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29 de setembro de 2021

No escuro da Amazônia: design, ciência e conservação

As fotografias que ilustram este artigo são do Projeto Mantis.

O relógio marca 4 da manhã na Floresta Amazônica. Estamos na Reserva Nacional  Allpahuayo-Mishana, ao norte do Peru. Em nossa 3ª semana de expedição, a chuva cai serena em uma noite abafada e úmida. A respiração da floresta cria um efeito de vapor e neblina, nos envolvendo na escuridão. A água do céu se retém em milhares de camadas de folhas do dossel e se mistura com todo resíduo e resquício de vida que cobre essas árvores. O gotejar é constante, estamos cobertos de floresta. O vento denso carrega todas as fragrâncias e sua química – aromas doces, ácidos, misteriosos, pútridos, amargos, cítricos – se dissipando e acumulando em cada clareira. Estamos em silêncio, mas os seres da floresta em grande sinfonia. Nossos sentidos estão saturados, e é na nossa visão que reside toda concentração e foco. Rodeados de breu absoluto, nossas lanternas desenham o movimento de nossos olhos em cada folha, galho e tronco. Procuramos por algo. Pequeno, efêmero, camuflado, silencioso; estamos em busca de um inseto. O louva-a-deus. E por um instante eu me questiono – O que eu, um designer, estou fazendo aqui?

Minha história com a ciência começou há 5 anos. Durante diversas etapas de minha carreira trabalhei em agências de propaganda e marketing digital. Sempre fui apaixonado por publicidade e comunicação, mas aos poucos comecei a perder interesse nos clientes que atendia. Estava saturado pela demanda frenética das empresas: sentia que meu trabalho era superficial e minha criatividade constantemente banalizada. Números e conquistas dos clientes eram uma motivação, mas a constante busca por visibilidade, vendas, alimentar e engajar o público com trivialidades e repetição de modelos já não tinha tanto apelo para mim. Me dedicava para produzir conteúdo eficaz, porém extremamente volátil, que se diluía  no aluvião de informação e estímulos que recebemos diariamente nos veículos de comunicação. Eu estava feliz com colegas de trabalho, responsabilidades e estabilidade financeira – mas ao mesmo tempo me sentindo entorpecido e desestimulado. Foi quando conheci o Projeto Mantis.

Na época, tratava-se de uma iniciativa universitária de alunos de Biologia focada em estudar os louva-a-deus tropicais. Como tantas outras, era extremamente ambiciosa e ao mesmo tempo tinha enorme dificuldade em se comunicar com um público não especializado e se destacar na busca de parceiros e apoiadores. O potencial se perdia em uma identidade visual problemática e redes sociais amadoras. Meu trabalho começou como uma consultoria, uma ajuda a um amigo, mas rapidamente me vi imerso, envolvido e deslumbrado com o projeto e os seres da floresta. Decidi que queria fazer parte e me tornei diretor de criação da organização. O primeiro passo foi desenvolver um rebranding completo da marca, mais madura e impactante, e implementar uma direção de fotografia de destaque, além de regras para o conteúdo. As respostas já estavam ali, a equipe registrava seres inacreditáveis, mas, nas redes, dava preferência a banalidades. Ninguém tinha sido treinado para isso. Bastou um olhar profissional e sensível para revolucionar a forma como se apresentavam ao mundo. Os resultados vieram logo. No mesmo ano conquistamos nosso primeiro edital de pesquisa com a National Geographic Society e o crescimento do projeto foi exponencial desde então.

Ao longo dos anos, essa vivência trouxe um vislumbre de como se trabalha o design no meio acadêmico e científico; a maneira como se comunica a pesquisa. Não existe ciência desinteressante.

A demanda aumentou: palestras, expedições, eventos, e decidi me dedicar exclusivamente ao Projeto Mantis. Diversos questionamentos vieram à tona, me sentia como um infiltrado – um designer dentro de uma rede de cientistas. Na família perguntavam se eu queria cursar Biologia como alternativa de carreira. Nas entrevistas e documentários, perguntavam minha profissão, eu respondia “Designer”, e quando saía a matéria meu nome estava com a legenda “Pesquisador”. É interessante (e até compreensível), pois mesmo na nossa formação como designers/comunicadores não são apresentadas muitas alternativas à carreira em agências ou corporações. Era frustrante ter que enfatizar constantemente a minha relevância no que alcançamos e promovemos, mas passei a enxergar esse estranhamento das pessoas como um diferencial do nosso trabalho. Eu não pretendo e nem tenho interesse em cursar Biologia, já existem dois cientistas na minha equipe além de todos os nossos colaboradores… eu sou designer caramba!! Foi também um momento de abrir os olhos e perceber que eu jamais deixei de executar minha profissão, mesmo com uma mudança tão drástica na minha área de atuação. Desenvolvimento de campanhas, branding, estratégia, mídias sociais, fotografia, produção de vídeo, design thinking, a demanda só aumenta. A todo o momento surgem desafios e soluções que somente um designer pode realizar. A consequência é uma grande percepção de valor agregado ao projeto, influenciando inclusive a maneira como fazemos ciência.

Ao longo dos anos, essa vivência trouxe um vislumbre de como se trabalha o design no meio acadêmico e científico; a maneira como se comunica a pesquisa. Não existe ciência desinteressante. Porém, há trabalhos extraordinários e de extrema importância apresentados de formas que os desvalorizam. É frustrante que tantas iniciativas tão fascinantes não consigam se posicionar e expandir.

Nunca se falou tanto em Divulgação Científica e sua importância, principalmente no cenário atual do mundo. Também referida como “Popularização da Ciência”, tem como foco a difusão do conhecimento científico para públicos não especializados. Contudo, essa divulgação propõe um modelo de responsabilidade ao cientista que exige estabelecer diálogo e engajamento de público, que são práticas essencialmente de comunicação, design, jornalismo e marketing. Existe muita criatividade e muitas intenções positivas por parte dos cientistas, mas a condição atual de urgência e retrocesso político que vivemos agrava a pressão e competição por visibilidade. Divulgar o conhecimento científico é uma ação importante para combater fake news e a desinformação, e para isso é preciso muito profissionalismo. Tornar popular não significa deixar lúdico ou simplório, não podemos tratar temas sérios ou avanços com infantilidade ou de forma rasa. A sociedade tem muito a perder quando um cientista não consegue comunicar sua descoberta. Percebi então o Design como um grande impulsor da Ciência. As diversas maneiras em que essa ferramenta deve estar aliada à pesquisa. Infografia, organização de dados, otimização de processos, cativar, engajar e educar o público. É uma parceria fundamental e um nicho pouquíssimo explorado. É necessário que designers e diretores de arte enxerguem a lacuna que existe para a nossa profissão no meio científico e que precisa urgentemente ser preenchida. O pesquisador não sabe como se projetar e diversos designers acreditam que só existe carreira em marcas de refrigerante.

Não é fácil ultrapassar um repertório gráfico já associado com a floresta e fazer algo novo, porém existem tantas formas, cores, texturas e inspiração infinita permeando a natureza.

É interessante analisar a maneira como designers e comunicadores atendem esse segmento. É expressiva a quantidade de clichês e repetição de estereótipos, seja por falta de aprofundamento ou na busca de pertencimento ao setor. O uso de folhinhas verdes saindo de filamentos de DNA que formam uma árvore genérica ou uma associação a um microscópio, saturação de texturas de papel reciclado e o aspecto “gourmetizado” da sustentabilidade se repetem e se confundem. A comunicação para a ciência precisa inovar e competir. É impressionante nossa capacidade de vender um bem de consumo – a habilidade de storytelling que usamos para vender liquidificadores poderia muito bem ser usada para anunciar a descrição de uma espécie nova. Aplicam-se mais recursos, mais mentes criativas, mais conteúdo em torno de um objeto do que uma descoberta científica cuja relevância e importância é muito maior, a longo prazo. Do meu ponto de vista, não existe nada mais inspirador e referencial do que a ciência, a natureza, o invisível, a busca pelo desconhecido e nossa biodiversidade vibrante. Um design expansivo, exuberante, que personifica, agrega pertencimento e amplia nossa percepção e compreensão do mundo em que vivemos.

Não é fácil ultrapassar um repertório gráfico já associado com a floresta e fazer algo novo, porém existem tantas formas, cores, texturas e inspiração infinita permeando a natureza. Quando se trabalha um projeto ligado à Amazônia, por exemplo, o ponto de partida é evitar apropriação cultural e gafes, algo infelizmente frequente mesmo em grandes campanhas. É preciso se desafiar para criar projetos que carreguem a essência da floresta e sejam atemporais. Em nossa nova expedição, Amazônia do Poente à Aurora, buscamos referências no art nouveau, na personificação da Noite e uma paleta de cores expansiva em gradientes. Na anterior, Expedição Austral, idealizamos uma Amazônia utópica e tecnológica, inspirada na cultura pop oriental, indo além do briefing do cliente. As possibilidades são infindáveis, e é incrível perceber como a linguagem visual renova a maneira como enxergamos a floresta e a pesquisa. A cada nova expedição precisamos renovar nossa comunicação, nos desafiar para encontrar outras conexões, inspirações e referências. O design é capaz de caracterizar o trabalho científico e personalizar seus indivíduos e focos de estudo. 

Também não podemos colocar a responsabilidade somente no cientista ou no designer. Existem problemas sistêmicos e estruturais nesse meio. Para o cientista, a falta de financiamento e apoio é devastadora, principalmente no governo atual. É extremamente difícil conseguir capital para pesquisa e ainda mais incluir o processo de comunicação no orçamento. Muitas vezes os editais não abrem espaço para a parte de divulgação, não existe previsão de uso de verba para esse tipo de serviço. No panorama do design existe uma pressão capitalista intrínseca nos processos de criação para produzir o mais rápido possível enquanto a ciência trata de assuntos complexos que demandam tempo para serem entendidos de forma que possam ser expressos de forma não superficial.

A Ciência precisa ter o Design como aliado. O Design tem muito a se inspirar na Ciência. Juntos, são capazes de promover grandes mudanças e avanços a partir de projetos que encantem e convertam o pensamento crítico para o valor fundamental da pesquisa, da arte, da educação e da natureza no nosso futuro.

Existe um período do dia muito breve, quase ao anoitecer, em que o sol está no seu limite do horizonte e a luz atravessa a mata de forma estendida. Sombras de alto contraste se formam a caminho do poente, quando os últimos raios de sol transformam toda a floresta em ouro vivo. Árvores monumentais, toda a sua vida e suas formas cobertas de luz, quase como se elas mesmas emanassem esse brilho. Tudo à minha volta está mergulhado nessa atmosfera dourada, monocromática, aquecida, cor de damasco. Seco minhas lágrimas, e meu coração transborda. É beleza demais para meus olhos processarem, é riqueza demais para que eu consiga compreender, é efêmero. A floresta de ouro rapidamente volta às suas cores originais e agora o véu benevolente da noite envolve e gradualmente adormece as cores da floresta e a vida diurna. É hora do despertar da noite. Ali vivem os louva-a-deus. Meu trabalho é revelá-los.

Lvcas Fiat é designer pela ESPM-RJ, artista visual e explorador. Gótico e carioca, Lvcas é diretor de criação do Projeto Mantis, organização que trabalha com conservação, fotografia de vida selvagem, divulgação científica e pesquisa de louva-a-deus em florestas tropicais; é sócio fundador da Ooteca - Science Branding, agência focada em iniciativas científicas, socioambientais e de conservação. Participou de diversas expedições pela Mata Atlântica e Amazônia, apoiadas pela National Geographic Society e Greenpeace; junto ao Projeto Mantis, é finalista do TED Idea Search: Latin America 2021.
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