Para continuar independente, a Recorte conta com o apoio de Conheça Blackletra
Menu
30 de agosto de 2021

Por designers solidáries, não solitáries

Falamos muito de autoria e reclamamos muito de clientes, mas nas nossas conversas ainda paira a dúvida: o que é necessário para que designers entendam que são trabalhadores?

O desenho "Vôo noturno" foi cedido por Céu Isatto (@ceu.tif no Instagram) para ilustrar este artigo

“Ricos” não trabalham. Tipo, trabalhar de verdade – não é com eles. Claro, eles podem ir aos seus escritórios, fazer reuniões, ficar no Whatsapp ou no Zoom negociando uma coisa ou outra, mas isso não é trabalho. “Essa atividade”, explica Álvaro Vieira Pinto, “não é trabalho, porque é o serviço para a conservação, defesa e alargamento do capital que possuem”. Esse filósofo brasileiro, a quem Paulo Freire chamava “mestre”, chegou a essa conclusão quando perguntou, no título de um livrinho, “Por que os ricos não fazem greve?”, de 1962.

Para entender o que ele quer dizer com isso, precisamos deixar bem desenhado: o contrário do trabalhar não é o não-trabalhar, o vadiar ou o procrastinar. Em termos sociológicos, o contrário do trabalhar é o capitalizar. O contrário do trabalhar é ganhar dinheiro explorando o trabalho do outro, porque essa exploração produz nada

Ou seja, capitalizar é coisa de burguês. Estou correndo o risco de ser excessivamente esquemático, já que com os avanços e a consolidação do neoliberalismo – mais ou menos a partir dos anos 1980 – o funcionamento da coisa toda é mais complicada que isso. Por exemplo, poderíamos dizer que a hegemonia do empreendedorismo é uma das maneiras que o capitalismo tardio achou de embaçar a divisão entre capital e trabalho. Esse novo modo de existência empreendedor, no fim das contas, é a internalização simultânea do mestre e do servo na subjetividade de cada um de nós. O resultado disso é que nós exploramos nosso próprio trabalho, num ciclo de trabalho, exaustão, culpa, trabalho, exaustão…

Se você se identificou (até demais) com isso, você está conosco. Embora hoje essa divisão esteja embaçada, ela não deixa de existir; é preciso saber enxergá-la nas grandes complexidades que enfrentamos, desde atribuir valor ao nosso trabalho criativo até as hierarquias empresariais disfarçadas em escritórios divertidos. Hoje, mais do que nunca, há aqueles que exploram o trabalho e aqueles que, de fato, trabalham. Nós, via de regra, estamos na segunda categoria. Sorte que, para constatar isso, basta olhar realmente para a sua realidade: dar um passo atrás, olhar de outra maneira, estranhalizar

Quando designers se propõem a falar da realidade do seu trabalho, falam a partir de um olhar apressado. Por exemplo, o consenso é reclamar do cliente. Uma das formas mais recorrentes que isso assume é a/o/e designer incompreendide: tudo que elu faz sempre é “corrompido” porque “o cliente não entende” ou “não dá valor” ao seu trabalho. (Às vezes, isso vem acompanhado também de uma pitada de arrogância, porque o cliente seria essa entidade ignorante.) Embora isso seja mesmo recorrente na prática profissional, fico pensando como a retórica de universalização dessa experiência opera em dois sentidos: num, para interromper qualquer indício de imaginação sociológica; noutro, para esconder as opressões que existem dentro do design.

A ideia de imaginação sociológica é angular para compreender a dimensão sistêmica das relações sociais, rompendo com a construção de mundo hiperindividualista. É aquele sentimento de quando você pensa “nossa, achei que isso era só comigo!”. Essa capacidade imaginativa é base para toda articulação social, que é condição necessária para a conquista e manutenção de direitos, que é, obrigatoriamente, uma ação política. Ou seja, é preciso nos reconhecer em situações comuns, dentro de um mesmo sistema, para poder modificá-lo. Reclamar do cliente até poderia ser um gatilho mobilizador dessa imaginação, não fosse a simultaneidade com que isso esconde as opressões internas ao design.

É ruim pra todo mundo, mas é mais ruim para uns do que para outros. Essa foi uma das muitas difíceis lições que precisamos aprender nesses (quase) 18 meses de pandemia. Quando nivelamos todas as experiências apagando os outros fatores que determinam cada realidade, isso tem um efeito bizarramente conservador: é a naturalização dessa condição. “É assim mesmo”, “todes passam por isso, até [DESIGNER FAMOSE]” e outras coisas do tipo. Como se isso fosse imutável e precisasse permanecer assim. Essa construção histórica, então, é capaz de se (con)fundir com o próprio real. Por fim, isso nos deixa solitáries entre nós mesmos, fazendo com que a imaginação sociológica se torne uma melancolia coletiva.

O campo do design – seja lá o que isso for – tem uns problemas narcísicos complicados de resolver. Ao mesmo tempo que nos olhamos no espelho o tempo todo – e projetamos nossa atividade em tudo ao nosso redor –, temos uma dificuldade enorme de realmente nos olhar. E nos escutar. Queremos escutar somente “aqueles que chegaram lá”, que, por sua vez, performam o chegar lá que aprenderam imitando os que tinham chegado lá antes – e assim por diante. Em vez disso, precisamos urgentemente nos olhar e ouvir aqueles que ainda estão aqui. A única saída para elaborarmos alternativas é construir a solidariedade entre nós.

As contrarreformas realizadas no Brasil desde 2016 evidenciaram a realidade de precarização em quase todas as áreas de trabalho – design não é uma exceção. A isso, somamos o vetor das economias de plataforma que garantem a permanente falta de segurança e estabilidade financeiras. No meio disso tudo, as relações sociais digitalizadas instigam o hiperindividualismo e promovem a tiktokização de quase todos os trabalhadores: já não é incomum a contratação pelas métricas das redes sociais, se você produz conteúdo e quantos seguidores você tem. Isso se difunde e impulsiona a ascensão da ideologia meritocrática, capaz de parasitar as mais diversas expressões e identidades: religiosa, acadêmica, de raça, classe, gênero, entre tantas outras. 

Se quisermos reclamar a tal política do design, precisamos responder algumas perguntas incômodas. Quem faz que tipo de design? A quem é permitido fazer design autoral? Todo design é igual? E por que não? Qual é a realidade dos estágios em design? Educação privada ou pública? E es professores? A faculdade impacta na carreira? Como? Quais são as dificuldades enfrentadas por egresses que formam um enorme exército de reserva no setor de prestação de serviços? Quais são as condições dos designers da “velha guarda”? Quais são suas condições de trabalho? Têm algum direito assegurado? E sua previdência? Quanto cobram e quanto recebem? Quem são seus clientes? Qual é a realidade econômica no trabalho em design para as pessoas das classes médias, das periferias? E em cada região do país? E entre cidades de um mesmo estado? 

Para além de sondar essas realidades e arriscar análises das diferentes conjunturas, precisamos começar a desenvolver alternativas a isso. Como não se submeter ao empreendedorismo e ao self-branding? Como seria uma cooperativa de designers? Ou uma guilda? É possível desenvolvermos uma plataforma sem nos comprometer com investidores? Por que não projetamos para nós mesmos? Como não cair no ciclo sem fim de precarização? Como designers podem se solidarizar com outres designers mais precarizades? Como criar espaços seguros para conversas, conscientização e ação? É possível fazermos greve? Que articulações políticas designers podem fazer?

Para essas questões, não há respostas certas; nossas tentativas serão fragmentos, esboços – mas nada disso as torna menos reais. Pelo contrário, as torna mais potentes. Com o espaço aberto pela Revista Recorte, a coluna Chão de fábrica tem como objetivo realmente olhar para nossas práticas no cotidiano. Convidamos todes a compartilhar relatos, testemunhos e utopias aqui. Assim, desenvolveremos a imaginação sociológica e desencadearemos a solidariedade entre nós, trabalhadores em design. Nesse sentido, encorajamos, sobretudo, aquelas e aqueles mais próximos ao fazer e cujas atividades, sob qualquer pretexto, são marginalizadas: estagiáries, recém-formades, “não-designers”, migrantes de trabalho criativo, precarizades — relacionando esses aspectos também às clivagens de gênero, raça, região e classe, entre outras.

Com isso, podemos caminhar em direção ao horizonte que Álvaro Vieira Pinto imagina, em que es trabalhadores solidáries trabalham livremente para si com o objetivo de criar novos valores e relações sociais e, por fim, uma nova realidade.

Este texto marca a abertura da coluna Chão de Fábrica, co-editada por Eduardo Souza. Integram a coluna histórias em primeira pessoa sobre trabalho, que possam inspirar a estruturar demandas e imaginar novas formas de organização.

Eduardo Souza é designer e professor no IFPE – Recife. Atualmente, pesquisa crítica em design gráfico para o doutorado, experimentando práticas pedagógicas junto aos estudantes. Sua pesquisa anterior investigou o estranhamento nos livros ilustrados, delineando as articulações entre texto e imagem para a experiência estética. Além disso, mantém o trabalho com desenho, pintura, ilustração e design gráfico no Instagram e discute design criticamente no Twitter e no Medium (@souzaeduardo em todos).
Ajude a Recorte a continuar independente. Contribua com o valor que puder
Assine a Recorte
Ler a Recorte pelo site é ótimo, mas imagina receber a edição anual impressa na sua casa? Conheça os planos de assinatura e escolha o que cabe melhor no seu bolso.