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7 de dezembro de 2022

Vote Capas debate política com humor e música

“Falta uma banda que una todas as tribos. Como foi o Norvana.” Muitos devem se lembrar desse tweet postado por Dinho Ouro Preto em 2013 – é um clássico da internet brasileira. Assim como todo meme, esse também provoca uma reflexão: a música é capaz de conectar pessoas e até mesmo abrandar a discussão política. Foi desse sentimento também que, em 2020, surgiu o Vote Capas

A página, que antes se chamava Vote 50 Capas, foi criada durante as eleições municipais de 2020 pela dupla de designers paulistanos Gus Kondo e Lucas Artacho. Além da formação em design, eles tinham em comum o interesse por música, a dedicação ao consumo de memes e a vontade de fazer alguma diferença no cenário político. Começaram, então, a criar paródias bem-humoradas de capas de discos famosas. No lugar de estrelas como Frank Ocean e Belchior, agora estava Guilherme Boulos.

Boulos e sua vice Luiza Erundina, ambos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), tinham chances reais de serem eleitos para a prefeitura de São Paulo. O objetivo daquelas horas em programas de edição de imagem era chamar atenção para um momento político decisivo: a chapa, caso vencesse, substituiria o então prefeito e candidato à reeleição Bruno Covas, que em 2018 ocuparia o lugar deixado por João Doria, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), quando este abdicou do cargo para concorrer a governador do estado.

Tudo começou de maneira espontânea e voluntária. A 15 dias do primeiro turno, a dupla publicou 50 paródias no Instagram de forma anônima e esperou para ver no que dava. Segundo Lucas, eles até chegaram a compartilhar suas imagens preferidas nos próprios stories, como quem não queria nada, mas em algum momento a coisa tomou outra dimensão. Artistas que já haviam sido mencionados, como Emicida, Letrux, Maria Gadú e Lucas Silveira (Fresno), demonstraram seu apoio ao candidato nas redes sociais usando as paródias do Capas (apelido carinhoso dado pelos seguidores à página).

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O nome é uma referência ao “Gabinete do ódio”, formado por assessores e liderado por Carlos Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro. Desde 2018, a chamada “milícia virtual” vem sendo responsável pela criação de perfis falsos em redes sociais e disseminação de fake news em aplicativos como WhatsApp e Telegram. As operações, muitas vezes, são financiadas por empresários bolsonaristas.

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Segundo reportagem do Correio Braziliense de janeiro de 2019, o recém-empossado Jair Bolsonaro chegou a citar o nome do então governador de São Paulo, João Doria (PSDB), como futuro presidente do país na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Pouco depois, a central de trabalho de Boulos e Erundina, ironicamente chamada “Gabinete do amor”1, da qual Lucas participava, encomendou aos designers duas novas capas: uma do Caetano Veloso, que faria um show ao vivo no YouTube para arrecadar fundos para a campanha, e outra do rapper Black Alien, que também estava engajado na disputa eleitoral.

Viver (na internet) é um ato político

Lucas explica que “a música, assim como o humor, é capaz de iniciar conversas e aliviar tensões”. O fato de o público da página ser totalmente composto por eleitores da esquerda não necessariamente minimiza sua importância. Pior do que “pregar para convertidos” é simplesmente calar-se diante do absurdo – tanto Doria quanto Bruno Covas haviam flertado com o bolsonarismo em diversas ocasiões2

Vale lembrar também que, em 2020, os números de contaminados pela covid-19 atingiram níveis assustadores e a internet passou a representar, para muitos, o único ambiente seguro de encontro. Por outro lado, os famigerados grupos de família no WhatsApp continuavam sendo palco de embates ferrenhos – para não dizer violentos. Quem viveu, ou ainda vive, sabe o quanto o assunto política tornou-se um elefante no meio da sala, que de vez em quando é alimentado por frases como “essa discussão não é maior que o amor entre pai e filho/irmãos/primos”.

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A forma como designers exploram o capital social nas redes é tema do ensaio “Ainda existe design(er) ativista?”, de Eduardo Souza, publicado na Recorte em setembro de 2022.

Na era da influência digital, o anonimato dos autores das paródias também é um ponto que desperta interesse. Para Gus, era importante que o projeto se mantivesse fiel à intenção de promover um candidato, e não seus autores. “Depois das eleições, chegamos a mencionar nossos perfis pessoais na bio da Vote Capas, mas durante o processo eleitoral, nem sequer cogitamos essa possibilidade. Não era sobre a gente.”3 

Essa renúncia à autoria é fundamentada por uma das frases mais célebres do mundo digital-pós-moderno: “everything is a remix” ou, em português, “tudo pode ser remixado”. No que diz respeito a memes, criar significa misturar amostras de elementos culturais, como um DJ que usa samples de outras músicas para compor novos beats. Essa ideia em si é tão polêmica e complexa que renderia pelo menos mais uns 20 ensaios da Recorte sobre direitos autorais, simulacros, pós-verdade, mas peço humildemente que me acompanhem por mais alguns parágrafos.

Na internet, assim como no mundo real, o capital social está associado ao acúmulo de capital financeiro. A meritocracia, seja qual for o ambiente, é história pra boi dormir.
Paródias das capas de "More Life" de Drake, "Straight Outta Compton" do grupo N.W.A e "DAMN." de Kendrick Lamar.

Se rimos de uma paródia é porque identificamos a diferença entre o que está diante de nossos olhos e a imagem em seu contexto original, que faz parte do nosso repertório. Dito isso, para que tenha efeito junto ao público, a popularidade da capa original e a peculiaridade da paródia são mais importantes do que a sua sofisticação como peça de design gráfico. Cá entre nós, esse altruísmo do designer em relação às referências do público geral está fora de moda há algumas décadas: subjetivamente, estamos sempre muito preocupados em agradar nossos pares, ao passo que também nos colocamos na posição de escrutinadores do trabalho alheio. 

Quem vive intimidado pela autopromoção nas redes sociais sabe o quanto esse círculo vicioso pode ser cansativo e até mesmo enlouquecedor. Nesse ritmo, o design se torna tão autorreferente que não é mais possível medir seu sucesso pela conciliação do binômio forma versus função. O êxito depende de outras chancelas como likes, comentários, compartilhamentos, visualizações. Esses, por sua vez, são influenciados pela quantidade de dinheiro que alguém é capaz de investir em impulsionamentos. Na internet, assim como no mundo real, o capital social está associado ao acúmulo de capital financeiro. A meritocracia, seja qual for o ambiente, é história pra boi dormir.

Contrariando essa lógica, o alcance orgânico do Capas é consequência do fato de que as montagens e manipulações são tão, mas tão bem feitas, que é impossível não pensar: por que alguém investiria tanto tempo em algo que nem sequer é bonito? Por que alguém gastaria tanto tempo substituindo a cara da Xuxa pela do Lula na capa de Circo, o volume 5 da franquia Xuxa só para baixinhos? Ou melhor: por que alguém faria isso anonimamente? Nenhuma dessas perguntas foi feita diretamente a Gus e Lucas, mas bastam 5 minutos de conversa para entender que toda essa trabalheira é justificada pela crença de que imagens bem-humoradas são capazes de conectar as pessoas ao discurso político. O capricho é um lembrete para a população de que político não é tudo igual – inclusive alguns podem até merecer nosso esforço individual.

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Apesar de a página não mencionar nomes, o slogan “Go vote”, ou “vá votar” em livre tradução, é muito difundido entre cidadãos que apoiam candidatos progressistas.

Aliás, o próprio Vote Capas é um remix. O projeto foi inspirado na página Cover the Vote, que incentiva eleitores dos Estados Unidos a participar do jogo democrático – pois lá o voto não é obrigatório. Diferente da versão brasileira, no entanto, nenhum candidato é promovido4, mas sim o direito de expressão através do voto. Ela também é bem menos engraçadinha, já que somente as informações textuais das capas são modificadas, nunca as imagens. Como em uma corrente, o Capas também inspirou: em certo momento, os seguidores da página começaram a enviar suas próprias paródias, que eram publicadas no feed em coletâneas apelidadas “bonus tracks”. Uma dessas paródias criadas por fãs, da capa do disco FA-TAL, foi repostada pela própria Gal Costa em seus stories.

Um período conturbado

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Bruno Covas faleceu menos de um ano depois de eleito, em 16 de maio de 2021, vítima de um câncer. O cargo de prefeito foi então ocupado por seu vice Ricardo Nunes do Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Para tristeza de muitos, Boulos e Erundina foram derrotados no segundo turno das eleições com 40,62% dos votos. Depois da vitória apertada de Bruno Covas5, o Vote 50 Capas virou Vote Capas – o número 50 do PSOL poderia acabar se tornado um elemento limitador dali em diante.

Por mais que Lucas e Gus quisessem tirar umas férias da rotina de postagens, não houve paz no cenário político brasileiro. A página, então, passou a ser pautada pelo noticiário: entre os temas das paródias estavam a anulação das condenações de Lula na Lava Jato, a declaração do Supremo Tribunal Federal (STF) de que Sergio Moro havia sido parcial ao condenar Lula e o descaso do governo Bolsonaro com a pandemia.

Em 2022, o foco voltou a ser as eleições. Até o dia 2 de outubro, data do primeiro turno, os rostos que estamparam as capas eram dos candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT) Lula (para presidente) e Fernando Haddad (para governador de São Paulo) e do PSOL Guilherme Boulos (para deputado federal por São Paulo) e Ediane Maria (para deputada estadual por São Paulo). Os candidatos do PSOL conseguiram se eleger com votações expressivas, enquanto os do PT disputaram o segundo turno.

Ao longo desses dois anos, muita coisa mudou tanto no design das paródias em si quanto na vida dos designers. “Não tínhamos a mesma abertura em 2020, até porque não estávamos envolvidos ativamente em movimentos sociais como hoje.” Por exemplo, Lucas conta que quando não conseguiram encontrar uma foto de Ediane segurando um capacete para uma versão da capa do álbum Motomami, da cantora espanhola Rosalía, mandaram uma mensagem para o comitê da candidata e receberam de volta exatamente o que precisavam. Além disso, depois de passar tanto tempo atrás do computador manipulando imagens para o Vote Capas, o designer decidiu expandir sua atuação e se juntou à militância do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que combate a desigualdade habitacional nas cidades e reivindica a reforma urbana. 

Paródias das capas de "Renaissance" da cantora Beyoncé , "You Could Have It So Much Better" da banda Franz Ferdinand – que é releitura da obra de Alexander Rodchenko – e "Motomami", de Rosalía.
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Se me permitem o trocadilho, a palavra “engajamento” pode ser usada tanto no campo político quanto digital, onde representa a aderência, popularidade e relevância de uma postagem em redes sociais como o Instagram.

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A planta e o disco estão entre as posses básicas de um verdadeiro “santa cecilier”. O gentílico não oficial dos moradores do bairro de São Paulo da Santa Cecília ironiza o perfil de muitos moradores da região: jovens descolados de classe média-alta, que escutam brasilidades, votam em partidos de esquerda, adoram plantas e piso de taco e têm, pelo menos, um diploma de graduação.

Engajamento6

Os critérios iniciais da escolha de capas eram bastante abrangentes – Lucas e Gus apenas evitavam parodiar álbuns de artistas mortos, temendo reações negativas. Alucinação, de Belchior, foi uma exceção. Fazer a versão pró-Boulos da capa tornou-se praticamente uma obrigação, depois que o candidato foi fotografado, enquanto caminhava pela Santa Cecília, segurando o disco e uma samambaia7. Incansáveis na missão de adicionar novas camadas ao meme, os designers também passaram a manipular a própria foto, trocando a capa de Alucinação pela paródia da vez do Vote Capas. A ideia tinha origem na página do Instagram Chandler Holding Your Favorite Album, na qual Chandler, personagem da série Friends, aparece recostado numa poltrona, de olhos fechados e fones de ouvido, abraçado a um vinil.

 

Foto original e montagem de Guilherme Boulos segurando o vinil de "Alucinação".
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Além do que se vê, há ainda mais camadas. A fotografia foi tirada por João Wainer no pátio de uma casa de detenção de São Paulo popularmente conhecida como presídio do Carandiru – desativada desde 2002. Na ocasião do lançamento do álbum, Baco Exu do Blues postou em suas redes sociais o seguinte depoimento: “Essa foto é uma das imagens mais libertadoras que eu já vi. Ser Bluesman é não ser o que os outros esperam, é não se enquadrar em rótulos ou estereótipos, e essa foto do João Wainer de um negro dentro do Carandiru, um dos maiores presídios que o Brasil já teve, representa isso! Com todo esse peso, a foto só exala arte e isso é Bluesman!!!”. A história por trás da imagem, por outro lado, deu pano pra manga para os bolsonaristas – a postagem do Vote Capas recebeu comentários como “O Lula é presidiário, por isso ele tá tocando guitarra no presídio”.

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Pessoas que se enquadram no indicativo de pobreza extrema vivem com menos de um dólar estadunidense por dia.

Na corrida eleitoral de 2022, no entanto, a estratégia curatorial do Vote Capas precisou ser adaptada. A prioridade passou a ser de artistas brasileiros, de apelo popular, que já tivessem declarado apoio à candidatura de Lula. A expectativa era que o engajamento das publicações aumentasse, através de compartilhamentos dos próprios artistas e do público geral – e foi isso que aconteceu. Anitta, Pabllo Vittar e Zeca Pagodinho, por exemplo, entraram nessa leva. Mas foi a capa do álbum Bluesman, lançado em 2018 pelo rapper baiano Baco Exu do Blues, que mais viralizou: depois de ser postada na página do artista, a publicação alcançou 130 mil usuários da plataforma e recebeu mais de 39 mil curtidas. O alcance faz sentido. A capa original mostra um rapaz negro, vestindo roupas brancas bonitas e tocando uma guitarra vermelha. O chão é de terra batida e o plano de fundo é um prédio desgastado pelo tempo8. Na versão com Lula, o ex/futuro-presidente do Brasil também veste roupas claras e segura uma guitarra, mas um detalhe chama a atenção: um adesivo do programa Fome Zero colado no corpo do instrumento. Justapostas, as imagens misturam a nostalgia do primeiros governos do PT, quando a pobreza extrema9 no Brasil diminuiu 75% segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e a esperança de um futuro em que a população marginalizada possa expressar-se artisticamente de forma segura e confiante.

Lula chega lá

No mês mais longo do ano, aquele entre o primeiro e segundo turno, Gus e Lucas se dedicaram a postar o máximo possível de novas capas – assim como muitos de nós, estavam desesperados com a possibilidade de Lula perder a disputa presidencial. Mas isso não aconteceu. Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito com 50,90% dos votos válidos e tomará posse em Brasília em 2023, pela terceira vez neste século. O dia seguinte à eleição, 31 de outubro, foi de ressaca e alívio. Era o início do fim de um dos governos, quiçá o governo, mais desastroso e tóxico de nossa História.

Paródia da capa de "Bluesman", do rapper Baco Exu do Blues.

O Vote Capas, enquanto projeto de design militante, é um lembrete de que a velocidade dos memes é imbatível e implacável, mas eles são, sem dúvida, a maior expressão do nosso tempo. O sucesso do projeto em misturar música e eleições retomou uma risada que há muito tempo não se ouvia no debate político. Por mais piegas que soe esta afirmação, a comunicação, especialmente aquela que se vale do humor, pode, sim, quebrar barreiras. Que toda essa potência seja usada, então, a favor da democracia e da preservação dos direitos humanos.

co-fundou o estúdio Passeio (2018-2022) e a TODA, onde cria projetos de design gráfico, tipografia e lettering. Além de coordenar a produção e edição dos ensaios da Recorte, é responsável por gerir as pessoas que fazem a revista acontecer, tanto em sua versão online, como impressa.
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