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16 de agosto de 2021

Em busca das Designers Gráficas

Ilustração por Beatriz Batisteli / Estúdio Passeio

É preciso usar uma lupa para encontrar registros da participação das mulheres na história do design: elas estão presentes, mas sempre os mesmos nomes, em menções que parecem feitas por obrigação. No Brasil, essa dinâmica não é diferente – mesmo mulheres como Lina Bo Bardi e Carmen Portinho precisam dividir a fama com seus respectivos maridos. 

Os estereótipos de gênero associados às profissões criativas produzem um falso entendimento de que existe um menor sexismo na área, ou que essa já é uma discussão ultrapassada. Pelo design estar inserido em um contexto artístico, atributos como uma suposta “sensibilidade feminina” e maior “atenção a detalhes” são apresentados como pontos positivos, convenientes para a profissão. Acreditar que mulheres têm mais aptidão para design ou criatividade do que homens é tão sexista quanto acreditar no extremo oposto.

1 Como é dito em uma das lives da Letra Dela no Youtube, que discute a presença feminina no mundo das letras.

Vale lembrar que, dentro do design gráfico, existem diversas vertentes e especializações, cada uma com habilidades específicas necessárias e, portanto, crenças aliadas a estereótipos de gênero que afastam ou diminuem as mulheres na sua atuação profissional. Um exemplo disso é o campo do type design, visto como metódico e “muito complexo”1, no qual muitas mulheres sentem que não sabem o suficiente nem para começar aquela velha história de mulheres se candidatarem para vagas de emprego apenas quando cumprem 100% do requerido pela vaga, enquanto os homens sentem-se aptos a partir de 60%)

Mesmo com a existência de tantas barreiras, a porcentagem de mulheres em cursos de graduação e pós-graduação em design tem crescido, chegando em muitos casos a 50% ou mais. Quando analisamos a presença feminina nos cargos de liderança dentro de estúdios, agências ou até em premiações, a representatividade  diminui drasticamente. Onde foram parar essas mulheres? Isso sem falar nas designers negras, que sofrem um duplo apagamento e violência. Cheryl Miller, em 1987, expôs alguns fatores do racismo que influenciam o afastamento de pessoas pretas da área do design e, em 2019, a designer Hon Porfírio registra os impactos desses e outros fatores em sua formação acadêmica e em nossa sociedade atualmente.

Foi a partir desse quadro, de um presente que ainda sofre as consequências de um passado não tão distante, que o Designer Gráfica surgiu: da necessidade de pôr uma luz sobre as mulheres que fizeram e ainda fazem parte da história do design gráfico no Brasil. Iniciado como projeto de conclusão de curso da graduação em design pelas minhas sócias Juliana Argollo e Luíze Araújo, o DG rapidamente foi absorvido como um projeto paralelo dentro do nosso escritório. A primeira etapa de entrevistas para o Designer Gráfica, executadas em 2016, constou de 17 entrevistas, na época feitas presencialmente, com profissionais de diferentes perfis, trajetórias e tempo de carreira, contando sua própria história, falando sobre seus processos criativos e como se vêem enquanto mulheres na indústria criativa. Se até então a história do design gráfico insistia em citar mulheres apenas como coadjuvantes, o objetivo do Designer Gráfica é dar protagonismo e, sobretudo, voz. 

Durante o processo de transcrição e ajustes da primeira parte das entrevistas, que fomos subindo aos poucos no site do DG, sentimos falta de perfis mais próximos ao nosso: profissionais jovens, com poucos anos de carreira, mas que já estavam conseguindo conquistar seu próprio espaço no mercado. Assim, surgiu o DG Pocket, minientrevistas disponibilizadas no instagram com mulheres designers de até 30 anos. Como parte do processo de curadoria, vamos atrás de possíveis entrevistadas em listas de premiações e até em buscas livres em plataformas de portfólio como o Behance. Na dificuldade que encontramos para descobrir essas mulheres jovens, notamos duas grandes causas: 

A primeira delas é a falta de nomes e descrições nas fichas técnicas dos projetos inscritos em premiações. Os prêmios nacionais não possuem diretrizes específicas quanto a composição de fichas técnicas, deixando a organização a critério das empresas. Como resultado, temos fichas em formatos sem padrão, com diferentes descrições e detalhamento.

Em 2019 tivemos acesso a tabelas de ganhadores de duas premiações nacionais, cedidas pelas próprias organizações para que pudéssemos catalogar e quantificar a presença feminina. 

Uma característica percebida em uma parte das inscrições foi a omissão completa da individualidade da equipe do estúdio/escritório, descrita apenas como “Time X”. Levantamos algumas hipóteses para essa decisão: ela pode ter sido tomada para poupar tempo no momento do cadastro, ou talvez tenha sido proposital, visando fortalecer a ideia de trabalho em equipe (ainda mais no design, onde ainda existe a forte presença da figura do “gênio” enquanto indivíduo que possui uma visão diferenciada dos demais). Independente do motivo por trás desse tipo de crédito, o efeito colateral se torna danoso para os profissionais que fizeram parte do projeto, que deixam de ser vistos como indivíduos para integrar um Time, uma Equipe, um aglomerado único, uniforme e imutável. Ou seja, as fichas técnicas se tornam uma perspectiva irreal, especialmente ao considerarmos a rotatividade dos profissionais criativos dentro de estúdios e agências. O Time de hoje raramente será o mesmo Time de amanhã.

Tudo isso pode parecer procurar agulha em palheiro e, de certa forma, é. Mas, ao discutir a visibilidade das mulheres dentro do design e a falta de créditos e reconhecimento que nossas predecessoras tiveram ao longo dos anos, este detalhe se transforma num ponto importante para que possamos perceber mais essa forma de invisibilização. Isso levanta ainda o ponto de que, nomes que não indicam um gênero podem acabar não sendo percebidos como femininos. Nos moldes atuais, fazer o levantamento e recorte de gênero e racial em premiações se torna praticamente impossível. Se seu nome não está descrito como parte da equipe de um projeto altamente premiado, como as pessoas vão saber que você fez parte dele? A autodivulgação se torna essencial, o que nos leva ao segundo ponto…

2 A amiga e designer Mariana Barros escreveu recentemente sobre a frustração da busca pela perfeição e como deveríamos parar de temer a mediocridade.

Muitas mulheres têm vergonha de compartilhar seus trabalhos. Seja no Behance, no Instagram ou até para montar seu próprio site. Atribuo parte disso ao medo que temos da mediocridade. Estamos tão acostumadas a ver a presença das mulheres no design apenas quando são excepcionais ou “fora da curva” que sentimos que para entrar em algum espaço precisamos estar além. Ter referências incríveis, ao mesmo tempo que empoderador, também pode paralisar3. Além disso tudo, temos como cereja do bolo a cultura de internet, em que estamos constantemente comparando nossos rascunhos com os trabalhos finalizados dos outros. Como diz o ditado milenar: quem vê close, não vê corre.

Muitas mulheres têm vergonha de compartilhar seus trabalhos. Seja no Behance, no Instagram ou até para montar seu próprio site. Atribuo parte disso ao medo que temos da mediocridade.

Para o Designer Gráfica, principalmente na busca para a sessão Pocket, nossa lista de possíveis convidadas existe graças às indicações de outras mulheres que já foram entrevistadas. Enquanto rede, nós nos puxamos pra cima. Vemos em nossas amizades inspiração e resistência, e o acalanto de sabermos que não estamos fazendo nada sozinhas. O próprio DG, inclusive, só existe por conta dessa rede. Tivemos muitas mulheres nos dando força, seja cedendo seu tempo para falar com a gente, cedendo fotos e tipografias para usarmos no projeto ou até nos dando espaço em eventos para falar sobre o Designer Gráfica. Gerir um projeto como esse, que não só é sem fins lucrativos, mas também que existe dentro do ritmo cruel que o capitalismo exige que empresas de design operem, é uma tarefa quase hercúlea. É preciso de apoio (financeiro e laborial) da comunidade para que possamos manter todas essas iniciativas rodando e abrir espaço para muitas outras.

Júlia Lago é designer gráfica formada pela UNEB, letrista e type designer, pós graduada em Tipografia pelo SENAC. Nascida e criada em Salvador, é sócia fundadora do escritório de design e estratégia Motora, do Burocracias para Criativos e do projeto Designer Gráfica.
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