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18 de fevereiro de 2021

Em busca das teorias não oficiais

por Tereza Bettinardi
"Teoria do design gráfico", publicado pela Ubu

O livro Teoria do Design Gráfico possui todos os requisitos para se tornar uma obra de referência. A lista de autores é extensa: F. T. Marinetti, Aleksandr Ródtchenko, El Lissítzki, László Moholy-Nagy, Jan Tschichold, Herbert Bayer, Josef Müller-Brockmann, Paul Rand, Robert Venturi, Karl Gerstner, Kenya Hara, Jessica Helfand, Steven Heller, Kalle Lasn, Ellen Lupton, Julia Lupton, Katherine McCoy, Lev Manovich, Michael Rock, Paula Scher, Dmitri Siegel, Jan van Toorn, Wolfgang Weingart, Lorraine Wild.

Oferece uma história abrangente da disciplina mas também arrisca alguns tropeços ao apresentar uma narrativa simplista demais: design gráfico como uma história de ninar bonitinha e arrumadinha. Muitos de seus ensaios são assinados por figuras indiscutivelmente influentes, mas também deixou nomes importantes fora da lista: W. A. Dwiggins, o homem que cunhou o termo “graphic designer” para dar nome ao profissional, ou mesmo Rudy VanderLans, que, por suas opiniões e seu trabalho na revista Emigre, levou a discussão sobre tipografia digital nos anos 1990 para outro nível.

O livro é fruto de uma pesquisa acadêmica. Armstrong optou por uma estrutura temática e não cronológica. Os ensaios são cuidadosamente colocados para criar uma rede de conexões entre eles (algumas por vezes forçadas, mas isso discutiremos nos nossos encontros). Por isso é sempre bom lembrar: Teoria do Design Gráfico não está livre de expor a visão subjetiva da organizadora. Resta a nós, leitoras e leitores, entendermos que esse livro é apenas uma forma de pensar entre muitas outras, e não uma “teoria oficial”.

Barrados no baile: lista de alguns designers que não foram incluídos no livro

A. Dwiggins [1880-1956]

Designer do início do século XX, William Addison Dwiggins é provavelmente mais conhecido por cunhar o termo “graphic designer” em 1922, que usou em referência a si mesmo. Seu trabalho abrangeu design de livros, tipos e caligrafia. Criou várias fontes tipográficas, incluindo duas ainda bastante utilizadas: Electra e Caledônia. Em 1928, escreveu e publicou o livro Layout in Advertising, que, na época, era considerado o texto de referência para o campo.

György Kepes [1906-2001]

Pintor, fotógrafo, designer, educador e teórico da arte de origem húngara. Depois de imigrar para os Estados Unidos em 1937, ele ensinou design na New Bauhaus em Chicago. Em 1967, fundou o Centro de Estudos Visuais Avançados do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde lecionou até sua aposentadoria em 1974. Seu livro Language of Vision é um dos trabalhos fundamentais da teoria do design moderno, proveniente da experiência da Bauhaus.

Muriel Cooper [1925-1994]

Primeira diretora de design da editora do Massachusetts Institute of Technology e a primeira mulher a comandar o Media Lab do MIT– onde desenvolveu interfaces de software e ensinou nova geração de designers. Uma humanista entre os cientistas, Cooper adotou dinamismo, simultaneidade, transparência e expressividade em todos os meios de comunicação em que trabalhou.

Rudy VanderLans [1955]

Designer gráfico holandês. De 1984 a 2005, a VanderLans publicou, editou e projetou a revista Emigre, uma publicação trimestral dedicada à comunicação visual. Logo após a primeira publicação da revista em 1984, o computador Macintosh foi lançado. VanderLans e Zuzana Licko se tornaram os primeiros a utilizar o computador para criar alguns dos primeiros layouts digitais e desenhos de tipos de letra, causando grande consternação no campo do design gráfico. A publicação dessas tipografias na Emigre resultou em demanda pelas fontes, o que ocasionou a criação da fundição tipográfica de mesmo nome, um marco na história da tipografia contemporânea.

Retrato de Beatrice Warde, autora de “A taça de cristal” um dos textos mais polêmicos selecionados para o livro “Teoria do design gráfico”. Ilustração por Maria Júlia Rêgo.

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de agosto de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

Alguns meses atrás, passados menos de 15 dias de “quarentena” – essa nova maneira de mensurar o tempo –, fiz uma consulta em vídeo com minha astróloga. Estávamos falando de trajetórias profissionais. Ela desenhou para mim uma distinção entre duas atitudes: a de maestria e a professoral. O mestre seria aquele que, por ventura de sua trajetória e aprendizados, fala para seus discípulos a partir de uma verdade interior; já o professor ensina a partir da escuta, não se colocando no topo, nem mesmo no centro da experiência educativa, mas sim se entendendo como um veículo, um meio. Pensar sobre essa distinção me fez pensar sobre Corita Kent.

Nascida Frances Elizabeth Kent (1918-1986), ela se juntou à Ordem do Imaculado Coração de Maria em 1936, se rebatizando como Sister Mary Corita. Estudou artes visuais e em sua carreira como artista juntou duas de suas maiores paixões: a técnica da serigrafia e a linguagem da arte Pop de Andy Warhol. Imagino que você deve estar pensando: MAS O QUÊ??? Em que universo ou fic seria possível combinar uma freira da Igreja católica, um movimento de arte intrinsecamente ligado à cultura de massa, e um artista claramente queer não apenas em sua orientação, mas em sua sensibilidade?! De fato, os primeiros trabalhos de Corita, como aquele que lhe garantiu o primeiro lugar em uma competição de artes do condado de Los Angeles em 1952, representavam temas religiosos de maneira explícita. Eram bastante literais: forma e fundo, anjos, entidades religiosas. Mas, dez anos depois, ao ver a exposição da série de latas de sopa Campbell’s de Warhol, ela teve uma… iluminação. Produziu então sua primeira obra Pop: um conjunto de formas abstratas, orgânicas, semicirculares, em tons vibrantes de laranja e amarelo, e em verdes, carmim. Corita já era autodidata em serigrafia, tendo escolhido essa técnica por dois motivos: queria que sua arte fosse acessível para as massas e facilmente multiplicável. Mas o descobrimento do Pop alterou seu percurso, e, deste ponto em diante, ela trabalhou para sofisticar sua voz e inventar um universo gráfico particular.

Os trabalhos de Corita emergem dessa busca pelo divino no cotidiano, crendo na possibilidade de paralelos entre diferentes contextos. Porém, nesse estado de euforia religiosa, tomam uma abordagem mais crítica, levando em consideração os contextos e preocupações sociais.
1

e.e. cummings (1894-1962) era poeta, pintor, ensaísta e dramaturgo cujo estilo é caracterizado como poesia de forma livre. Alguns de seus trabalhos mais notáveis experimentam com sinais de pontuação e arranjo tipográfico no espaço da página.

2

Gertrude Stein (1874-1946) foi escritora, poeta, dramaturga e colecionadora de arte. Vivia em Paris, onde promovia encontros de figuras importantes da cultura ocidental, como os artistas Pablo Picasso e Henri Matisse, e escritores como Ernest Hemingway e Ezra Pound. Seu estilo de literatura é caracterizado como sendo de fluxo de consciência e hermético, criando uma narrativa que parece se desenvolver no presente por meio de associações de imagens, cenas e ideias.

3

Marshall McLuhan (1911-1980) era teórico e escritor de mídias e comunicação, autor de livros como Understanding Media (1964) e Meio é a massagem (1967, em parceria com o designer Quentin Fiore), fundamentais no entendimento de semiótica e de como os meios pelos quais uma comunicação se dá influenciam em como a informação é recebida. Cunhou o termo “aldeia global”, para explicar como os meios eletrônicos estavam encurtando as distâncias entre os povos no mundo.

4

Stewart Brand (1938) é escritor e ativista. Sua obra mais importante é o Whole Earth Catalogue (1968, reeditada algumas vezes depois), uma autopublicação que mistura catálogo de produtos, guia de recursos, ferramentas e dicas para uma vida em comunidade e com menos exploração dos recursos do planeta. A obra é até hoje associada a movimentos sociais “do it yourself” (faça você mesmo) e de contracultura.

5

Alan Watts (1915-1973) era filósofo, escritor e palestrante notável por interpretar e popularizar ideias de filosofias budistas, taoístas e hinduístas para o público ocidental, em especial aos hippies e adeptos da contracultura. Ele também explorou a consciência humana por meio de psicotrópicos como LSD e mezcal e estudou a religião cristã, chegando a ser ordenado como padre.

6

Buckminster Fuller (1895-1983) era arquiteto, designer, inventor e professor. Tornou popular a estrutura de abrigo conhecida como “Domo geodésico”, desenvolvida em parceria com alunos enquanto era professor na Black Mountain College, considerada uma escola “herdeira” das ideias da Bauhaus.

7

John Cage (1912-1992) foi compositor, teórico musical e artista. Suas composições musicais incorporam ideias como indeterminação, silêncio e ruído, e o uso não convencional de instrumentos musicais. Foi um dos pioneiros nos “happenings”, acontecimentos artísticos mistos sem roteiro preestabelecido.

A justaposição ou “colisão” entre a alta e a baixa cultura é um modus operandi comum da arte Pop. Os trabalhos de artistas como o próprio Warhol, Roy Lichtenstein, Ed Ruscha e do brasileiro Claudio Tozzi fazem referência a histórias em quadrinhos, filmes de Hollywood e música popular ou a produtos da gôndola do supermercado. Corita também tomava de empréstimo a cultura da rua e do mundo “real”, se inspirando no desenho gráfico de marcas de grandes empresas, de cartazes e outdoors comerciais. Mas seu olhar tensionava essa estratégia de uma maneira ímpar, em sintonia com reformas que o Vaticano propunha para modernizar a instituição da Igreja católica diante de seus fiéis, enxergando na arte Pop uma forma de expressar e se conectar com os anseios de uma nova sociedade. Corita reproduzia, por exemplo, passagens da Bíblia em inglês em muitas de suas obras, o que teve um impacto no abandono do latim nas missas.

Em uma entrevista, ela afirmou que “[Por isso] as pessoas escutam música ou olham para pinturas. Para entrarem em contato com a totalidade”. Seus trabalhos emergem dessa busca pelo divino no cotidiano, crendo na possibilidade de paralelos entre diferentes contextos. Porém,nesse estado de euforia religiosa, tomam uma abordagem mais crítica, levando em consideração os contextos e preocupações sociais. Sua linguagem e seus temas caminham em paralelo com as lutas por direitos civis que marcaram muito da narrativa dos anos 1960 e 1970. Essas camadas, por sua vez, eram filtradas através de outras tantas referências: a literatura de escritores experimentais como e.e. cummings1 ou modernos como Gertrude Stein2; a abordagem de design do casal Charles e Ray Eames; o cinema de Alfred Hitchcock; a expressividade do artista gráfico Saul Bass. O trabalho de Corita então resultava em uma abordagem de mensagens textuais por vias gráficas. Suas serigrafias quase sempre traziam como protagonistas passagens da Bíblia combinadas a slogans políticos, trabalhados visualmente como texturas, acompanhados de formas abstratas coloridas, desenhos de tipografias que tomavam de empréstimo a linguagem comercial, repetições, gestualidade e a sugestão de movimentos, planos e tridimensionalidade. É um trabalho explosivo numa intersecção entre design e arte: fica evidente, ao olhar para qualquer uma de suas obras, a multiplicidade de referências, contextos e discursos sobrepostos. 

E é essa estratégia de sobreposições, significados e camadas, a meu ver, que a posiciona não apenas como uma artista Pop (valorizada na época, mas hoje em dia reconhecida como parte do cânone histórico do movimento), mas como criadora de uma arte “Informacional”. O resultado de seus trabalhos me parece totalmente em sintonia com as ideias de teóricos como o semiótico Marshall McLuhan3 e o ativista Stewart Brand4, que, na década de 1960, olharam para como os meios eletrônicos – a televisão, os primeiros computadores – mudariam para sempre a nossa maneira de existir e nos comunicar. A sensibilidade de Corita parece representar não apenas a cultura de massa como linguagem visual, mas também como discurso: a cacofonia de narrativas e sensações, a velocidade do corte e edição, o tumultuado panorama comunicacional e informacional dos anos 1960 e 1970. A serigrafia “if i”, de 1969, é um exemplo dessa abordagem: sobre um fundo vermelho mistura-se uma silhueta religiosa em azul (cores que aludem à bandeira dos Estados Unidos), na qual estão sobrepostas as palavras “crucificação”, “redenção” e “ressurreição do espírito” em alto ou baixo contraste; a frase BLACK IS BEAUTIFUL (negro é lindo) aparece em preto, acompanhada de trechos de um discurso da ex-esposa do ativista Martin Luther King, assassinado um ano antes. Tipografias texturizadas e serifadas estão lado a lado de um texto em letras manuscritas de autoria do escritor britânico Alan Watts5, cujo conteúdo referencia filosofias religiosas do oriente e literatura romântica inglesa. São camadas e camadas de referências, discursos, personagens, paralelos e ideologias, num trabalho que vibra de maneira sinestésica. É visual, mas também auditivo, vocal: é quase possível “escutar” as palavras, seus volumes, tons. 

Serigrafia e Arte Pop eram duas de suas paixões, mas a terceira, na qual atuou paralelamente por boa parte de sua vida, era a educação. Foi professora e chegou a se tornar chefe da cátedra de arte na Immaculate Heart College. Tinha em suas aulas a mesma abordagem vanguardista de sua arte, propondo exercícios não convencionais e em igual sintonia com as discussões de crítica, teoria e sociedade de seu tempo. Entre os convidados que trazia para falar a suas aulas estavam o arquiteto e estudioso Buckminster Fuller6, o casal Eames, e o músico experimental John Cage7 – a quem referenciou em um de seus trabalhos artístico-educacionais mais importantes. Pregadas nas salas de aula e ateliês da instituição, estavam as “Regras do Departamento de Arte da Immaculate Heart College”, uma lista de 10 itens que apresentam um modo de educar zero prescritivo e nada dogmático: 

Layout original das 10 “Regras do Departamento de Arte da Immaculate Heart College”

Regra 1: Encontre um lugar em que você confia e tente confiar por um tempo.

Regra 2: Deveres gerais do estudante: Retire o máximo de seu professor. Retire o máximo de seus colegas.

Regra 3: Deveres gerais do professor: Retire o máximo de seus estudantes.

Regra 4: Considere tudo como um experimento.

Regra 5: Seja autodisciplinado. Isso significa encontrar alguém sábio ou esperto e escolher segui-lo. Ser disciplinado é seguir de uma boa maneira. Ser autodisciplinado é seguir de uma maneira melhor.

Regra 6: Nada é um erro. Não há vitória nem falha. Há apenas o fazer.

Regra 7: A única regra é o trabalho. Se você trabalhar, isso te levará a algo. São as pessoas que fazem todo o trabalho a todo tempo que um dia entendem as coisas.

Regra 8: Não tente criar e analisar ao mesmo tempo. Esses são processos diferentes.

Regra 9: Seja feliz quando você conseguir sê-lo. Divirta-se. É mais fácil do que você imagina.

Regra 10: “Estamos quebrando todas as regras. Até mesmo as nossas regras. E como fazemos isso? Deixando bastante espaço para quantidades X.” John Cage

Dicas úteis: Sempre esteja por perto. Venha ou vá para tudo. Sempre vá às aulas. Leia tudo o que você tiver em suas mãos. Veja filmes cuidadosamente. Frequentemente. Guarde tudo – pode ser que seja útil mais tarde. Deve haver novas regras na próxima semana.

Corita explicitava ali a ética de seu trabalho como educadora, sugerindo como cada um deveria encontrar em si e em sua prática não apenas as perguntas, mas também as respostas para seus questionamentos. A influência das literaturas experimentais e modernas fica explícita no item 7: a única regra é o trabalho (mas como ficam as outras 9 então, coitadas?) – grafado maior que todos os outros. Imagino que sua intenção era que ele pudesse ser visto ao longe, imediatamente ao se entrar na sala de aula, como uma espécie de desafio e alento: na dúvida, basta trabalhar. As regras abrangem a todos: alunas, professores. E terminam com a citação de John Cage, que estimulava a quebra das outras 9.

Após um sabático para refletir sobre sua fama e a projeção de seu trabalho, no final da década de 1960, ela abandona a Ordem, também por desavenças com os setores mais conservadores da Igreja, que viam em seu trabalho um teor político exacerbado. Funda a Immaculate Heart Community, e segue trabalhando até o final de sua vida, desenvolvendo serigrafias, selos postais e outdoors.

Tese e antítese, todas provocativas e meio paradoxais, as regras de Corita se orientam pelos mesmos princípios que me fazem compreender a múltipla plenitude de sua existência – religiosa, artista Pop e informacional, ilustradora, educadora – como sendo, sobretudo, de uma atitude professoral. Sempre se entendendo como um meio, um veículo para a palavra, para as linguagens, para as referências, para as regras e as não regras, para a religião, para a sociedade e as mensagens urgentes, para suas alunas. Não há mulher, não há freira, não há Corita: há apenas o trabalho.

Retrato de Corita Kent por Maria Júlia Rêgo para o Clube do livro

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de agosto de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

15 de fevereiro de 2021

Morte aos papagaios

por Tereza Bettinardi

Morte aos papagaios, de Gustavo Piqueira, foi publicado pelo Ateliê Editorial em 2004

Morte aos Papagaios foi publicado em 2004 e reúne 13 crônicas escritas pelo designer brasileiro Gustavo Piqueira. “Papagaios” são os designers que não têm opinião alguma, buscam opiniões prontas e vivem as repetindo: os que leem design, vão à exposições de design e, mesmo assim, fecham os olhos e seguem falando “papagaices” por aí. O principal motivo pela inclusão do livro na lista foi suscitar o debate sobre a combinação de prática profissional e reflexão. Não são tantos designers que decidem pausar (mesmo que momentaneamente) a atuação em seus estúdios para escrever sobre suas inquietações.

Apesar do esforço necessário em uma área tão carente de reflexão, em diversas passagens, o livro parece se referir a outro tempo, a um mundo que não existe mais. Alguns comentários e observações parecem tão deslocados que talvez torne a leitura até um pouco anacrônica. Mas também é interessante se perguntar: o que ainda ressoa na nossa comunidade passados 16 anos? Evoluímos em algumas dessas discussões?

O autor também faz uma ressalva ao próprio livro. Ao ver que o livro estava na lista do Clube do Livro do Design, Piqueira comentou: “se um dos autores da lista de títulos tiver hoje série ressalvas ao que escreveu há alguns anos em seu livro, é possível alguma espécie de participação na discussão quando chegar ‘sua vez’?”.

Retrato de Gustavo Piqueira por Maria Júlia Rêgo para o Clube do livro

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de julho de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

14 de fevereiro de 2021

Qual é o seu tipo?

por Tereza Bettinardi

Esse é meu tipo, de Simon Garfield. Publicado no Brasil pela Zahar em 2012

Cada vez mais, uma parte considerável de pessoas está aprendendo sobre tipografia por razões diversas. Elas podem não saber a diferença entre a serifa egípcia e a didone, mas estão cada vez mais atentas sobre o tipo de mensagem que querem transmitir e quais tipografias utilizar. Os computadores pessoais são a principal razão para esse interesse. Se Steve Jobs não tivesse gostado de caligrafia enquanto estudava na universidade e não tivesse decidido incluir um menu de fontes no software de computador, talvez não estivéssemos tendo esta conversa.

Esse é o meu tipo, escrito pelo jornalista britânico Simon Garfield, é longe de ser um livro especializado. É, na verdade, um almanaque de curiosidades sobre tipografia e talvez justamente por isso traga uma contribuição importante. O assunto tipografia traz sentimentos conflitantes: ao mesmo tempo que é a base fundamental do nosso trabalho, também é fonte de muita insegurança aos jovens designers. É bastante comum ter o sentimento de estar fascinada pela forma e pequenos detalhes das letras e ao mesmo tempo ter um pânico mortal, como se estivesse pisando em ovos ao ajustar um kerning. 

O valor do livro está em mostrar como um assunto tão específico pode encontrar paralelos na experiência e vivência de mais e mais pessoas. Afinal, não são só os designers que tomam decisões tipográficas diariamente: um post no instagram já nos pergunta como escrever — moderna, neon, typewriter… Como nós, designers, podemos aproximar a tipografia do público leigo? Será que essa é também uma responsabilidade nossa? Como estabelecer um equilíbrio entre o uso de termos técnicos e a tradução para os leigos? Talvez o livro não traga grandes revelações para nós designers, mas, se prestarmos um pouco mais de atenção, é possível perceber que a crônica simples e os casos anedóticos do autor podem nos dar dicas valiosas de como tornar a tipografia um assunto interessante para mais pessoas.

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de julho de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

11 de fevereiro de 2021

Tristes verdades

por Tereza Bettinardi

Capa do livro Políticas do Design, publicado no Brasil pela Ubu

Políticas do Design é uma leitura reveladora e, por vezes, desconfortável. Publicado originalmente em 2016 e recém-traduzido para o português, trata-se de um livro pequeno que faz uma grande reivindicação: ‘este livro não é sobre design de propaganda política ou de partidos, mas reconhece que todo design é político’. 

Por inúmeros exemplos, Ruben Pater nos mostra que a ignorância cultural, estereótipos arraigados e preconceitos pessoais podem se infiltrar nos atos mais bem-intencionados. Se o ponto, a linha e o plano são os alicerces clássicos do design gráfico, a primeira grande contribuição de Políticas do Design está no sumário — os 61 artigos que compõem o livro são organizados em capítulos/seções que correspondem aos princípios formais da disciplina: Linguagem e tipografia, Cor e contraste, Imagem e fotografia, Símbolos e ícones, e Infografismo. Essa estrutura reforça sutilmente a mensagem de que mesmo os aspectos mais banais da prática do design gráfico trazem consequências significativamente políticas.

Cada texto fornece uma pequena gota de iluminação. Pater fornece insights sobre tópicos que estão em qualquer manual básico de comunicação visual: perspectiva, psicologia das cores, leitura de imagens, mapas, gráficos, a distinção entre pictogramas e ideogramas. A diferença é que agora as dimensões políticas estão escancaradas e nem sempre a imagem que nós designers fazemos de nós mesmos é agradável.

Muito se fala de uma prática social do design, por vezes entendida como uma espécie de armadura para enfrentar uma ‘força do mal’ externa a tudo que diz respeito à nossa prática. Os adeptos dessa crença acreditam que o design tem o poder de lutar contra as desigualdades da humanidade, mas parecem ignorar os conflitos internos do nosso campo profissional. É fácil fazer uma exposição de cartazes contra a desigualdade… Difícil é ter que lidar com o fato de que toda a vez que ouvimos ‘um bom designer precisa ter boas referências visuais’ expõe o caráter elitista da nossa profissão. À medida que avançamos a leitura, fica mais claro que tudo o que você faz como pessoa, como cidadão, não é muito diferente do que você faz enquanto designer.

Esse livro não tem por objetivo ensinar como fazer boas ações, mas acaba por colocar um espelho bem na nossa cara. É um convite ao exame crítico da nossa prática cotidiana para encontrar as dimensões políticas que sempre estiveram presentes, mas para as quais estamos cegos.

Retrato do autor Ruben Pater por Maria Júlia Rêgo para o Clube do livro

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de junho de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.

12 de fevereiro de 2021

O encontro entre jornalismo e design

por Tereza Bettinardi

Estúdio compartilhado pela equipe da designer Tereza Bettinardi e pela arquiteta Mariana Wilderom antes da pandemia

Quantos designers são necessários para trocar uma lâmpada? Era uma piada que surgia com frequência nos eventos d’A Escola Livre, projeto que mantive com Guilherme Falcão entre os anos 2015 e 2018. A resposta: três. Dois para dizer que teriam feito diferente e um para efetivamente trocar a lâmpada. Já peço desculpas por explicar a piada, mas volto sempre a essa anedota para refletir sobre o que está em jogo quando nos aventuramos a fazer crítica em design gráfico.

Ao mesmo tempo, é comum nos acostumar com a superfície das redes: o foco no trabalho finalizado, nos resultados, nos mockups digitais. A engenharia da própria rede não facilita o compartilhamento dos processos, das falhas, dos desvios no processo. A narrativa sobre como se chegou àquele resultado é linear… Ignoramos os percalços, tomadas de decisão que estão fora do controle do designer ou mesmo as dinâmicas sociais e de classe que tornaram aquela encomenda possível.

O exercício da crítica precisa de dados e este é o grande mérito de Studio Culture, lançado em 2009. Desiludidos com a maneira como as editoras convencionais abordavam o design gráfico, Adrian Shaughnessy e Tony Brooks fundaram a Unit com a intenção de publicar livros feitos para e por designers gráficos. O formato jornalístico da entrevista é peça-chave para fazer deste livro uma ferramenta fundamental de análise e crítica. Studio Culture foi o primeiro produto desse esforço: um robusto compilado de entrevistas com 28 estúdios de design gráfico. 

Tereza Bettinardi e equipe (Maria Julia Rêgo e Barbara Cutlak) durante a pandemia

Pouco se sabe ou se diz sobre como os estúdios trabalham para oferecer caminhos criativos, coerentes, responsáveis e que consigam, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro suficiente para sobreviver. As entrevistas fornecem retratos reveladores das circunstâncias únicas que permitiram a criação de cada estúdio. De aspectos práticos da administração a tópicos mais abstratos, como as virtudes de uma cozinha limpa, cada relato faz você se sentir como se estivesse ouvindo uma conversa íntima entre colegas. E é exatamente sobre isso que se trata afinal. 

À medida que mais e mais recém-formados saem das escolas de design para encontrar o desemprego e a falta de oportunidades, a capacidade para administrar um negócio se torna um imperativo para a sobrevivência. Por outro lado, num ambiente em que todos são CNPJs ambulantes, quais são as condições colocadas na mesa? Como os relatos do livro podem ser contrapostos à realidade brasileira, por exemplo?

Este texto foi publicado originalmente como leitura complementar do mês de junho de 2020 do Clube do Livro do Design. O Clube, realizado por Tereza Bettinardi, promove debates mensais a partir da literatura do Design.