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6 de maio de 2021

Fascículo

Intervalo
desordenar · suspender · complementar · estender

“Era o baluarte da lontra. Bem se podia dizer que era um baluarte, pois o parapeito do tanque onde o animal se encontrava era protegido por fortes barras. Uma pequena construção imitando rochas e grutas bordejava, ao fundo, o tanque oval. Devia servir de casa ao animal, mas nunca o vi lá dentro. E assim fiquei muitas vezes numa espera infindável diante daquelas profundezas negras e insondáveis, para tentar descobrir a lontra. Se, por fim, isso acontecia, era apenas por um instante, pois o luzidio inquilino da cisterna logo voltava a desaparecer na noite líquida.”

Quando você conta até 100, todas as outras centenas são iguais.

Durante as filmagens, é agradável esperar pela chegada do tempo ideal. É quando a gente faz um intervalo. Se o técnico de iluminação, um homem na casa dos quarenta, estreita os olhos, encara o céu e diz: “É… Por enquanto, não será possível…”, todos exclamamos: “Ah, que bom!”.
(…)
Nos dias de hoje, dizem que é inviável, que esperar pelo tempo ideal é contraproducente. É algo que só a equipe de filmagem de Akira Kurosawa faz. Em algumas circunstâncias, porém, eles esperam pelas nuvens. Um céu de brigadeiro não é o quadro que se deseja. Também existem vezes em que esperam para rodar quando aquela, aquela nuvem passar para o outro lado da montanha. Que não se diga que é extravagância.”

"Não consigo deixar de pensar que isso já é um sonho"

 

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

 

 

"O livro como um todo está cortando o fluxo de comunicação."
"agora voltamos à nossa programação normal..."
1 …E o vento levou, filme de Victor Fleming, 1939 — 2 Verblist, Richard Serra, 1967-68 — 3 Rua de mão única: Infância berlinense, Walter Benjamin, 1990 — 4 Afogando em números, filme de Peter Greenaway, 1988 — 5 Ícone de carregamento — 6 À espera do tempo: filmando com Kurosawa, Teruyo Nogami, 2010 — 7 Vinheta indicativa de intervalo do filme Help, dos Beatles, 1965 — 8 Spiral: The best of Mr. Chao – A futurist collection, Guilherme Gerais, 2020 — 9 da exposição Marc Ferrez: Território e Imagem, IMS-SP, 2019 — 10 Navio Evergreen, 2021 — 11 Untitled, 2011-12, Francis Alÿs — 12 Celular com bateria removida — 13 Trono manchado de sangue, Akira Kurosawa, 1957 — 14 O Encontro Marcado, Fernando Sabino, 1967 — 15 Ficha de controle bibliotecário — 16 Tweet, @remixtheory — 17 Totally f***ed up, Gregg Araki, 1993
Igor Postiga é co-fundador do ecossistema Deep Tech encabeçado pela 1STi, onde é designer. Gosta de investigar relações inusitadas entre textos e imagens de origens diversas, além de novos formatos editoriais como o zine-stories.
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