu o cargo na Escola – talvez pela proximidade com os alunos, ou até mesmo pelo simples contraste da imagem de uma senhora magra e baixa com sua personalidade valente e forte. Desde que se envolveu com a elaboração do projeto e ocupou o cargo de diretora adjunta do MAM, no Rio de Janeiro, Carmen se aproximou do universo do desenho industrial, campo ainda embrionário no Brasil dos anos 1950. Um dos pilares da instituição era a educação, o que motivou a tentativa de criar a Escola da Criação e da Forma no prédio, como sugeriu Max Bill3 em uma visita às obras do museu. Carmen Portinho abriu mão da ideia da escola no MAM, por motivos burocráticos, mas Flexa Ribeiro4 insistiu, criando a Esdi alguns anos depois, em parceria com o governo do estado do Rio de Janeiro, à época estado da Guanabara, no terreno onde funciona ainda hoje, na Lapa.

5 Anastassakis, Zoy. Refazendo tudo: confabulações em meio aos cupins na universidade. Copenhague / Rio de Janeiro: Zazie Edições, 2020. O livro fala sobre o movimento "Esdi Aberta" (2016-2017), que ocorreu enquanto ela dirigia a escola. A série de eventos e reestruturações deste período foram uma resposta à precarização da educação no Rio de Janeiro, imposta pelo então governador Luiz Fernando de Souza, o Pezão.

Quando se desligou do MAM, Carmen assumiu a direção da Esdi e um novo campo de batalha teve início em sua vida, dessa vez em um contexto de forte repressão da ditadura militar. O sonho inicial de edificar uma escola no terreno do Museu de Arte Moderna, que ainda nos anos de 1950 era coberto por água, foi transferido para outro aterro: suas estruturas acabaram fincadas nas terras que cobriram a antiga Lagoa do Boqueirão da Ajuda, entre a Cinelândia e a Lapa. Segundo a professora Zoy Anastassakis, a Esdi, hoje, “conta com, aproximadamente, 400 alunos na graduação e 100 na pós-graduação. Desde 2003, cerca de 35% do seu corpo discente na graduação é admitido por meio do sistema de reserva de vagas, política afirmativa em que a Uerj foi pioneira no Brasil.”5

Carmen dirigiu esta que foi a primeira escola de desenho industrial a oferecer um curso de nível superior no Brasil no período mais conturbado da sua história, entre 1967 e 1988. Vale lembrar que a Esdi era uma instituição independente e com uma especialidade pouco conhecida nos meios acadêmicos. Sua entrada significou uma abertura da escola para outras áreas do conhecimento e da criação; no esforço para que as profissões de desenhista industrial e comunicador visual fossem reconhecidas como tais; nas negociações pela integração da Esdi à Uerj e, principalmente, para que a escola e seus alunos se mantivessem firmes enquanto durou a ditadura militar brasileira. Algumas mulheres conseguem exercer a arte de resistir de forma insuspeita. Contam os alunos que um acordo foi estabelecido para que materiais impressos pudessem ser colados pela escola: “Vocês panfletam, colam cartazes, faixas, etc. de manhã cedo. Quando eu chegar, vou entrar mandando retirar tudo, achando um absurdo isto estar acontecendo. Evitaremos assim uma intervenção na Esdi e eu não sendo demitida, vocês também estarão protegidos.” 

A encenação funcionou por anos, até que a polícia descobriu que os panfletos e as faixas contra a ditadura eram feitos na própria Esdi, no andar em cima da gráfica. Por isso, um dia entraram um oficial e um batalhão de soldados na escola, em direção à sala onde estavam os alunos, o centro acadêmico. Imediatamente surgiu Carmen nos jardins da Esdi: “Escuta aqui, sou a diretora desta escola. Mando aqui como o senhor em seus soldados, não pode invadir assim, tem que primeiro pedir licença. Se quiser visitar a escola, terei o máximo prazer em lhe mostrar.” O comandante, então, antes de vistoriar a escola, tomando cafezinho, conheceu toda a filosofia da Esdi, o que era o desenho industrial, as matérias ensinadas e os detalhes sobre o curso, enquanto os alunos, avisados da batida, fugiam pelo portão dos fundos. Décadas depois, em 2008, o mesmo espaço foi batizado como CAPo: Centro Acadêmico Carmem Portinho.

Retrato de Carmen trabalhando

Solo preparado, alicerces na terra

6 Malcom, Janet. A mulher calada: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Alguns perigos são comuns à escrita de uma biografia. O mais comum deles é organizar a narrativa de uma vida sabendo a que fim ela precisa corresponder. Todos os fatos parecem caminhar para um mesmo ponto de chegada e encontram-se em uma entediante, lógica e já esperada coerência. O segundo é conceber o retrato do biografado à luz de um autorretrato. Por assim dizer, é como se lêssemos um livro para constatar que o que João diz sobre Pedro diz mais sobre João do que sobre Pedro. Recorro à Janet Malcolm, que tanto analisou os limites das biografias: “Em seu trabalho, de fato, o biógrafo se assemelha a um arrombador profissional que invade uma casa, revira as gavetas que possam conter joias ou dinheiro e finalmente foge, exibindo em triunfo o produto de sua pilhagem.”6 Se não somos donos dos fatos da nossa vida, se essa propriedade nos escapa a partir do momento em que somos observados, nos resta apenas aceitar perder o domínio para quem gosta de contar histórias.  

De todos os personagens que acompanhamos de perto, sem dúvida, os melhores são os que apresentam contradições. O ser humano é cheio delas, os deslizes e a busca por coerência caminham juntos, lado a lado. Contudo, não encontrei nenhuma no livro. Sobre os riscos da autobiografia, diria que esse é o principal deles: a gerência segura dos relatos de si. Nós, os curiosos da vida alheia, gostamos de histórias com poros abertos, para refletir sobre as nossas a cada entrelinha da narrativa do outro. Sinto falta das fitas mais uma vez, por imaginar que as hesitações, resistências ou silêncios da fala de Carmen mostrariam suas inseguranças. Ou não. Talvez não exista incoerência nesses 98 anos vividos. Mais uma suposição que a ausência de seu relato eterniza como dúvida. 

Era 1987, a seca chegava mais uma vez a Brasília e a Assembleia Nacional Constituinte, que marcou o fim da ditadura, havia sido instalada havia poucas semanas. No meio daquele terreno árido, cerca de trezentas mulheres de vários estados do país ocuparam as galerias da Câmara para a solenidade que envolvia a entrega da Carta das Mulheres aos Constituintes. Entre quatro princípios gerais e 64 reivindicações específicas, envolvendo aspectos diferentes da vida, entre eles, o direito ao aborto, um grito sustentava aquela lista: “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher”. A sufragista de 1934, Carmen Portinho, naquela época com 86 anos, foi a escolhida para entregar a Carta ao presidente da Assembleia, o Deputado Ulysses Guimarães. Na ocasião, Carmen criticou a falta de uma organização coesa no movimento feminista, o que, segundo ela, nos leva a ter “ainda hoje um Código Civil atrasado e reacionário”.

7 Para saber mais sobre as ondas do movimento feminista, consulte: Rodrigues, Carla. Erguer, acumular, quebrar, varrer, erguer… Revista Serrote. Edição 24.
8 Woolf, Virginia. As Ondas. Editora Saraiva, 2015.

Quatro ondas marcam a história do feminismo no Brasil7 e Carmen Portinho assistiu o vaivém de três delas, até a sua morte, em 2001. Talvez porque as ondas sempre nos revigoram, Carmen não esmorecia quando uma delas passava e “quebrava e varria pela areia um tênue véu de água branca”8. Provável que, se estivesse viva, teria se animado com a onda que tomou as ruas desde o fim de 2015. Com absoluta certeza, ela saberia que as fundações fincadas por ela e suas colegas prepararam o solo que ergueria os levantes das gerações seguintes. Afinal, teve uma vida baseada na ideia de firmamento, mas também em voos altos. Não à toa, quando soube da notícia do incêndio do MAM em 1978, conta a designer Valderez Coelho da Paz que Carmen, a engenheira do edifício, transformou a imensa tristeza em “um brilho inesperado no rosto quando exclamou: ‘a estrutura resistiu!’”.

Duda Kuhnert é jornalista e pesquisadora, com mestrado em artes pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Foi co-autora do livro "Explosão Feminista", escrito por Heloísa Buarque de Hollanda, lançado pela Companhia das Letras. Atuou como assessora de comunicação do Instituto Proprietas. Hoje é produtora de conteúdo digital e realiza projetos como repórter freelancer. É também fundadora e editora da Revista Beira, publicação independente ativa desde 2015, e curadora da Cinecluba, que promove encontros para a exibição de filmes realizados por mulheres.
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