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15 de maio de 2022

O pesadelo trabalhista em Ruptura (Severance, 2022)

Ilustração 3D "Macrodata Refinement at Lumon Industries" cedida por Aaron Van de Weijenbergh (@aweyenberg no Twitter e @aaronin3d no Instagram)

Sabe aquele “alt-tab” que a gente dá entre um artboard e um meme no twitter? Ou quando a gente tenta ouvir uma música/podcast que adora enquanto leiauta para aproveitar esse tempo? Ou ainda, quando tem uma entrega para o dia seguinte mas não consegue parar de pensar em um problema pessoal? Não seria um sonho poder “desligar” do seu eu por um tempo pra focar no trabalho sem dificuldade, ou fechar o computador sem sequer lembrar o nome do chefe? Isso é o que ensaia a nova produção da Apple TV+, Ruptura (Severance, 2022). Um spoiler: a solução apresentada é também o pior dos pesadelos trabalhistas.

A série, que tem produção executiva do Ben Stiller, acompanha Mark e sua equipe nos escritórios da fictícia Lumon Industries, empresa que os submeteu a um procedimento cirúrgico que separa suas memórias de trabalho e vida pessoal. Quando as barreiras entre seus outies (persona que vivencia a vida pessoal) e innies (persona que vivencia o trabalho) se estreitam, começa uma jornada para descobrir a verdade por trás do misterioso trabalho da Lumon.

Só essa premissa já seria suficiente para uma boa história de ficção científica (e, de quebra, despertar certos gatilhos em muita gente), mas a produção vai além e, em um ritmo constante e crescente, explora os efeitos emocionais e psicológicos da perda de subjetividade desses personagens no ambiente de trabalho. Angústia, medo, paixão e revolta atravessam os funcionários da equipe de refinamento de macrodados em jogos de controle com a diretoria da Lumon. A própria cultura da empresa apresenta uma linguagem religiosa e fundamentalista, expressada através de vários signos, como a magnitude arquitetônica do prédio; o mito da sua fundação; a figura do fundador Kier, em quem todos são encorajados a se inspirar; um Conselho que nunca é visto, mas se faz onipresente; e até as obras de arte espalhadas pelas salas e corredores, que remetem à temática sacra.

Assistir a essa série pode ser uma experiência um tanto quanto paradoxal, em especial se você for designer ou trabalhar em áreas correlatas. Isso porque, apesar de todo cenário tradicional, rígido e burocrático, tão diferente do que costumam ser estúdios e startups, é muito fácil lembrar de alguma história de um colega ou experiência própria – se esta for a sua sorte. E se o contraste entre os cenários é grande, maiores são as semelhanças entre as estratégias como o fato de esses funcionários não terem muita certeza do que se trata o trabalho que realizam ou a que fim levarão suas ações para Lumon (abordando conceitos como a alienação do trabalho e os “bullshit jobs”); promoções ou gratificações muito oportunas quando se está prestes a questionar uma atitude suspeita de instâncias superiores; pequenos momentos de diversão como festinhas e brindes, dadas como benefício; o incentivo quase ridículo de disputas entre diferentes equipes; a aparente flexibilidade apesar da excessiva pressão por performance; e claro, o clássico apelo à comida – que na série, ironicamente, parece mais com um banquete infantil.

Mark S. (Adam Scott), Irving B. (John Turturro) e Dylan G. (Zach Cherry) no Departamento de Refinamento de Macrodados

Não é a primeira vez que vemos obras da ficção científica / especulativa abordarem as relações de poder e trabalho em metáforas ou de forma explícita. De H.G. Wells a Buffy, é possível ver estratégias de controle extrapoladas ao absurdo entre as linhas narrativas. Entretanto, o trunfo de Ruptura — para além de todos os aspectos técnicos, é claro — está no olhar perspicaz sobre a responsabilização do indivíduo de vigiar e explorar a si mesmo. Prova disso é que os próprios funcionários da Lumon optam por passar pelo procedimento de ruptura e subordinam parte de si mesmos às opressões do trabalho. E embora nenhuma dessas versões seja livre de fato, os outies isentam-se da responsabilidade ética para com os “innies”, afinal, eles não sabem o que acontece dentro do escritório. Não muito distante, todos nós, por diversas vezes também nos isentamos da nossa responsabilidade como membros da classe trabalhadora.

Embora gere difíceis reflexões sobre trabalho, controle e subjetividade,  Ruptura vem sendo aclamada por público e crítica até o momento e gerando muitas teorias e conversas em redes e fóruns — alô fãs de Lost! E não é por acaso. O excelente trabalho de fotografia, design de produção e trilha sonora ambientam muito bem a vida dentro do andar de ruptura, e são amarrados por uma direção muito assertiva em evocar a nossa curiosidade pelas vidas externas dos funcionários da Lumon.

Para os olhares mais atentos, será um deleite observar os diversos (e criativos!) enquadramentos, a paleta de cores (regradíssima), mobiliários, produtos e objetos com ar de década de 1970 que definem o tom do ambiente (e beiram o retrofuturismo), uma iluminação muito sagaz (especialmente tratando-se de um ambiente tão monótono) e transições de cena hipnotizantes pelos corredores da Lumon. 

Inclusive, essa é uma série que mostra mais do que descreve. E isso é maravilhoso, instiga nossa curiosidade pelos aspectos visuais de absolutamente tudo que é exibido. Seja pela reflexão ou pelo entretenimento, sugiro que os episódios de Ruptura sejam vistos aos poucos, dia após dia ou semanalmente, talvez. Maratonar pode ser um tanto quanto pesado e talvez seja melhor deixar aquele tempinho de maturação entre os acontecimentos da trama. Acredite, esse ritmo faz toda diferença para a experiência.

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Para quem ficou se perguntando quem fez a maravilhosa sequência de abertura, os créditos são do artista ​​Oliver Latta. Aos que acabaram a série com uma sensação de abstinência profunda, vale conferir o site e perfil no LinkedIn feitos para promover a  produção e o livro “Office” do fotógrafo sueco Lars Tunbjörk, que inspirou a fotografia do filme. E por fim, se você se interessou pelo tema das relações de trabalho na modernidade e procura uma leitura complementar, o livro “A Corrosão do Caráter” do autor Richard Sennett pode ser um bom ponto de partida.

Este texto faz parte da coluna Ficção é Realidade, co-editada por Gus Kondo. Nela, obras ficcionais como filmes, séries e livros são usadas para compreender e enfrentar o mundo real.

Wendel Anthuny é designer gráfico com interesse em comportamento, artes e cultura digital. Atualmente, trabalha criando produtos digitais na Work&Co e, em paralelo, pesquisa de maneira autônoma sobre estética e comportamentos emergentes. Também pedala, escreve e curte trocar uma ideia sobre (quase) qualquer assunto.
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