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19 de julho de 2021

Decodificando “O mundo codificado” de Vilém Flusser

O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. Vilém Flusser; organizado por Rafael Cardoso. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

Eu lembro da primeira vez que peguei O mundo codificado para ler: era a edição da Cosac Naify, com a jaqueta roxa, e eu ainda estava na graduação. Naturalmente, comecei a ler pelo primeiro texto, “Forma e material”, e já nos dois primeiros parágrafos fiquei atordoado e me sentindo meio burro. De lá pra cá, tenho ouvido relatos bem parecidos.

1 Vilém Flusser nasceu em Praga e emigrou para o Brasil em 1940, após a invasão alemã. Filósofo autodidata, foi professor convidado da USP, um dos fundadores do curso de Comunicação Social da Faap e colaborador regular do O Estado de S. Paulo e da Folha. O Mundo Codificado é uma coleção de textos seus publicados originalmente nos anos 80 e 90.
2 Atualmente, "O mundo codificado" faz parte do catálogo da editora Ubu.

Não conheço a história que levou à publicação desse livro, mas a minha fanfic desse ship é assim: o historiador Rafael Cardoso começou a se interessar por design, escreveu Uma introdução à história do design em 1999 e depois de um flerte rolou uma conexão com a linha editorial da Cosac Naify. Quando teve a oportunidade, ele sugeriu organizar o livro para que Vilém Flusser1 passasse a ser discutido por designers brasileiros. A ousada Cosac Naify2, que sacudiu o mercado editorial brasileiro, especialmente no campo do design, topou. Cá estamos.

Olhando com mais cuidado para O mundo codificado, fico com a sensação de que a motivação para selecionar esses textos foi algo como “véi, os designers precisam ler isso!!!”. E precisamos mesmo: a brilhante introdução de Rafael Cardoso, ainda de 2007, infelizmente permanece atual na convocatória urgente — que Flusser já fazia nos anos 1970 — de discutirmos o design filosoficamente. Mas não se deixe enganar pelo formato desse livrinho: isso não é uma tarefa fácil; o que também não a torna nada menos necessária.

As palavras de Flusser ainda brilham graças ao seu comprometimento com a complexidade dos fenômenos e da nossa existência. Seus textos refletem obstinadamente acerca das continuidades e rupturas ao longo da história da humanidade, além de se apropriar de noções dos mais diversos campos: mitologia, astronomia, química, física ou filosofia. Por isso, outro fenômeno recorrente entre seus leitores é o espanto quando ele “prevê” várias de nossas questões hoje: em certos trechos, ele parece descrever esta realidade para além e para aquém das telas. Acho que ele acharia graça de ser tomado como “profeta”.

Outro fenômeno recorrente entre seus leitores é o espanto quando ele “prevê” várias de nossas questões hoje: em certos trechos, ele parece descrever esta realidade para além e para aquém das telas.

Quero sugerir um roteiro de leitura para que você possa decodificar O mundo codificado e, com sorte, seja também transformada(o) nesse processo. Nesse sentido, uma atitude saudável ao ler Flusser é tentar não amarrar demais sua compreensão do texto (eu arriscaria dizer que é impossível esgotar qualquer um). Não há propósito em fazer isso. O mais rico dessa leitura é sua capacidade de extrapolar — cronologias, metodologias ou línguas — e não acho produtivo, numa primeira leitura, “explicar” o que quer dizer tal ou tal coisa. Muito mais interessante é se permitir explorar as associações e abduções feitas por Flusser. Então, não vou “explicar” nada aqui, apenas pontuar aspectos que podem te ajudar a não perder o fio da meada.

A estrutura básica da maioria desses textos é a seguinte: primeiro, Flusser anuncia sobre o que vai falar e, em geral, já dá a resposta. Ao longo do resto do texto, ele vai abrindo o caminho para  você, guiando seu raciocínio — mas sem deixar de apontar para outros caminhos alternativos. É comum que ele te acompanhe por um caminho sem saída só para explicar porque essa linha de raciocínio era questionável. Então, no final, ele “prevê” o nosso mundo com uma precisão absurda, colocando-o em termos que nos fazem estranhalizá-lo. Outras vezes, ele aponta para possibilidades que nem vislumbramos ainda.

Então, comece por A Fábrica: você vai reconhecer essa estrutura no texto e se acostumar com as largas pinceladas com as quais ele pinta a história da humanidade. Sugiro que você dê atenção em particular para como ele compreende a relação entre o ser humano e as ferramentas que temos à mão em cada momento da nossa história, já que “no momento em que a ferramenta (…) entra em jogo, é possível falar de uma nova forma de existência humana”. Isso vai ser importante para a leitura de A alavanca contra-ataca, em que Flusser vai espremer a relação humano-ferramenta até as últimas consequências: ainda em 1989 já éramos “escravos relativamente inteligentes de máquinas relativamente estúpidas”. Essa previsão fica ainda mais espantosa em A não coisa [1], quando caracteriza a pessoa das gerações seguintes como performer que usa “apenas as pontas dos dedos” e que “não quer ter ou fazer, (…) quer vivenciar”.

Esses primeiros textos devem espantar uma ideia recorrente de que Flusser seria autor de uma filosofia abstrata e desistoricizada, preocupado apenas com os jogos de linguagem. Muito pelo contrário, atestam que suas extrapolações são possíveis graças a uma profunda historicização, inclusive, dos seus conceitos de pré-história, história e pós-história. Essa periodização deve ficar clara a partir da leitura de Imagens nos novos meios, em que ele analisa o transporte das imagens nesses três períodos, considerando emissores e receptores em cada caso. A estrutura aqui é parecida com “A Fábrica”, então você vai lidar bem com o texto. Entre diversos insights poderosíssimos, o fato de que as imagens atualmente “têm que transformar os seus receptores em objetos” e que isso corresponde “apenas à intenção subjacente” ao seu transporte é uma importante contribuição para pensar a política do design hoje.

Com esses períodos históricos em mente, siga para O mundo codificado. Aqui, em vez de discutir o transporte, Flusser olha para os códigos. Sua evidência inicial é que o mundo tem muito mais cores do que antes da Segunda Guerra e isso indica “um aumento da importância dos códigos bidimensionais”. Os códigos são essenciais para o ser humano porque são a única coisa que permite “transpor o abismo que há entre ele e o ‘mundo’”. Ou seja, nós precisamos dar sentido ao mundo; o modo como cada período histórico faz isso, se em texto ou imagem, tem impacto nesses sentidos. São as diferenças, contradições e possíveis sínteses entre os tipos de pensamento que ele explora detalhadamente em Linha e superfície e, depois, em O futuro da escrita, em que finalmente especula uma escrita capaz de desmascarar as “ideologias escondidas atrás de um progresso técnico que se torna autônomo em relação às decisões humanas”.

Os códigos são essenciais para o ser humano porque são a única coisa que permite "transpor o abismo que há entre ele e o ‘mundo’”.

Esses três textos apontam para uma questão fundamental da teoria de Flusser: o elogio da superficialidade. Não é à toa que ele começa “O mundo codificado” justificando a discussão sobre o colorido das superfícies e, em “Linha e superfície”, fala dos impactos profundamente sociais e políticos do predomínio do pensamento imagético hoje. Entretanto, se esse pensamento não incorporar o seu complemento – o pensamento conceitual –, estaremos fadados “a uma despolitização generalizada, a uma desativação e alienação da espécie humana, à vitória da sociedade de consumo e ao totalitarismo da mídia de massa”. Soa familiar? Ao contrário do que o uso pejorativo da palavra “superficial” indica, boa parte dos textos de Flusser argumentam em favor da relevância das superfícies, sobretudo no mundo pós-industrial.

Ciente disto, você estará pronta(o) para ler O que é comunicação. A partir desse texto, abandonamos as tecnicalidades e adentramos a vertente mais existencial e filosófica, por assim dizer. Para Flusser, a comunicação é uma condição da existência humana que se contrapõe à natureza porque é altamente improvável. Mas nossa existência não se trata de estatística, mas de intenção. Por isso, discute as diferenças entre interpretação e explicação, evidenciando sua perspectiva fenomenológica: “um fenômeno não é ‘uma coisa em si’, mas algo que se manifesta numa observação, e por isso há pouco sentido em se falar da ‘mesma coisa’ nos dois modos de observação”.

A artificialidade da cultura é fundamental para a leitura dos próximos dois textos. Design: obstáculo para a remoção de obstáculos? e Sobre a palavra design dão um curto-circuito nas concepções mais triviais de design que temos hoje. Muito antes da hegemonia do design-resolvedor-de-problemas — em 1988 e 1990, respectivamente — Flusser coloca essa ideia de cabeça para baixo e a subverte. O(a) designer não só não resolve problemas, mas os cria por meio dos seus projetos (obstáculos), que são verdadeiras farsas: basta pensar  em como a alavanca engana a lei natural da gravidade. Antes de ser uma acusação, isso aponta para nossa emancipação, pois se a cultura é um design que busca nos “transformar de simples mamíferos (…) em artistas livres”, então podemos criar uma cultura em que os objetos sejam “cada vez mais veículos de comunicação”.

O(a) designer não só não resolve problemas, mas os cria por meio dos seus projetos (obstáculos), que são verdadeiras farsas.

É dessa capacidade de falsificar a natureza que Sobre formas e fórmulas vai tratar. Dado o estágio atual dos aparatos pós-industriais e da cultura imaterial, é possível “criar mundos” a partir das superfícies. Assim as ideias de ciberespaço ou de realidade virtual seriam apenas articulações precárias de mundos que podem se tornar tão reais quanto este que percebemos, “desde que consiga preencher as formas” igualmente bem. Entretanto, o que significaria essa liberdade “divina”? Em A não coisa [2], Flusser aponta que vão-se as mãos e ficam os dedos: a digitalização da tecnologia significa que não se trata mais de manipular, mas de digitalizar o mundo. Mas o que parece uma ampliação da liberdade na ponta dos dedos, “mostra-se como uma liberdade programada, como uma escolha de possibilidades prescritas”.

Isso vai ajudar a responder Por que as máquinas de escrever estalam? É simples: “o estalar condiz mais com a mecanização do que o deslizar”. Embora isso pareça mais verdade em 1988 com as máquinas de escrever, ainda digitamos da mesma maneira. Alguém poderia contestar, dizendo que as interfaces dos celulares já permitem deslizar pelos dígitos (será assim a caligrafia do futuro?). Em larga medida, o solucionismo tecnológico — a ideia de que é só uma questão de tempo até “a tecnologia” resolver — já é desmontada em Uma ética do design industrial?, em que demonstra que a complexidade da produção só dissolve a responsabilidade. Flusser ilustra: um industrial nazista pede desculpa porque suas câmaras de gás “estavam mal construídas: em vez de matar milhares de pessoas de uma só vez, matavam somente centenas delas”. Esse design seria bom se realizasse mais eficientemente sua função?

A responsabilidade dos designers adquire um aspecto extraordinário quando Flusser retoma a alegoria teológica de designers como Deus e vice-versa. Ele caracteriza  O modo de ver do designer como “uma espécie de olho-sentinela (…) graças ao qual deduz e maneja eternidades”. Tanto aí quanto em Design como teologia, Flusser parece exaltar essa capacidade “divina”, mas os últimos anos no Brasil demonstram, pela experiência direta, as implicações de “criar realidades” por meio dessas superfícies. É um pouco desse tom profético-apocalíptico que domina Rodas. Particularmente tortuoso, esse ensaio quase premonitório “é uma tentativa de olhar mais uma vez para trás (…) para capturar, pela última vez, atrás das rodas que derrapam, aquele mistério irradiante a partir do qual toda a história da humanidade foi colocada em movimento”. O texto foi escrito no ano da morte de Flusser, em um acidente de carro.

3 No artigo linkado, pudemos expandir essa discussão de maneira mais sistemática a partir do conceito de design da informação. Observamos que a conceituação de Flusser aponta que o paradigma da “neutralidade” do design é quase um blefe.

Os dois últimos textos são decididamente filosóficos, no sentido disciplinar, e articulam boa parte do que foi tratado em específico nos textos anteriores. Em Uma nova imaginação, Flusser coloca a questão entre escrita e imagem de uma perspectiva filosófica, oferecendo questões que podem nos levar a um novo nível de existência. Só agora recomendaria que você retome o primeiro texto, Forma e material. Aqui, temos um tratamento devidamente filosófico à noção de en+formar3 para definir o que seria “cultura imaterial”. É do confronto entre dois modos de conceber a atividade de en+formar que ele subverte Platão, ao dizer que  “a aparência do material é a forma. E essa é certamente uma afirmação pós-material”.

O mundo codificado é um excelente apanhado da filosofia de Flusser e já permite uma elaboração teórica muito mais complexa e crítica do que a maior parte da teoria do design desenvolvida até hoje. Só lembre que essa ordem de articulação que fiz aqui é apenas uma entre tantas outras possíveis. Talvez, essa seja a essência de tudo que Flusser propõe: este roteiro, desta forma, segue um design determinado. Se tivesse outro design, permitiria outros sentidos; “mas é exatamente assim: tudo depende do design”.

A tag “Clube do livro” é um desdobramento do projeto Clube do livro do design, idealizado por Tereza Bettinardi, que promove debates a partir da literatura do Design.

Eduardo Souza é designer e professor no IFPE – Recife. Atualmente, pesquisa crítica em design gráfico para o doutorado, experimentando práticas pedagógicas junto aos estudantes. Sua pesquisa anterior investigou o estranhamento nos livros ilustrados, delineando as articulações entre texto e imagem para a experiência estética. Além disso, mantém o trabalho com desenho, pintura, ilustração e design gráfico no Instagram e discute design criticamente no Twitter e no Medium (@souzaeduardo em todos).
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