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17 de maio de 2021

Virando uma escola do avesso

Em 2017, alunos, ex-alunos e professores da Escola Superior de Desenho Industrial promoveram uma série de eventos com a intenção de mobilizar a sociedade contra a crise que a instituição atravessava. Foto retirada do site da Esdi.

Você já deve ter ouvido falar da Esdi. A Esdi tem história. Mas a história que eu quero contar não é sobre o projeto de educação importado da Europa. Este não é um texto sobre a Escola Superior de Desenho Industrial que você conhece dos livros e revistas de fofoca modernista, com enredos picantes envolvendo desenhistas de jaleco, siglas em alemão e muita pompa. Peço licença para falar sobre o Esdi Aberta, um movimento que começou em 2016 e uniu a comunidade acadêmica em torno da sobrevivência da escola. Sobre a revirada de poeira que foram aqueles meses de crise, em que derrubamos um muro,  espantamos os abutres da especulação imobiliária, redesenhamos uma identidade visual e botamos fantasmas modernistas para dançar.

Antes de falar sobre isso tudo, acho importante a gente se situar. Muito do que quero dizer tem a ver com o espaço físico e o território em que a Esdi está inserida. Para quem nunca esteve lá, vou tentar descrever. Imagina o Centro da cidade do Rio de Janeiro, num ponto equidistante entre o Museu de Arte Moderna e o Largo da Carioca, a dois passos da Cinelândia e do Theatro Municipal. Ali, aos pés dos Arcos da Lapa, tem uma vila de casas cinza-chumbo cortadas por uma rua de paralelepípedo, carinhosamente chamada de Boulevard. Essa vila é uma escola de design. 

Ninguém sabe ao certo o que havia no terreno antes de ele virar uma escola, em 1962. Muitas lendas rondam o mito fundador. Já ouvi dizer que era uma vila operária, que era uma vila militar, e até sede de estação de rádio. Recentemente ouvi alguém se referir à Esdi como a “Vila do Chaves”. Nem sou muito fã de Chaves, mas a definição é precisa. Tem um cenário principal que é o centro da vila, com alguns outros poucos cenários que aparecem de vez em quando, como a oficina de materiais, a biblioteca, o laboratório de informática. Um elenco enxuto de personagens bem definidos, cumprindo seu papel na trama e garantindo altas confusões.

O espaço físico da Esdi abriga somente o curso de design. Apesar de fazer parte da Uerj, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Esdi fica fora de seu campus principal, no Maracanã. É como um pequeno satélite descolado da nave mãe, com uma altíssima concentração de designers por metro quadrado. Tendo formado ao longo dos anos turmas pequenas, a Esdi dá a seus alunos a noção de que a faculdade é sua casa, e junto com isso, a ideia de que devemos zelar por ela, e, claro, protegê-la de perigos.

Na Esdi, como no Rio, andamos sempre escaldados, sempre com medo. Medo do corte de verbas, do corte de gastos, e no caso específico daquele terreno, medo da especulação imobiliária. Não bastasse o sucateamento pelo Estado, sofremos especial assédio dos abutres dos empreendimentos imobiliários. Cravado no coração da Lapa, o terreno da Esdi sempre esteve sob ameaça de ser tomado pela iniciativa privada.

Se o Centro do Rio fosse um boi, o terreno da Esdi seria carne de primeira. Do ponto de vista anatômico, o correto seria dizer que o terreno é uma tripa, que começa num quarteirão e termina no outro. Antes do Esdi Aberta, a entrada da escola era na Rua Evaristo da Veiga, de cara pros Arcos. Quem entrasse no terreno, atravessasse o Boulevard e seguisse até o final ia dar de cara num muro, já na Rua do Passeio. Essa parte dos fundos do terreno que dava pro Passeio Público era desocupada e servia de estacionamento; uma região erma e escura dominada por infinitos felinos (regularmente alimentados pela Senhora dos Gatos). 

As ações que culminaram no Esdi Aberta foram espalhadas ao longo dos anos e por muitas pessoas. Muita coisa aconteceu até realizarmos o evento que marcou o lançamento de tudo, em fevereiro de 2017. Uma das mudanças mais significativas foi a inversão dos polos do terreno. A escola foi virada do avesso, espelhada. O muro dos fundos foi derrubado e, em seu lugar, construída uma extensa fachada de vidro com um portão no meio.

Eike à espreita

Intervenção no antigo muro. Foto: Clara Juliano

Quando estava no segundo ano de faculdade, fizemos um trabalho em grupo para uma disciplina de fotografia, que acabou sendo uma reação à sensação de insegurança e ao medo de que o terreno da Esdi fosse tomado. Colamos um Eike Batista de três metros no centro do muro dos fundos, como quem espia por cima, para lembrar que o inimigo está sempre à espreita. Isso foi pouco antes de o império dele ruir, numa época em que a cara dele era a cara da iniciativa privada. Aquela imagem agia no inconsciente da comunidade. Era um lembrete para nós mesmos de que estávamos sempre em perigo.

Intervenção no antigo muro. Foto: Clara Juliano. / Alunos reunidos no encontro "Imagina Só", em 2012, para pensar formas de ocupar a parte ociosa do terreno. Ao fundo, Eike à espreita. Foto: Gabriel Borges.

Foi desses trabalhos que ganham mais relevância com o tempo: a deterioração da colagem do lambe-lambe e a posterior derrubada do muro para abertura do novo portão coincidiram astrologicamente com a queda do império de Eike e sua prisão. Seu rosto foi colado em 2012 e ao longo dos anos assistiu às manifestações de junho de 2013, à Copa do Mundo de 2014 e à preparação para as Olimpíadas. Período em que o Rio foi o palco principal de um festival de tragédias; a ascensão e colapso de um mundo de fantasia, obras bilionárias e desvios de verba.

Quando chegamos em 2016, o governador Sérgio Cabral já havia renunciado ao cargo (ele viria a ser preso em novembro) e o pesadelo do momento era o projeto de desmonte do ensino público perpetrado por seu sucessor, Luiz Fernando Pezão (hoje também preso, seguindo a tradição carioca). Depois de meses sofrendo abusos de toda a sorte, professores, alunos e funcionários da Uerj entraram em greve e o calendário acadêmico ficou suspenso. Ainda assim, o governo foi além e travou o repasse da verba para manutenção básica do campus, passou a parcelar o salário de professores e bolsas de alunos, até que a situação ficou insustentável e a universidade teve que paralisar todas as suas atividades.

Sob nova direção

1 Zoy Anastassakis; Marcos Martins; Lucas Nonno; Juliana Paolucci; Jilly Traganou. “Temporarily Open: A Brazilian Design School’s Experimental Approaches Against the Dismantling of Public Education”. Design and Culture. Nova York. 2019.

Foi nesse conturbado contexto que os professores Zoy Anastassakis e Marcos Martins assumiram a direção da escola, para a qual haviam se candidatado poucos meses antes. Assumiram a responsabilidade de tentar navegar um barco à deriva. Ficaram com esse pepino nas mãos. “Uma dupla missão de tentar gerir uma escola e ao mesmo tempo ter que improvisar para garantir sua sobrevivência1.”

A suspensão das aulas foi uma oportunidade para dar uma geral na casa: lidar com infiltrações e infestação de cupins, fazer a poda das árvores, restaurar a fiação elétrica, essas coisas. As urgências impostas pelas ameaças à integridade física da escola pediam ações concretas e imediatas. Para se ter uma ideia, até a coleta de lixo estava suspensa. Alunos e funcionários precisaram fazer mutirões para a retirada das montanhas que acumulavam na entrada.

Quando digo que a escola foi virada do avesso, me refiro também a essa inversão temporal, a distância entre os ideais reluzentes cultuados no tempo de sua fundação, e uma Esdi já totalmente transformada pela realidade brasileira.
2 Zoy Anastassakis; Marcos Martins. “Smoke Signals from Brazil”. Eye Magazine, n. 95, vol. 24, 2018.

Apesar de estarmos sem condições de funcionar, era muito importante naquele momento mostrar que não estávamos parados. Todos os esforços tinham também o objetivo de tornar visível nossas tribulações, mostrar para a opinião pública que a Esdi e a Uerj têm relevância social, querem permanecer abertas e funcionando, mas o governo não deixa. Foi um momento de grande mobilização que estabeleceu relações novas entre a comunidade. Enquanto removíamos lixo, entulho e folhas secas do terreno, nossos colegas do movimento Uerj Resiste espalhavam enormes SOS pelo campus principal. Estávamos como náufragos numa ilha deserta, fazendo sinais de fumaça2, esperando um resgate vindo dos céus, mas como todo bom náufrago, nos virando e reinventando pra sobreviver.

O contexto político em que tudo isso se deu não podia ser mais brasileiro, com as precariedades estruturais típicas daqui. O design importado da Alemanha que aprendemos nas disciplinas de Meios e Métodos não dava conta do tipo de problema que tínhamos diante de nós. Quando digo que a escola foi virada do avesso, me refiro também a essa inversão temporal, a distância entre os ideais reluzentes cultuados no tempo de sua fundação, e uma Esdi já totalmente transformada pela realidade brasileira.

O campus da Lapa virou um laboratório onde se experimentavam formas de ocupação do terreno e novas possibilidades de convivência. Alunos, ex-alunos, professores, ex-professores, funcionários e amigos da escola se dividiram em grupos de trabalho e assumiram responsabilidades pelo campus afora. Para citar alguns exemplos: uma vaquinha para pagar o salário do Carlinhos, zelador supremo da escola, fundamental pro seu funcionamento, que teve o salário cortado pelo Estado; a criação do Colaboratório, uma ocupação autogerida da oficina gráfica, que promoveu, dentre outras ações, a restauração e descupinização do armário contendo todo o acervo de tipos móveis da escola; o grupo Espaços Verdes, que promoveu a regeneração de uma área degradada do terreno e a criação de uma horta comunitária; o estabelecimento de uma cozinha coletiva em que os alunos preparavam refeições, às vezes com vegetais colhidos ali mesmo na horta. Em cada uma dessas ações, alunos aprendiam uns com os outros enquanto colocavam a mão na massa.

Redesenho da identidade visual

Se a intenção era mostrar ao mundo que estávamos firmes e fortes, precisávamos de um site que desse conta desse recado. Outra iniciativa importante foi o estabelecimento de um co-escritório dentro da direção, formado por oito alunos, para pensar e tocar a comunicação da escola. Como todo designer que se preze, a Esdi estava há um tempão sem atualizar seu portfólio. Quem entrasse no site até 2017 ia se deparar com uma página digna dos primórdios da internet, aquele retângulo 800×600 pequenino flutuando no meio da tela. Num esforço que também contou com a colaboração de ex-alunos, um site completamente novo foi erguido do zero. Junto com o site, surgiu a necessidade de pensar uma cara nova para a escola — um logotipo e uma identidade visual que estivessem mais alinhados com o momento pelo qual passávamos. 

Nunca esteve muito claro para ninguém qual era ou como funcionava o logotipo da Esdi. O que entendíamos como logo tinha sido aproveitado de um cartaz feito por um professor para um evento nos anos 1990. Era uma identidade gasosa, misteriosa, que ninguém se julgava apto a mexer. Dessas coisas que vão ficando e, quando viu, ficaram. O contexto de abertura e renovação desencadeado pelo Esdi Aberta criou as condições ideais para que essa nova cara fosse desenhada pelos alunos que ali estavam, e não pelo Mais Antigo Professor Esdiano, nem pelo Mais Renomado Designer formado pela Esdi. 

Como qualquer lugar adepto a tradições, a Esdi tem seus dinossauros, e parecia reinar ali um clima consideravelmente hostil e avesso a mudanças. Tudo que propusemos para o  redesenho da identidade foi feito com cautela e respeito à Tradição Esdiana, mas com total confiança e respaldo da direção. Foi graças ao apoio e à liberdade oferecidos pela direção que nós alunos nos sentimos confortáveis para sugerir essas mudanças.

Tentei evitar que este texto entrasse em pormenores formais, justamente porque o mais incrível do Esdi Aberta foi o movimento em si, e não a fonte escolhida para o site. Mas, já que estamos aqui, permita-me uma digressão rápida: 

O logo antigo podia ser visto nas placas de sinalização do campus e no header do site. Consistia na sigla ESDI em letras maiúsculas, compostas na fonte Univers — desenhada pelo suíço Adrian Frutiger em 1957. Acho importante dizer isso porque poucas fontes poderiam representar a Tradição Esdiana tão bem quanto aquela, o epítome do modernismo tipográfico. Para atacar o redesenho, fomos comendo pelas beiradas. A ideia inicial era expandir a identidade existente sem alterar a fonte. Decidimos explorar o potencial contido na própria Univers, uma das primeiras famílias tipográficas projetada como um sistema coeso de variados pesos, larguras e inclinações. 

Parecia incompatível com o novo ideal de abertura da Esdi que toda sua comunicação visual estivesse restrita a um único estilo, o Bold Condensed. Aquela rigidez toda nos atordoava. A presença dos fantasmas de modernismos antigos nos mal assombrava, e víamos no logo uma representação muito bem acabada desse sentimento. Nossa intenção não era exorcizar esses espíritos, mas sim, colocá-los para dançar.

Propusemos que as letras do logo fossem animadas, mudando de peso, largura e inclinação. Qual não foi o espanto dos professores do Departamento de Comunicação Visual quando sugerimos que o logotipo fosse um GIF. Um festival de olhos revirando. É mesmo muito engraçado como se mantém essas tradições todas, como se constrói uma aura em torno de um lugar. O que estávamos propondo não era nada revolucionário, era literalmente só uma chacoalhada nas estruturas.

Apesar de dançante, a proposta não causou a ruptura que esperávamos. Deixamos o anacronismo da Univers para trás e desenhamos um conjunto de letras do zero,  combinando essas letras para formar uma série de logotipos inusitados, assumidamente esquisitos e não convencionais. Para compor a identidade, definimos uma paleta de cores  exagerada e simbolicamente contrastante ao cinza tradicional.

É um projeto de identidade que se distancia um pouco do que se vê no mundo corporativo, em que marcas são “feitas para durar”. Importava mais percorrer o trajeto, fazer o exercício, experimentar e, a partir disso, “deixar uma marca”. Não delimitando um futuro, mas registrando um presente, uma realidade. Foi um ponto de partida para a reivindicação da identidade da escola pelos alunos. A ideia é que se mantenha aberta para constante atualização, podendo ser expandida ou mesmo reinventada pelas turmas dos próximos anos, se adaptando às realidades e anseios dos tempos que virão.

O que aprendemos?

Para cada professor que torcia o nariz, outro sugeria caminhos e apontava direções. O redesenho foi uma pequena fração das ações do Esdi Aberta, mas só foi possível graças ao movimento. Quis contar essa história para ilustrar a potência arrasadora de uma comunidade unida em torno de uma causa real e urgente. Os personagens daquela vila de casinhas cinza cultivaram um espírito de cumplicidade que abriu possibilidades de utopias por meio do design e do ensino do design, imaginando outras formas de ocupar e existir naquele espaço.

O design que experimentamos no contexto do movimento Esdi Aberta foi um design para tempos de crise persistente, design que não se propõe a resolver problemas, mas busca formas de conviver com eles, de se manter de pé apesar deles.

Nós alunos vivíamos reclamando que os projetos que fazíamos para as disciplinas tratavam de cenários imaginários, mundos de fantasia em que todos os materiais são possíveis, a verba é infinita e tudo se encerra no mockup. Outros cursos, por sua vez, se orgulham de afirmar que preparam os designers para o “mercado de trabalho”. No entanto, quando o currículo de uma faculdade se restringe à realidade do mercado, perde-se o que ela tem de mais libertador, que é a possibilidade de imaginar outras realidades e meios para a prática da profissão. Com o Esdi Aberta tivemos a oportunidade de explorar um caminho do meio: dentro do contexto acadêmico e fora da lógica corporativa, mas com consequências reais e concretas. Um ensino do design que serviu a propósitos verdadeiros, sensível e consciente dos desafios impostos pelo contexto em que estava inserido. 

A mania neoliberalizante que coopta e precariza a profissão — e também seu ensino — é a mesma que espia e especula com nosso terreno; corta verbas e sucateia, para depois privatizar. Essa mania veio pra ficar e não vai embora tão cedo. O design que experimentamos no contexto do movimento Esdi Aberta foi um design para tempos de crise persistente, design que não se propõe a resolver problemas, mas busca formas de conviver com eles, de se manter de pé apesar deles. Um design que não se encerra em si mesmo, mas abre caminhos, cria condições para reinvenção e adaptação à realidade.

Naquele ano de 2017, a Uerj só pôde retomar plenamente suas atividades em dezembro, depois de assinado um empréstimo da União para alívio das contas do Estado. De lá pra cá nossos problemas só se agravaram. Agora mesmo começam a surgir notícias de que a Universidade Federal do Rio de Janeiro está prestes a fechar as portas por falta de verba básica para infraestrutura. Os próximos anos vão exigir ainda mais de nós. Vamos ter que arranjar força não sei de onde, arregaçar as mangas, e não nos deixar arruinar pela opressão. Transformar muito muro em portão, levar o lixo pra fora, abrir espaço para os bons ventos entrarem para que o ar possa circular. Vamos ter que remover a poeira acumulada, inclusive aquela dos cantinhos  mais inacessíveis. Vamos precisar de todo mundo. Convocar todos os espíritos, espectros e almas que estiverem por aí, fazer um grande evento e colocar todo mundo pra dançar.

Daniel Rocha é designer gráfico e desenhista de letras do Rio de Janeiro. Formado pela Esdi-UERJ, atua como freelancer criando identidades visuais, logotipos, livros e capas de disco. Se aproveita da condição de designer pra se infiltrar no universo da música e é desconhecido na cena musical carioca como vocalista da banda Exército de Bebês. Atualmente, reside e trabalha na California.
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